Copa 2014: O dilema de ser sede

Felipão instrui jogadores durante amistoso (Arquivo/AP) Direito de imagem AP
Image caption Felipão chamou psicóloga para traçar perfil de jogadores

Além do desafio de cumprir com a promessa de realizar a "Copa das Copas", o Brasil terá que enfrentar neste ano a pressão de corresponder às expectativas de milhões de torcedores que acompanharão o Mundial em casa pela primeira vez após 64 anos.

Considerada favorito ao título em 2014, a seleção brasileira de Neymar, Oscar e companhia começará a caminhada rumo ao hexa no dia 12 de junho, diante da Croácia, na Arena Corinthians, em São Paulo e, daí em diante, terá sempre casa cheia e toda a torcida a favor durante a Copa – os ingressos para jogos do Brasil foram os primeiros a se esgotar na primeira fase de vendas da Fifa.

Mas a história já provou que ter a torcida a favor não é suficiente para conquistar o troféu do torneio esportivo mais importante do planeta. França, Espanha, Itália, Alemanha – hoje todas campeãs mundiais – já viveram a frustração de serem eliminadas de um Copa dentro de casa.

Dos 15 países que já sediaram o torneio, apenas seis comemoraram o título em seus domínios: Uruguai (1930), Itália (1934), Inglaterra (1966), Alemanha (1974), Argentina (1978) e França (1998).

No caso do Brasil, as memórias do troféu perdido em 1950 ainda assombram o imaginário de quem viveu na época aquela decepção. O gol de Ghiggia na vitória por 2 a 1 que deu o título ao Uruguai silenciou as quase 200 mil pessoas que estavam no Maracanã e criou o fantasma do "Maracanazo". E o medo de que aquela cena se repita em 2014 assusta até mesmo o maior jogador de futebol de todos os tempos, Pelé.

"Tem uma coisa que eu já falei algumas vezes, mas não sai da memória. Na Copa de 1950, vi meu pai chorando com os amigos dele, porque o Brasil tinha perdido. Então eu não quero que os meus filhos me vejam chorando", disse o tricampeão mundial ainda no sorteio dos grupos da Copa do Mundo, em dezembro passado.

E justamente para evitar qualquer possibilidade de fracasso, o técnico Luiz Felipe Scolari já montou uma estratégia para aliviar a pressão sobre os seus jogadores e afastar de vez o fantasma do "Maracanazo".

Assim como em 2002, quando comandou a seleção que conquistou o pentacampeonato na Copa do Japão e da Coreia, Felipão acionou a psicóloga Regina Brandão para ajudá-lo a administrar o emocional dos atletas. O trabalho dela é mapear o perfil de cada jogador e traçar a melhor estratégia para que eles possam lidar com a pressão.

Em entrevista ao New York Times, Regina Brandão explicou que criou um questionário amplo para os atletas pedindo para que eles classificassem em uma escala numérica, como são afetados por determinados eventos (positiva ou negativamente). A partir do resultado dele, ela irá avaliar o perfil de cada jogador e poderá começar um trabalho em conjunto com Felipão para auxiliá-los na parte emocional.

'Brasileiros não sabem lidar com favoritismo'

Experiente no trabalho motivacional com atletas, a psicóloga da seleção brasileira feminina de handebol, Alessandra Dutra, explica que o brasileiro tem mais dificuldade para lidar com a pressão do que atletas de outras nacionalidades.

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Image caption 'Para o brasileiro, pesa muito, ao invés de trazer força', diz psicóloga

Alessandra trabalha com a equipe feminina de handebol desde 2009 e passou por duas grandes frustrações nela: as eliminações nas quartas de final tanto no Mundial de 2011, disputado no Brasil, quanto na Olimpíada de 2012. Para vencer as decepções e fazer as meninas saírem do "quase", ela iniciou um trabalho de "blindagem" nas atletas, que culminou no inédito título mundial do ano passado.

Em entrevista à BBC Brasil, ela conta que é preciso desenvolver nos esportistas brasileiros uma certa frieza, para que eles possam "se blindar" em situações de forte pressão por resultados, como a que a seleção brasileira de futebol enfrentará neste ano.

"Atleta brasileiro não sabe lidar com favoritismo. Para o brasileiro, pesa muito, ao invés de trazer força, traz responsabilidade e pressão maior", disse Alessandra.

"Isso ativa mais a ansiedade de corresponder a expectativa do país. A responsabilidade de responder a essa torcida é uma coisa que o brasileiro precisa modificar para trazer esse favoritismo a favor dele", prosseguiu.

Seguindo o exemplo do que fez com a seleção feminina de handebol, Alessandra Dutra acredita que o segredo para a seleção de Felipão é construir essa blindagem por meio de muita concentração e foco.

"Tem que fazer com que esse grupo se dirija para aproveitar o que a torcida vai trazer de melhor, e não transformar numa pressão negativa. O favoritismo tira muito a concentração."

A lição do rival

Bicampeã em 1978 e 1986, a Argentina ainda não alcançou o Brasil em número de títulos mundiais, mas já tem na história das Copas um feito ainda não atingido pela seleção canarinho: a conquista da taça em casa.

Foi há 36 anos, quando sediavam o torneio, que os "hermanos" venceram o mundial pela primeira vez. Um dos heróis do título foi justamente um jovem de 23 anos, Mario Kempes, que marcou dois gols na vitória por 3 a 1 sobre a Holanda na prorrogação do jogo que garantiu a conquista da Copa de 1978 para os argentinos.

Em entrevista à BBC, Kempes conta que o segredo para superar tamanha pressão é simples: ignorar tudo o que está fora das quatro linhas. "Você entra em campo, vê a torcida, o estádio lotado, mas uma vez que o árbitro apita, aí você você não vê mais nada do que está fora, começa a ver somente o que acontece dentro do retângulo", diz.

"É muita concentração, pode pode ser 90 minutos ou 120 com a prorrogação, mas, você tem que dar 100%."

Ainda mais jovem do que Kempes em 1978, Neymar terá a responsabilidade de liderar o Brasil rumo ao hexa em 2014 com 22 anos. Mas o craque do Barcelona parece já ter aprendido a dica do rival argentino.

"Acho que tratando de Copa do Mundo, qualquer pressão fica de lado porque é um sonho que você tem desde criança. Por ser um sonho, a pressão foca de fora", disse Neymar, durante a entrega do prêmio Bola de Ouro da Fifa no mês passado.

Na mesma ocasião, o atacante brasileiro chegou a dizer que gostaria de jogar uma possível final 13 de julho, no Maracanã, contra a Argentina. Do outro lado, Mario Kempes também não escondeu sua vontade de ver uma das maiores rivalidades do futebol mundial disputando o título neste ano.

"Existe uma grande rivalidade entre Brasil e Argentina e seria uma grande final. Não digo que seria linda, mas com certeza traria bastante emoção. Creio que o amor próprio da Argentina e o bom jogo do Brasil fariam uma grande final."

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