Referendo da Crimeia testa paciência do Ocidente

Bandeira das tropas navais ucranianas na Crimeia Direito de imagem Reuters
Image caption Na Crimeia, Parlamento votou por anexação à Rússia, decisão que será submetida a referendo

A crise entre a Rússia e a Ucrânia entrou subitamente em uma fase perigosa.

A decisão tomada pelo Parlamento em Simferopol, a capital da Região Autônoma da Crimeia, de que a região deve se juntar à Rússia – uma proposta que será tema de um referendo em cerca de dez dias – levou à escalada na tensão diplomática.

A ação foi descrita pelo premiê britânico David Cameron como "um sério passo na direção errada".

Diplomatas ocidentais estão agora lutando para decifrar que luz essa ação do Parlamento da Crimeia joga sobre o plano de jogo do presidente russo Vladimir Putin, e seus interesses na Ucrânia.

Como uma decisão dessas poderia ter sido tomada sem o sinal verde de Moscou?

Potenciais resultados

Qual resultado que um referendo como esse pode ter, apesar de que o governo em Kiev e seus aliados na União Europeia e Otan (aliança militar ocidental) terem considerado ilegal o processo de referendo?

Image caption Muitos moradores de etnia russa da Crimeia são a favor do referendo

E se o resultado do referendo for a união com a Rússia? Putin dirá que foi forçado a efetivamente redesenhar o mapa e anexar a Crimeia?

Com o referendo agendado para 16 de março, os próximos dez dias serão turbulentos. E a grande dificuldade dos governos do Ocidente é discernir exatamente qual é o objetivo final de Putin.

Ele deseja manter a Crimeia, com suas bases militares russas, ainda mais perto de Moscou? Ou isso tudo é uma questão de influência sobre Kiev?

Muitos argumentam que a estratégia da Rússia é manter um papel fundamental influenciando a trajetória futura da Ucrânia.

Putin certamente não quer ver a Ucrânia cada vez mais alinhada com a Otan.

Laços mais profundos que esse entre Kiev e a União Europeia causam preocupação em Moscou até porque o bloco europeu assumiu uma dimensão de segurança, que os russos veem como o simples prelúdio de uma possível adesão à aliança.

Postura

Tendo havido poucos resultados na quarta-feira depois de uma série de reuniões de alto nível em Paris, uma resposta orquestrada do Ocidente para o jogo de apostas russo está tomando marcha.

Diversas ações militares foram tomadas. Caças da Otan (mais especificamente dos Estados Unidos) reforçam a Polônia e as repúblicas bálticas; e o destroier americano USS Truxtun está rumando da Grécia ao mar Negro para exercícios com as marinhas da Romênia e da Bulgária.

Esses passos, porém, não são tanto para ameaçar a Rússia, mas para mostrar sua presença e acalmar alguns dos aliados europeus da Otan que estão preocupados pelos desdobramentos nas suas fronteiras ou não muito longe dali.

Na frente diplomática, o foco principal é em esvaziar a crise e atrair os russos e os ucranianos para a mesma mesa de diálogo.

As autoridades ucranianas estão ansiosas, por exemplo, por abrigar uma sessão do Conselho da Otan em Kiev para demonstrar a solidariedade da aliança com seu parceiro ucraniano.

Alguns, porém, podem ver um papel mais explícito simplesmente como uma tomada de postura que provavelmente não será bem vista na Rússia.

É fácil descartar as outras medidas práticas que os Estados Unidos e a União Europeia propuseram como pequenas demais para realmente chamar a atenção de Moscou.

A retórica, porém, é barata. As ações podem ser potencialmente custosas e, como Cameron explicou, convencer tantos governos diferentes a concordar com uma série de medidas práticas nunca é fácil. O verdadeiro teste ainda está por vir.

Calcanhar de Aquiles de Putin?

A União Europeia está ameaçando uma série de novas medidas caso a Rússia não concorde em sentar, logo, para negociar seriamente com os ucranianos.

Uma ação mais dura poderia seguir qualquer ação das forças russas no leste da Ucrânia - apesar de Putin saber bem que a instabilidade na Europa e o congelamento das relações entre Rússia e Ocidente poderiam ter um impacto significativo sobre a recuperação econômica ocidental.

Ao mesmo tempo, Putin tem seu próprio calcanhar de Aquiles econômico.

O Ocidente pode adotar uma ação mais forte se as forças russas se movimentarem sobre o leste da Ucrânia.

Os preços das ações na Rússia sofreram um baque após a movimentação inicial do país na Crimeia e voltaram a cair na quinta-feira em consequência da decisão do Parlamento da Crimeia.

Putin, porém, permanece a figura central nesse drama, impulsionado pelas preocupações sobre o futuro da posição estratégica da Rússia na Europa e temeroso - alguns podem dizer que cioso até demais - do passado da Rússia após o colapso do sonho soviético.

Apesar de todos os movimentos militares de pequena escala da Otan e as várias ameaças de sanções e de proibições de viagens contra indivíduos, será nos fronts financeiro e econômico que essa batalha será disputada.

E isso é o que torna tão difícil uma resposta forte e unificada do Ocidente.

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