Cairo tem 'dia de Bagdá' com bombas nas ruas e moradores assustados

Explosão de bomba no Cairo. Foto: Reuters Direito de imagem REUTERS
Image caption Sexta-feira foi um dos dias mais tensos dos últimos meses no Cairo

A sexta-feira ainda amanhecia quando o chão tremeu em diversos bairros do Cairo. Um carro-bomba explodiu em frente a um prédio de segurança no centro da capital, deixando quatro mortos, incluindo três policiais. Era só o início do dia de Bagdá do Cairo.

Outras três explosões, todas ao redor de instalações policiais, deixaram outros dois mortos, na véspera do terceiro aniversário da revolução de 2011, neste sábado.

A explosão no centro deixou uma enorme cratera na rua e destruiu diversos andares do prédio. O ataque danificou ainda o Museu de Arte Islâmica do Cairo e, à noite, voluntários diziam que cerca de metade dos artigos poderia ter sido perdida.

O ataque, no entanto, não assustou uma multidão de egípcios que se agrupou em frente ao prédio, agitando bandeiras e pôsteres do general Abdel Fattah al-Sisi, chefe das Forças Armadas, e cantando músicas por sua candidatura à Presidência, ignorando as poças de sangue no chão e destroços do carro explodido.

'A cama tremeu'

Num bairro residencial do Cairo, um artefato explodiu perto de uma estação do movimentado metrô. “A cama tremeu”, contou um morador. Horas depois, mais atos pró-Sisi. Em todos os casos, manifestantes já tinham seus culpados: a Irmandade Muçulmana.

Relatos surgiam de que possíveis integrantes do grupo islâmico estariam sendo perseguidos nas ruas e policiais estariam desaconselhando motoristas com longas barbas, uma tradição de membros da Irmandade, a evitar áreas consideradas delicadas. Jornalistas também reportavam serem atacados por multidões enfurecidas, no que se tornou habitual no Egito.

Durante todo o dia, o voo rasante de um helicóptero militar atraía olhares dos poucos que se saíam às ruas, que já estavam tomadas por veículos do Exército e soldados, num reforço de segurança para os atos deste sábado.

Já à noite, Cairo era uma cidade diferente. Um perturbador silêncio tomou conta da capital, quieta sem as buzinas dos carros, ausentes das ruas. Restaurantes e bares, que têm na sexta-feira um de seus mais movimentados dias, fecharam por questões de segurança, num ato raro por aqui.

Não precisava tanto: moradores preferiram ficar em casa, temendo novos ataques com o fim do dia. Muitos tentavam entender a escalada da violência, mas pareciam ser unânimes de que "este era só o começo", como disse um egípcio.

A cidade acordava neste sábado já respirando tensão, com dezenas de marchas programadas por diferentes grupos para relembrar a revolução, numa receita para novos confrontos.

Na emblemática praça Tahrir, acessos estavam fechados e um helicóptero do Exército já sobrevoava a área nas primeiras horas da manhã. Lojas estavam fechadas e a maioria das ruas permanecia deserta.

O Cairo, novamente, se preparava para o pior.

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