Em Davos, Dilma faz discurso sob medida, mas plateia espera ações concretas

Dilma Rousseff durante discurso em Davos (AP) Direito de imagem AP
Image caption Em Davos, Dilma afirmou que controle de inflação é essencial

Diante de um lotado auditório principal do Fórum Econômico Mundial, em Davos, a presidente Dilma Rousseff fez nesta sexta-feira um discurso moldado sob medida para a plateia formada por empresários e investidores, com a promessa de combate à inflação, responsabilidade fiscal e abertura a investimentos privados, principalmente por meio de parcerias público-privadas (PPP).

"O controle da inflação e o equilíbrio das contas públicas são essenciais", afirmou Dilma durante o discurso de cerca de meia hora. "A estabilidade da moeda é um valor central do nosso país e não transigimos com a inflação", disse.

A presidente afirmou que a inflação permanece sob controle e que o objetivo do governo é a convergência da taxa para o centro da meta. "Nos últimos anos, perseguimos o centro da meta e trabalhamos para lograr a meta. Os resultados estão dentro do limite do regime monetário", disse.

Ela citou uma melhoria das contas públicas e a redução constante da proporção da dívida pública em relação ao PIB nos últimos anos. "Acredito que temos uma das menores dívidas públicas do mundo", afirmou.

A presidente lembrou os grandes projetos de infraestrutura necessários para reduzir o "gargalo de décadas, agravado pelo forte crescimento da demanda nos últimos anos" e afirmou que o país "precisa e deseja uma parceria com o investimento privado".

Ela citou ainda o programa de concessões de estradas e aeroportos e afirmou que o país "respeita os contratos" e cria o ambiente necessário para atrair investimentos.

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Alguns membros da plateia ouvidos pela BBC Brasil logo após o discurso elogiaram a fala, mas manifestaram preocupação com pontos específicos como o ambiente de negócios ou o controle de gastos públicos. Muitos também disseram que esperam agora ver se o governo cumprirá com os compromissos manifestados pela presidente.

"A presidente manifestou otimismo e disse o que esperávamos ouvir”, observou Veli-Matti Reinikkala, presidente do setor de automação de processos da multinacional ABB. Ele reclamou, porém, dos atrasos em projetos públicos de infraestrutura, como os comandados pela Petrobras na exploração do pré-sal. "Não sei por que estão tão lentos. Esperamos que possam acelerar", disse.

Um representante de uma multinacional concessionária de serviço público no Brasil, que pediu para não ser identificado, disse que a plateia não esperava anúncios de grandes mudanças de política, mas simplesmente uma clareza no compromisso do governo com a estabilidade monetária e financeira. Para ele, no entanto, é preciso esperar para ver se isso ocorrerá na prática.

Para Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do banco Bradesco, o discurso de Dilma "foi claro e atendeu às expectativas". Porém ele observou: "Foi um discurso de conteúdo protocolar, político". "O Fórum não seria o local para o anúncio da alteração de diretrizes", disse.

O anfitrião do encontro, o criador e presidente do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, afirmou logo após o discurso de Dilma que havia uma dúvida sobre o otimismo em relação aos países emergentes, mas que a presidente descreveu "as políticas necessárias para justificar o otimismo".

Ele terminou dizendo esperar que o Brasil tenha um "grande ano" e, lembrando a realização da Copa do Mundo, disse a Dilma esperar que "seu time, incluindo o time do governo, marque o maior número possível de gols".

Convites recusados

Dilma participa pela primeira vez do encontro anual em Davos, após recusar convites nos três primeiros anos de seu governo. Um dos objetivos da presença da presidente no evento deste ano era tentar dissipar as dúvidas sobre a saúde da economia brasileira que vêm crescendo nos últimos tempos entre investidores e empresários.

Com a inflação alta, que obrigou à reversão dos cortes de juros verificados nos últimos anos, aumento de gastos públicos, redução do superávit primário e crescimento econômico baixo, o Brasil viu no último ano uma reversão do clima de otimismo que pairava principalmente no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula esteve em Davos por três vezes, a última delas em 2007. Ele foi pela primeira vez ao fórum logo no primeiro mês de seu primeiro mandato, em janeiro de 2003, como parte de seu esforço para convencer os mercados de que seu governo manteria a estabilidade monetária e uma política fiscal conservadora.

Dilma, que até então vinha desprezando o Fórum Econômico Mundial, se viu compelida a comparecer a Davos neste ano para tentar reverter a onda recente de pessimismo.

Por conta disso, ao contrário dos últimos anos, quando o Brasil teve uma representação apagada no encontro, neste ano a presidente chegou acompanhada de vários integrantes do primeiro escalão. Cinco ministros acompanham Dilma em Davos.

A participação da presidente também levou a um aumento na presença de empresários brasileiros no fórum deste ano.

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