'Curando feridas', Francisco celebra um ano de papado

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Image caption Argentino coleciona fãs no mundo inteiro, mas ainda não enfrentou dilemas morais da Igreja Católica, alegam críticos

No aniversário de um ano do papado de Francisco, o repórter da BBC em Roma David Willey analisa as mudanças implementadas pelo argentino no Vaticano e na Igreja Católica. Leia abaixo o relato do jornalista.

Em 1978, que ficou conhecido como o ano dos três papas (Paulo 6º morreu e foi sucedido por João Paulo 1º, que morreu e foi sucedido por João Paulo 2º), eu me lembro de um encontro com um padre gregoriano que compartilhava sua angústia sobre o futuro da Igreja Católica: "Nós precisamos de um homem santo feliz, que sorria", disse.

O momento era aflitivo. O italiano Albino Luciani, patriarca de Veneza que encantou o mundo com sua humildade e simplicidade, morreu repentinamente, 33 dias depois de assumir a Santa Sé como João Paulo 1º. Até hoje, as causas de sua morte permanecem cercadas de mistério, mas a versão oficial é de que ele sofreu um ataque cardíaco.

Os teóricos da conspiração dizem, no entanto, que João Paulo 1º foi envenenado porque alguns cardeais temiam que ele pudesse fazer mudanças revolucionárias na Igreja.

A autópsia nunca foi feita – não há um requerimento legal para isso no Estado soberano do Vaticano - e nunca alguma prova de que tivesse havido alguma uma conspiração de assassinato dentro do Palácio Apostólico.

A reputação do Vaticano como um lugar onde – ao longo da história – os assassinatos são usados para eliminar papas indesejáveis ainda perdura.

Em seu novo livro sobre o papa Francisco, o escritor e jornalista italiano Massimo Franco diz que, na véspera de sua partida de Buenos Aires para Roma para participar do conclave que terminaria por elegê-lo como o novo papa, Francisco encontrou-se com uma paroquiana que o fitou nos olhos e o aconselhou: "Eminência, quando for a Roma, leve consigo um cachorro. E faça-o provar a comida que eles vão lhe oferecer antes de ingeri-la".

Curando feridas

Agora, quatro décadas depois do ano dos três papas, um pontífice sorridente e amigável ocupa o trono de Pedro.

Francisco conquistou a admiração de milhões de católicos – e também de membros de outras religiões e ateus – por sua humildade e simplicidade.

O argentino abdicou de muitas das benesses do cargo. Ele, por exemplo, não mora nos apartamentos papais como seus antecessores e, ao invés disso, compartilha uma modesta casa com outros clérigos.

A casa que se tornou seu local de moradia no Vaticano revela uma história interessante.

A Casa Santa Marta foi originalmente construída no final do século 19 como um local de quarentena para potenciais vítimas da epidemia de cólera que Roma poderia vir a enfrentar.

A praga nunca chegou à cidade, mas a construção serviu por anos como uma espécie de hospital de campanha para os mais pobres de Roma. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, o local tornou-se um importante centro de espionagem dos aliados em meio à ocupação nazista de Roma.

Os enviados britânicos e americanos ao Vaticano, então considerado neutro durante o confronto, moravam ali e enviavam relatórios a seus países através de uma mala diplomática privada do microestado.

Em uma longa entrevista com um colega jesuíta, agora impressa na forma de um livro, o papa Francisco usa a metáfora de sua Igreja como um hospital de desamparados.

"O que a Igreja precisa mostrar hoje é a habilidade de curar feridas", diz ele.

"Eu vejo a Igreja como um hospital de campanha após uma batalha. É inútil perguntar a uma pessoa seriamente ferida se ela tem colesterol alto ou um nível de açúcar acima do recomendado. Você precisa curar suas feridas, primeiro. Então, pode falar sobre todo o resto".

Mas algumas feridas profundas sofridas pela Igreja permanecem abertas, como os escândalos de abuso sexual em muitos países, um ano após a eleição de Francisco.

É fato que o argentino criou um novo comitê para fiscalizar as diretrizes locais estabelecidas por conferências episcopais e garantir um melhor atendimento para as vítimas de padres que cometeram abusos sexuais contra menores.

Mas Francisco parece não ter dado ouvidos àqueles que pediam por uma política de tolerância zero contra o abuso infantil dentro da Igreja Católica.

Um bispo polonês recentemente nomeado pelo papa como embaixador da Santa Sé em Santo Domingo, na República Dominicana, foi acusado por autoridades locais de violentar crianças sexualmente. Ele, no entanto, recebeu asilo e proteção dos procedimentos de extradição.

Francisco também permanece calado em público sobre denúncias de que a Igreja Católica encobriu escândalos de abuso sexual de crianças por padres e de que o Vaticano se recusa a divulgar mais detalhes sobre esses episódios.

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Image caption Francisco diz não gostar de receber tratamento de celebridade

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Image caption Papa Francisco e seu antecessor, Bento 16, costumam manter encontros frequentes

Dois papas

O argentino é o primeiro papa da história a viver no mesmo lugar que o seu antecessor. O papa emérito Bento 16 mora a poucos metros de Francisco e sabemos que os dois se encontram com frequência para fazer refeições juntos ou discutir assuntos da Igreja.

"É como se eu tivesse um avô muito venerado ao redor de mim", diz Francisco, demonstrando gratidão. Ele sempre minimizou a possibilidade de que haja uma interferência indesejada de seu antecessor depois da renúncia inesperada de Bento 16 – sem precedente nos tempos modernos – um ano atrás.

As decisões mais importantes que Francisco tomou durante o seu primeiro ano à frente da Igreja Católica envolveram as finanças do Vaticano e a reforma do Instituto para as Obras de Religião, como é conhecido o banco do microestado.

O argentino nomeou um outro cardeal do Hemisfério Sul, o arcebispo de Sydney, George Pell, para o novo ministério de Economia do Vaticano. Uma das funções dele é coordenar as atividades financeiras da Santa Sé.

Mas, apesar de imprimir uma mudança de estilo a seu papado, Francisco costuma rechaçar o status de "celebridade" que lhe foi dado pela imprensa internacional.

"Pintar-me como uma espécie de Super-Homem, uma espécie de celebridade, acho ofensivo", disse ele ao editor do principal jornal italiano. "Eu sou um homem que ri, chora, dorme serenamente, e tem amigos, como qualquer outro. Uma pessoa normal", afirmou.

Francisco também é conhecido pelo fervor religioso. O pontífice reza muito e só toma decisões após profundas reflexões.

O argentino já admitiu, inclusive, ter cometido "muitos erros" durante a sua longa carreira eclesiástica.

Mas, diferentemente do passado, Francisco já alertou padres, bispos e cardeais que mantenham um estilo de vida frugal e deem atenção especial aos mais pobres.

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