Pepe diz que título em 58 fez Brasil ser temido e aposta em Neymar por hexa

Mazzola, Pelé, Zito e Pepe foram homenageados no palco da final da Copa de 1958 / Crédito da Foto: CBF/Divulgação Direito de imagem CBF
Image caption Pepe (último à dir.) conquistou o primeiro título mundial da seleção brasileira na Copa de 1958, na Suécia

Faltando pouco menos de cinco meses para o pontapé inicial da Copa do Mundo, a BBC Brasil inicia uma série de entrevistas que relembram as histórias dos cinco títulos mundiais da seleção brasileira, começando com a primeira conquista, que foi um divisor de águas para o futebol do país.

Até 1958, no Mundial da Suécia, o Brasil era "mais um" entre os países que disputavam a Copa do Mundo. Havia conquistado o vice-campeonato em 1950 e chegado às quartas de final em 1954, mas ainda não tinha o respeito que tem hoje dentro de campo.

Bicampeão mundial (1958 e 1962) com a seleção, Pepe fazia parte daquele time juntamente com craques como Nilton Santos, Didi, Pelé e Garrincha.

Ele tinha 23 anos na época e era titular absoluto da seleção até sofrer uma lesão às vésperas da Copa que o tirou do Mundial. Ainda assim, ele embarcou junto com a delegação brasileira para a Suécia.

O segundo maior artilheiro da história do Santos, conhecido como "Canhão da Vila", conta que o título de 1958 fez com que a camisa verde-amarela passasse a ser "temida" no mundo inteiro.

“A partir desse momento, o Brasil virou uma força no futebol mundial. Hoje, os adversários, quando veem a camisa amarela, respeitam e se assustam até. E tudo começou lá em 1958", conta o ex-atacante.

Confira abaixo a entrevista:

BBC Brasil: O que o título de 1958 representou para o Brasil?

Pepe: Representou muito porque, a partir dessa Copa, o Brasil passou a ser respeitado internacionalmente e passou a ser considerado grande referência. Foi aí que o mundo conheceu de perto o futebol brasileiro. Porque os europeus não nos conheciam muito bem, não havia esse intercâmbio que existe hoje com a internet, a TV, então os europeus ficaram surpresos com a qualidade do nosso futebol.

BBC Brasil: Qual era o peso de representar o Brasil no Mundial naquela época?

Pepe: A gente saiu do Brasil com a expectativa de fazer uma boa Copa, mas mesmo com o bom planejamento, a gente não tinha muita certeza se podia realmente ser campeão. O Brasil não era considerado favorito. E isso fez bem para nós, porque os jogadores foram entrando de surpresa.

A partir desse momento, dessa Copa, o Brasil virou uma força no futebol mundial, o respeito desses jogadores do mundo todo agora é enorme, porque todos quando veem a camisa amarela, respeitam e se assustam até. E tudo começou com esse título lá em 1958.

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Image caption Seleção goleou a Suécia por 5 a 2 e conquistou o primeiro título mundial de sua história

BBC Brasil: O que fez aquela seleção conquistar o primeiro título da Copa?

Pepe: Os jogadores diferenciados que nós tínhamos, o programa pré-estabelecido da comissão técnica, a preparação física… desta vez, o Brasil se organizou para ganhar a Copa. Coisas que nunca tinham sido feitas antigamente, foram feitas naquele ano.

Nós tínhamos uma comissão técnica muito boa, que tinha um psicólogo que nos deixou absolutamente à vontade. O Brasil começou aquela Copa lento, mas se fortaleceu muito com a entrada do Pelé e do Garrincha. Eles é que foram as surpresas, o Pelé tinha só 17 anos na época.

E o time com ele e com Garrincha era muito melhor. Eu me lembro que o Nilton Santos falava:"quando tiver apertado, dá a bola para o Mané". E aí o Mané (Garrincha) driblava três ou quatro de uma vez. Naquela época, não havia deslealdade, ninguém dava pontapé, então ele passava por três de uma vez.

BBC Brasil: Vocês sentiam que seriam campeões? Havia esse tipo de sentimento no vestiário?

Pepe: Sentíamos que seríamos campeões ao longo da competição, porque começamos a ver que dava. Passamos por adversários fortes e aí o Nilton Santos (lateral esquerdo) e o Djalma Santos (lateral direito), que já tinham experiência em outras Copas, faziam a gente ver que tínhamos uma chance muito grande de ganhar. A gente via os tapes dos adversários e o time que mais nos impressionou era a França, então a gente pensava que tinha que passar da França para poder ser campeão. O resto a gente via que não tinha condição alguma de suportar a pressão brasileira.

E no jogo final contra a Suécia, que estava jogando em casa, o povo sueco aplaudiu o Brasil de pé. Eles viram que aquela seleção realmente era diferente.

BBC Brasil: Como foi enfrentar uma lesão logo às vésperas da Copa?

Pepe: O Brasil fez dois jogos amistosos na Itália antes de ir para a Suécia, uma semana antes de começar a Copa. Eu joguei os dois, eu era titular na época, só que contra a Inter de Milão, eu estava jogando e aí eu passei pelo ponta direita deles e ele me deu um toque no tornozelo direito por trás. O engraçado é que eu só conduzia a bola com a perna esquerda, então não havia motivos para ele me dar um toque na perna direita, ele foi desleal, esse cidadão.

Eu realmente fiquei com muita raiva dele por causa disso. Ele não foi desportivo. Me tirou da Copa porque eu fiquei com o tornozelo muito machucado e, naquela época, não tinha o que tem hoje para tratamento, era só gelo, água quente e mais nada. Eu só fiquei bom na semana do jogo com a França (semifinal), mas o técnico resolveu manter o time, claro, porque o Zagallo correspondia e naquele tempo não havia substituição, então jogar com um atleta que estava lesionado era correr um risco desnecessário. Essa com certeza é uma das grandes decepções que eu tenho no futebol.

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Image caption Pepe fez parte de time histórico no Santos, ao lado de Pelé, Zito e outros craques

BBC Brasil: Como é ficar lesionado e ter que "assistir" à Copa em vez de jogá-la? Situação parecida pode ser vivida pelo atacante Fred, do Fluminense, nesta Copa do Mundo.

Pepe: É duro ficar fora, você torce, fica do lado de fora querendo que ganhe, mas queria estar dentro de campo, fazendo gols. Eu tinha uma característica diferente do Zagallo, eu era um atacante, fazia muitos gols. Eu tenho impressão de que poderia fazer mais gols que o Zagallo naquela Copa, ele fez apenas um gol. Pelas participações que eu tinha contra times estrangeiros eu tinha característica muito boa de velocidade e chute forte. Mas agora fica tudo na imaginação de como poderia ter sido. O Fred é um jogador muito bom, ele me parece muito com o Careca (atacante da seleção brasileira na Copa de 1986), é habilidoso e decisivo, ele vai fazer muita falta se não jogar. Nós temos outros bons atacantes, mas não temos ninguém decisivo como ele.

BBC Brasil: Qual é a sua expectativa para o Neymar na Copa deste ano?

Pepe: A expectativa é a melhor possível, ele é um grande jogador, hoje em dia ele é o segundo lugar atrás do Messi, o Messi é o melhor do mundo e o Neymar é o segundo. Depois da Copa a gente vai ver quem vai ser melhor do mundo, quem for campeão vai ser. O Neymar é a melhor coisa que temos na seleção brasileira. Eu o conheço desde cedo e ele já desequilibrava naquela época, já chamava responsabilidade para ele, pode confiar. Só espera que ele resista à forte marcação, porque hoje se o cara puder tirar o melhor jogador de uma seleção, ele tira, não existe mais lealdade no futebol.

BBC Brasil: Qual é a sua expectativa para a Copa de 2014?

Pepe: É muito bom ter a torcida a favor, mas em 1950 nós também tínhamos. Mas não dá para ficar relembrando 1950, o time é bom, de primeira qualidade, time que foi muito bem armado pelo Felipão e que tem no Neymar seu principal jogador, tem jogadores experientes. Vai ser uma copa de primeiro nível. Não tivemos muita sorte no sorteio, mas temos a sorte de ter o Neymar do nosso lado e nós vamos ganhar a Copa.