Lucas Mendes: Varejão brasileiro

Às cinco da tarde estou na mesa de um evento com cinco líderes do varejo brasileiro, um dos segmentos mais prósperos e pesados da nossa economia.

Há vinte anos, uma montadora de automóveis tinha mais empregados do que todas as varejistas do Brasil. "Hoje a maior das varejistas tem mais empregados do que todas montadoras juntas", diz Flávio Rocha, CEO da rede Riachuelo-Guararapes, a maior confecção de vestuários da América Latina, com mais de 200 mil peças por dia. Será verdade?

Há exatamente cinco anos, naquela mesma hora, a dez quarteirões, um piloto desceu com um jato comercial em pane no meio do rio. As câmeras filmaram o macio encontro com a água do avião com mais de 100 passageiros a bordo. Nenhum ferimento grave. "Milagre no Hudson", garantiram as manchetes, repetidas até hoje no aniversário.

Nova York tem uma vocação para extremos, do milagroso ao trágico, como o 11 de setembro, dos maiores heróis, Super-Homem e Batman, aos maiores vilões.

Comento com os executivos do varejo que o Brasil é mais chegado à palavra milagre do que a tragédia, e queria saber deles como veem este futuro próximo que parece sombrio. Para os investidores estrangeiros, o milagre brasileiro se mudou para o México e países da Ásia.

Luiza Helena Trajano, presidente da rede Magazine Luiza, responsabiliza a imprensa pelo pessimismo. Luiza fala sem censura. Para ela, o Brasil tem seus problemas, mas vai bem. A presidente Luiza senta à direita da presidente Dilma nas periódicas reuniões do Conselhão, um grupo de umas 80 pessoas em posições de liderança que vão a Brasília buzinar no ouvido da comandante. Luiza acha que quando Dilma for reeleita, se livrará das amarras.

Os outros na mesa, Sônia Hess, presidente da Dudalina, também membro do Conselhão, Manuel Correa, diretor-geral da Saint Gobain/Telha Norte, gigante em materiais de construção, e German Quiroga, que ajudou a construir o comércio digital brasileiro, concordam que o Brasil não vai tão mal quanto dizem. Tiveram bons resultados nas suas empresas em 2013 e esperam resultados ainda melhores em 2014.

Zeinep Ton é uma guru do varejo americano. Turca de nascimento, trabalhava na confecção do pai costurando bolsos nos roupões de banho. Uma chatice mal paga e repetitiva, mas que exigia atenção. Veio para os Estados Unidos, estudou economia e passou anos investigando como poderia incentivar empregados desmotivados no varejo.

Hoje, é professora de gerenciamento de empresas no MIT e o livro dela, Best Jobs Strategy, sai este mês. Para um país que tem milhões de empregados no varejo, as pesquisas e conclusões da professora Ton reforçam noções de que quanto mais bem pago e bem treinado o empregado, melhor para o patrão.

Um aumento de US$ 1 na hora de trabalho gera US$ 10 nas vendas. Mercadona, a cadeia espanhola, gasta 5 mil euros no treinamento de cada empregado. Na crise espanhola, aumentou o faturamento em 10%.

Costco, uma rede americana que ganhou um prêmio de "empresa do ano", é um conglomerado de feios galpões gigantes com estantes cheias de produtos em grandes volumes, por dúzias e galões. Os empregados dão informações sobre tudo, dos modelos de televisão ao sabão da máquina de lavar. Ganham US$ 21 por hora. A maior empregadora do mundo, a Walmart, paga US$ 13. Há mais de dez anos, o retorno da Costco para os investidores é maior do que o da Walmart.

Melhores salários, mais empregados e mais bem treinados, são a base da fórmula da estratégia dos melhores empregos de Zeinep Ton. Os varejistas brasileiros concordam com ela, mas condições diferentes nas leis trabalhistas e impostos entre Estados Unidos e Brasil complicam a comparação.

É o custo Brasil, que Flávio Rocha chama de "varejo infraero". Nossos produtos são tão caros que, só de roupas, entram no Brasil, num mesmo dia nas malas dos turistas (brasileiros de volta ao país), mais do que as cinco maiores varejistas brasileiras de roupas vendem juntas.

Não sei como o Flávio Rocha viu o que entra nas malas dos turistas. Mas pelo que vejo quando compram em Nova York, parece verdade.