Conferência sobre Síria começa com troca de farpas e sem expectativas

Walid Muallem e Ahmad Jarba | Foto: AFP Direito de imagem AFP
Image caption Oposição apresentou relatório internacional como prova de tortura e execução de presos na Síria

O início da conferência de Genebra-2, na Suíça, foi marcado por trocas de farpas entre o governo Sírio e os Estados Unidos, além de troca de acusações entre o representante do regime de Bashar Al-Assad e o principal grupo de oposição do país.

A conferência para por fim ao conflito sírio teve início nesta quarta-feira na Suíça, com poucas expectativas de que um acordo de paz seja alcançado.

Discursando na abertura do encontro, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu aos envolvidos que mantivessem um diálogo construtivo, mas nenhum dos lados pareceu querer ceder em suas posições.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, afirmou que não havia "qualquer possibilidade" de o presidente Bashar Al-Assad permanecer no poder.

Em resposta à declaração de Kerry, o ministro de Relações Exteriores da Síria, Walid Muallem, disse que "ninguém no mundo tem o direito de conferir ou retirar a legitimidade de um presidente, a Constituição ou uma lei, exceto os próprios sírios".

Cerca de 40 chanceleres, incluindo o representante do governo do presidente sírio, Bashar Al-Assad, e dos insurgentes, estão na cidade suíça de Montreux para discutir o comunicado de Genebra, que prevê um plano de transição política para o país, castigado por um conflito civil que já dura três anos.

Além de deixar mais de 100 mil mortos, o conflito na Síria, que começou em março de 2011 em meio à Primavera Árabe, também obrigou a milhões de pessoas a deixarem suas casas.

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Image caption Secretário de Estado americano exige que Assad deixe o poder

O encontro em Montreux é o primeiro em que aliados de Assad e a principal legenda de oposição – a Coalizão Nacional – se encontraram frente à frente desde o início da guerra civil.

Neste primeiro momento, a conferência ouvirá os 40 chanceleres presentes. A próxima etapa, prevista para começar na próxima sexta-feira, envolverá a mediação das conversas entre governo e rebeldes.

'Tempo é sangue'

Em um discurso de abertura inflamado, o chanceler sírio, Walid Muallem, afirmou que alguns países que participam da conferência "têm o sangue dos sírios em suas mãos" e estão testando desestabilizar a Síria.

"A Síria é um país independente e fará o que for necessário para se defender."

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Image caption Encontro começa com poucas esperanças de resolução do conflito

O chanceler sírio também estourou o tempo limite de 10 minutos e ignorou as tentativas de intervenção do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. "Eu tenho o direito de dar a versão síria dos fatos aqui", disse.

O líder da Coalizão Nacional, Ahmad Jarba, afirmou que a oposição síria não "escolheu pegar nas armas", mas "foi obrigada a fazê-lo devido à repressão do governo".

Ele mostrou uma fotografia extraída de um relatório recente feito por investigadores de crimes de guerra, que afirma comprovar a tortura "sistemática" e a execução de presos da oposição na Síria.

O relatório foi divulgado na quinta-feira, mas foi considerado sem credibilidade por Damasco.

Jarba solicitou ao governo sírio que assine imediatamente o documento de Genebra e transfira o poder a uma autoridade de transição. "Para os sírios, tempo é sangue", disse.

Diálogo construtivo

Em seu discurso de abertura, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu as partes envolvidas a manter um diálogo "sério e construtivo".

"Não vou medir palavras – os desafios diante de vocês e de todos nós são formidáveis. Mas a presença de vocês aqui eleva a esperança (de um acordo de paz)", afirmou.

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Image caption Chanceleres dizem que conferência em Genebra é apenas 'primeiro passo'

Já o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou que as discussões "não podem ser simples, não podem ser rápidas", mas que há "uma responsabilidade histórica nos ombros dos participantes".

Ele insistiu repetidamente que o Irã, cujo convite a participar da cúpula foi desfeito, deveria estar participando das negociações.

O secretário de Estado americano, John Kerry, lembrou em seu discurso que o levante na Síria começou como um processo pacífico, mas afirmou que o governo respondeu "com força desmedida".

"Nós vemos apenas uma única opção: negociar um governo de transição a partir de um consenso mútuo", afirmou ele."Não há outro caminho, ou outra forma possível, de que um homem que liderou uma retaliação brutal contra seu próprio povo possa voltar a ter legitimidade para governar", disse Kerry em relação ao presidente sírio, Bashar Al-Assad.

Paciência e persistência

Os chanceleres presentes em Montreux descartaram que das conversas surja um acordo de paz imediato e acrescentaram que a conferência será apenas o primeiro passo desse processo.

O ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier, afirmou que é preciso "ter expectativas comedidas". "Não veremos um triunfo da paz durante essas discussões", disse.

No início da semana, as Nações Unidas retiraram o convite ao Irã para participar das negociações, dizendo que o país havia aceitado o plano para um governo de transição na Síria, resultado de um acordo realizado em 2012.

O presidente do Irã, Hasan Rouhani, afirmou nesta quarta-feira que duvida do sucesso da conferência de paz para lutar contra o terrorismo e resolver o conflito na Síria devido "à falta de atores importantes".

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