Caso de Bieber alimenta campanha contra tratamento desigual de imigrantes nos EUA

UndocuMeme, campanha pelo tratamento igual a imigrantes | Crédito: Facebook Direito de imagem UndocuMeme
Image caption Página 'UndocuMeme' foi criada por jovens hispânicos no Facebook

Organizações de defesa dos direitos dos imigrantes nos Estados Unidos vêm criticando o que classificaram como "tratamento desigual" dado ao cantor pop canadense Justin Bieber por autoridades do país.

Segundo essas entidades, Bieber, que soma inúmeros delitos em sua ficha criminal fora dos palcos, já teria sido deportado se tivesse outra origem racial ou sócioeconômica.

Há duas semanas, o cantor, de 19 anos, foi preso em Miami Beach, no Estado americano da Flórida, acusado de dirigir sem licença e sob efeitos de álcool e drogas.

Bieber negou as acusações e foi posto em liberdade poucas horas depois após pagar uma fiança de US$ 2,5 mil (R$ 6 mil).

Segundo argumentam as entidades de defesa dos direitos dos imigrantes, os crimes cometidos por Bieber em Miami Beach já teriam sido suficientes para que as autoridades americanas iniciassem um processo de deportação do cantor.

As organizações lembram ainda que o astro já tinha cometido outros delitos, como quando foi acusado de agredir e ameaçar um vizinho na Califórnia.

Na semana passada, uma petição enviada à Casa Branca pedindo a deportação de Bieber recebeu mais de 200 mil assinaturas.

Redes sociais

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Image caption Usuários foram convidados a enviar imagens de si mesmos com cabelos loiros e olhos azuis

A polêmica em torno da deportação de Bieber - e do tratamento dado a outros imigrantes residentes nos Estados Unidos – chegou também às redes sociais.

No Facebook e no Twitter, multiplicam-se campanhas criticando o posicionamento das autoridades americanas.

Uma das iniciativas que está gerando grande repercussão foi criada por jovens imigrantes – muitos deles de origem hispânica – cuja intenção é denunciar o "racismo" que dizem existir nas políticas migratórias dos Estados Unidos.

A campanha, batizada de #Undeportable ("não deportável", em tradução livre), insta os participantes que tirem fotos de si mesmos e depois as editem, mudando sua aparência para ficar com cabelos loiros e olhos azuis.

Racismo

A iniciativa foi lançada pela organização Coalizão de Jovens Imigrantes, sediada na Califórnia. Em poucos dias, centenas de imagens foram enviadas por jovens de todos os Estados Unidos e publicadas na página oficial do Facebook UndocuMemes (um trocadilho com as palavras "sem documentos" e "meme") e no Twitter com a hashtag #Undeportable.

"Quando soubemos da notícia da detenção de Justin Bieber, pensamos que, diferentemente do que acontece conosco, que somos de origem hispânica, ele não pode ser deportado porque não tem o perfil dos que habitualmente são deportados. Ou seja, não tem pele escura", explicou Jonathan Pérez, um dos coordenadores da campanha, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

"Pela nossa própria experiência, sabemos que muitas pessoas que cometem delitos parecidos ou menores dos que os praticados por Bieber foram deportadas sem que lhes tenha sido dada a oportunidade de se defender", acrescentou Pérez.

"Com essa campanha, queremos denunciar o racismo que existe no sistema migratório dos Estados Unidos e demonstrar ao mesmo tempo que, embora se trate de um assunto muito sério, também podemos encará-los com humor e de forma criativa", assinalou.

Pérez credita o sucesso da iniciativa ao grande número de imigrantes que enfrentaram experiências negativas com autoridades.

"A realidade é que se todos fôssemos anglo-saxões, não haveria centros de detenção ou deportações", assegurou.

A campanha #Undeportable recebeu o apoio de inúmeras organizações que reúnem jovens imigrantes de origem hispânica, como o grupo Latino Rebels.

Na avaliação de Christian Henriquez, um dos integrantes do Latino Rebels, "o tratamento recebido por Bieber é uma mostra do desequilíbrio que existe no sistema judicial dos EUA".

Discriminação

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Image caption Para entidades, imigrantes não recebem o mesmo tratamento dado ao cantor pop canadense Justin Bieber

"Bieber só teve de pagar uma fiança enquanto outros que cometeram crimes muito menos graves foram deportados. Se ele fosse um imigrante latino-americano, com certeza teria sido tratado de forma mais dura", afirmou Henriquez à BBC Mundo.

"Não temos nada contra Bieber. Só queremos que todos os imigrantes sejam tratados igualmente. Queremos os mesmos direitos e a mesma Justiça".

Após a última detenção de Justin Bieber, a imprensa americana especulou sobre a eventual deportação do cantor. No entanto, especialistas em imigração consultados pela BBC Mundo descartaram essa possibilidade.

Horas depois do astro canadense ser liberado, a União das Liberdades Civis dos Estados Unidos (ACLU, na sigla em inglês) foi uma das primeiras organizações a denunciar que o caso do cantor colocava em evidência o tratamento desigual recebido por imigrantes no país.

"Diferentemente de Justin Bieber, muitos imigrantes não têm os meios de se defender em processos de deportação. Na prática, 84% deles não contam com um advogado que possa defendê-los", explicou Chris Rickerd, consultor legislativo da ACLU, à BBC Mundo.

"Acredito que a vinda de imigrantes torna este país muito valioso, mas o sistema de deportações não é igual para todos", afirmou Rickerd.

"Nos Estados Unidos, muitos imigrantes são discriminados pelas polícias locais por causa de sua raça. Os latinos representam uma grande maioria dos que se encontram em centros de detenção provisória porque não têm como pagar um advogado. Isso é uma clara evidência de que o sistema não funciona", disse Rickerd.

Apesar dos inúmeros delitos, Bieber não foi condenado por nenhum deles. As autoridades também não se pronunciaram sobre um eventual processo de deportação do cantor.

Na terça-feira, a agência de notícias Associated Press informou que o julgamento de Bieber relacionado à sua detenção por dirigir embriagado e sem licença ocorrerá em março, em Miami.

Durante passagem pelo Brasil em novembro do ano passado, o cantor canadense foi autuado no Rio de Janeiro por pichar um muro em São Conrado, bairro nobre da Zona Sul da cidade.

Com uma legião de fãs conhecidas como "Beliebers" e mais de 40 milhões de seguidores no Twitter, ele foi nomeado pela revista Forbes como a terceira celebridade mais poderosa do mundo em 2012.

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