Emergente 'da vez', México levanta debate sobre crescimento

Transporte de cargas no México (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Ante previsão de expansão da economia, México virou menina dos olhos de analistas de América Latina

Um país que está "fazendo a lição de casa", na expressão preferida do mercado; que deve se beneficiar diretamente da recuperação da economia americana nos próximos anos e que está menos atrelado à desaceleração chinesa; e que por isso se tornou a menina dos olhos dos analistas de América Latina.

Nadando contra a maré de emergentes que vêm desapontando o mercado, a economia do México tem suscitado entusiasmo apesar de ter crescido apenas 1,1% no ano passado, o pior desempenho desde 2009.

Ainda assim, analistas acreditam que o país terá resultados melhores que seus vizinhos latino-americanos neste ano e no próximo. As apostas são de uma taxa de crescimento de pelo menos 3% em 2014, aproximando-se de 4% em 2015.

As projeções ficam bem acima das que o mercado reserva para o Brasil. Segundo o último boletim Focus, do Banco Central, o setor privado espera expansão de 1,7% e 2% para a economia brasileira neste ano e no próximo, respectivamente.

Já a América Latina como um todo deve crescer 3% e 3,3%, ainda segundo os cálculos do FMI.

"Acreditamos que existem boas razões para crer que (o México) será a estrela da América Latina nos próximos anos", analisou a consultoria Capital Economics, de Londres, para quem o crescimento mexicano será de 4% ao ano no próximo biênio.

Reformas

O entusiasmo com a economia mexicana vai na rabeira da recuperação da economia dos EUA, principal parceiro comercial do México.

Números que serão divulgados na próxima sexta-feira devem indicar que o PIB americano cresceu a uma taxa anualizada de 2,5% no último trimestre, segundo o mercado.

Mas há outros fatores que contribuem para o otimismo. Comparado a Peru, Chile e Colômbia – economias exportadoras de matérias-primas que também devem crescer acima da média regional latino-americana –, o México está muito pouco atrelado à economia chinesa, atualmente em fase de esfriamento.

No médio e longo prazo, o país deve colher os benefícios de um pacote de reformas aprovado pelo governo do presidente Enrique Peña Nieto.

Entre elas está a do setor energético, que passará a permitir o investimento estrangeiro em uma área altamente estratégica para o país (atraindo US$ 1 bilhão por mês para a economia mexicana, segundo o banco JP Morgan). As mudanças também afetam legislação trabalhista, financeira e de telecomunicações.

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Image caption Pacote de reformas de Peña Nieto deve dar frutos no médio e longo prazo

Analistas calculam que, com elas, o PIB potencial mexicano – a capacidade da economia de um país de crescer sem gerar inflação – salte para perto de 4%, dos atuais 2-3%.

Por esta razão, a agência de classificação de risco Moody's elevou no início deste mês a qualidade da dívida mexicana. "A aprovação de uma agenda ampla de reformas (...) reflete vontade política para enfrentar problemas estruturais de longo prazo", disse a Moody's.

Para a consultoria Economist Intelligente Unit, a aprovação das reformas no primeiro ano da gestão Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional, contrasta com 12 anos de paralisia em dois governos do centro-direita Partido da Ação Nacional.

Ambos as siglas, e mais o Partido da Revolução Democrática, se uniram em um "Pacto pelo México", que possibilitou a passagem das leis.

Sem esconder o entusiasmo pelas reformas, a revista Time dedicou sua capa ao presidente Peña Nieto, afirmando que o líder mexicano está "salvando" o país.

'Tirando atraso'

Porém, nem todos os economistas estão deslumbrados com o desempenho da economia mexicana.

Laura Carlsen, diretora de Américas do Centro para Pesquisa e Política Econômica (CEPR, na sigla em inglês), organização com sede em Washington, acredita que o México está apenas tirando o atraso de anos de crescimento insuficiente, enquanto outros países emergentes gozavam de uma expansão mais expressiva.

Entre 2001 e 2013, a média anual de crescimento do PIB mexicano foi de 2,1%, segundo a Moody's.

Uma avaliação do CEPR atribui ao Nafta – bloco econômico norte-americano integrado por México, EUA e Canadá, que completou 20 anos neste mês – parte do desempenho ruim da economia mexicana nas duas últimas décadas.

Nesse período, a economia mexicana ficou em 18ª colocação entre 20 países latino-americanos pelo critério de crescimento da renda per capita (o Brasil ficou em 13º). O PIB per capita mexicano subiu 18,6% em duas décadas, cerca de metade do aumento da renda regional, apontou o CEPR.

Os níveis de pobreza em 2012 – 52,3% da população mexicana – permaneciam no mesmo patamar de 1994, o que na prática significou um aumento numérico de 14,3 milhões de pobres em 20 anos.

Para o centro de estudos, o desemprego de 5% (comparado a 2,2% em 1994) "subestima seriamente" a deterioração no mercado de trabalho, que viu a perda de 300 mil empregos formais e o aumento de um 1 milhão de empregos informais.

"Hoje o México está melhor que os Brics, o que é uma grande mudança. Mas esse melhor crescimento mexicano vem após duas décadas de crescimento medíocre", disse Carlsen à BBC Brasil, falando por telefone do México.

"Então agora que outros países estão começando a desacelerar, o México mal está começando a tirar o atraso."

Modelo questionável

Para o CEPR, mais que uma questão de desempenho, o caso mexicano levanta um debate sobre modelos de crescimento. Diferentemente do Brasil, que se ancorou no consumo interno – e agora se defronta com o esgotamento do modelo –, o México olhou para fora e buscou se apoiar no livre comércio.

Além de assinar o Nafta, o país integra a aliança de países latino-americanos com saída para o Oceano Pacífico.

Mas "as estatísticas de expansão econômica e de comércio não estão diretamente ligadas ao bem-estar da população", argumenta Carlsen. "O crescimento é necessário e o México precisa crescer mais e gerar mais empregos, mas a distribuição e a desigualdade são um grande problema."

O programa mexicano de distribuição de renda – Oportunidades – veio antes do Bolsa Família, mas nunca foi tão abrangente quanto a sua versão brasileira, ela explica.

"Faltou uma política integrada de desenvolvimento nacional. O país passou a se apoiar unicamente no mercado internacional, que é chamado de livre, mas na verdade é altamente manipulado por algumas poucas corporações", critica Carlsen.

Com as boas perspectivas do México para os próximos anos, concomitante a uma desaceleração nos países que adotaram outros modelos de desenvolvimento, "já se ouvem vozes dizendo que isso é uma prova de que o modelo mexicano de livre comércio funciona", diz a pesquisadora.

"Isso é ridículo. Durante todo o tempo em que o México crescia a metade do que os outros países latino-americanos cresciam, ninguém queria associar isto ao fato de que o México tinha um modelo de livre comércio, e que outros países estavam mitigando esse modelo."

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