Greve de garis divide opiniões no Rio

Lixo à espera de coleta no Rio de Janeiro (foto: BBC)
Image caption Forças de segurança escoltam equipes de garis que não aderiram à greve

A greve de garis que já completou uma semana no Rio tem dividido opiniões nas redes sociais, com manifestações tanto de solidariedade quanto de condenação à ação dos garis que cruzaram os braços durante a semana de carnaval.

Com a greve, a cidade tem vivido cenas inusitadas.

Garis catando lixo seguidos por uma viatura da Guarda Municipal, um guarda com o porrete na mão, pronto para proteger os catadores de eventuais represálias de grevistas.

A praia de Ipanema tomada por lixo mesmo ao amanhecer – a cena costuma ser comum após um dia de praia cheio, quando os garis entram em cena para passar o pente fino na areia.

A imagem do prefeito Eduardo Paes jogando o que parece ser o caroço de uma fruta no meio da rua, ato registrado em um vídeo que se tornou viral nas redes sociais – e levou Paes a se manifestar dizendo que iria se auto-impor a multa de R$ 157 cabível pelo Lixo Zero. O programa foi criado pelo seu governo para penalizar a cultura de jogar lixo na rua.

Fotos têm se multiplicado na internet mostrando pilhas de lixo acumuladas nas calçadas, seja em regiões mais nobres zona sul ou de áreas onde a situação está mais crítica, como a Ilha do Governador ou Pedra de Sepetiba.

Redes sociais

Nas redes sociais, alguns acusam funcionários da Comlurb de má-fé e oportunismo por fazerem greve em pleno carnaval.

“Saio pra Bahia no carnaval, e quando volto, minha rua virou lixeira?”, pergunta um carioca no Twitter.

“O Rio de Janeiro continua lindo, e sujo! Uma semana, e cadê a Comlurb?”, questiona outro.

Mas muitos demonstram apoio e se solidarizam com a exigência dos garis por salários maiores. O atual piso salarial da Comlurb é de R$ 806,12. Os grevistas reivindicam que aumente para R$ 1.200.

“Imagino a coisa horrível que deve estar o Rio de Janeiro por causa do lixo nas ruas, mas os garis estão com a razão e merecem um aumento maior”, tuitou uma internauta.

Na contramão dos que acusam os garis de oportunismo, outro usuário do Twitter sugeria que oportunidades futuras também fossem abraçadas:

“Alô garis da Comlurb: se não der agora, greve de novo durante a Copa! Alô garis do Brasil: Vocês estão ganhando bem?”

O acordo firmado entre a Comlurb e o Sindicato dos Empregados das Empresas de Asseio e Conservação do Município do Rio de Janeiro fica bem aquém da reivindicação dos grevistas, garantindo aumento do piso salarial para R$ 874,79. Os garis recebem ainda 40% de adicional de insalubridade, o que com este aumento chega a R$ 1.224,70.

Na quinta-feira, o presidente da Comlurb, Vinícius Roriz, veio a público pedir que, quando possível, os cariocas guardassem seu lixo em casa por mais tempo.

“Quem ver que a coleta não passou corretamente, que recolha novamente, se tiver condições para acondicionar seu lixo”, afirmou a jornalistas.

A sugestão foi ironizada nas redes sociais. “Por favor, todos mandando seu lixo para a casa do presidente da Comlurb...”, provocou um usuário do Twitter.

Roriz diz que a empresa está trabalhando para normalizar a situação “o mais rápido possível” e prevê que a coleta volte ao normal a partir do domingo.

Aumento

Mas em nova assembleia na quinta-feira, um grupo de garis decidiu manter a greve, e na sexta-feira grevistas fizeram um protesto fechando diversas ruas do Centro.

Na manifestação, os garis se apropriaram do refrão da escola de samba campeã do carnaval deste ano, a Unidos da Tijuca, que homenageou o piloto Ayrton Senna.

Eles parafrasearam seu samba-enredo, cantando: “Acelera Comlurb, eu quero ver. Esse lixo vai feder! A prefeitura não deu aumento, não. E esse lixo vai ficar todo no chão!”

Na quinta-feira, Roriz voltou atrás na ameaça de demitir os garis que estivessem participando da greve. Ele revelou que a adesão à greve é bem maior do que os cerca de 300 funcionários que havia informado inicialmente.

Entre 30% e 35% dos garis encarregados da coleta domiciliar e da limpeza das ruas estão de braços cruzados, o que representa entre 1.200 e 1.400.

De acordo com Roriz, muitos não estão trabalhando por se sentirem inseguros, em razão de eventuais ameaças de colegas que estão participando da greve.

Por causa das ameaças, alguns grupos de garis estão sendo escoltados por homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar, agentes da Guarda Municipal ou mesmo seguranças particulares.

De acordo com a Comlurb, as escoltas vêm ocorrendo em regiões onde houve ameaças ou mesmo embates entre garis e grevistas, com alguns equipamentos de trabalho sendo quebrados.

Mas em vídeos postados nas redes sociais, alguns garis dizem que estão se sentindo coagidos a trabalhar – e ainda temem demissão caso optem por cruzar os braços.

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