Moscou vive dia de protestos às vésperas de referendo na Crimeia

Montagem protestos em Moscou | AFP e AP Direito de imagem AP AFP
Image caption Manifestações dividiram a capital russa; futuro Crimeia será decidido neste domingo

Protestos realizados por simpatizantes e críticos do referendo na Crimeia dividiram a capital russa, Moscou, neste sábado, às vésperas da votação que decidirá o futuro da região autônoma.

De um lado, dezenas de milhares de pessoas protestaram em Moscou contra a intervenção militar russa na Ucrânia.

Segurando bandeiras russas e ucranianas, os manifestantes gritavam frases como "A Ocupação da Crimeia é a desgraça da Rússia".

Enquanto isso, em outra área da capital russa, um protesto pró-Moscou de menores proporções foi convocado por simpatizantes do referendo, previsto para acontecer neste domingo.

Moscou apoia a votação, considerada ilegal pela Ucrânia e pelo Ocidente.

Já nas cidades de Donetsk e Kharkiv, três pessoas morreram em protestos pró e contra Moscou.

A intervenção militar russa na península da Crimeia – região que pertenceu a Rússia até 1954 e que abriga sua frota do Mar Negro – ocorreu após a queda do então presidente da Ucrânia e aliado de Moscou, Viktor Yanukovych, em 22 de fevereiro deste ano.

Em novembro do ano passado, a decisão de Yanukovych de não assinar um acordo que estreitaria as relações do país com a União Europeia – optando, ao invés disso, por fortalecer as ligações com a Rússia – provocou uma onda de protestos no país.

Tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia ameaçaram retaliar o governo russo com sanções econômicas.

Neste sábado, a Rússia vetou uma resolução do Conselho de Segurança (CS) da ONU que considerava ilegal o referendo sobre a Crimeia.

Dos membros permanentes e temporários, 13 votaram a favor da resolução, enquanto a China se absteve.

Depois da morte de duas pessoas em Kharkiv, na sexta-feira, o primeiro-ministro interino da Ucrânia Arseniy Yatsenyuk afirmou em sua página no Facebook: "Provocadores contratados pelo Estado vizinho estão brincando com a situação e preparando provocações profissionalmente".

"Antigos líderes ucranianos, acusados de crimes, estão apoiando distúrbios no sudeste do país em colaboração com forças extremistas russas. Não deixe que eles o manipulem", alertou Yatsenyuk.

O presidente-interino, Oleksander Turchinov, fez coro à acusação, dizendo que "agentes do Kremlin" estavam organizando e apoiando protestos no leste da Ucrânia.

Moscou negou estar por trás das manifestações e reiterou que está protegendo "compatriotas" de radicais de extrema-direita.

Em um comunicado, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou neste sábado que estava "recebendo pedidos para proteger cidadãos pacíficos" na Ucrânia.

Lavrov disse ainda que a Rússia defenderia seus cidadãos.

Em outros desdobramentos:

  • Autoridades ucranianas disseram ter frustrado uma tentativa de uma invasão de tropas russas baseadas na Crimeia a uma outra região da Ucrânia.
  • O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, viajará à Polônia e à Lituânia no começo da semana que vem para discutir maneiras de defender a soberania da Ucrânia, assim como os compromissos de defesa recíprocos dos membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
  • O Pentágono diz que manterá seu porta-aviões no Mar Mediterrâneo por mais dias do que o planejado por causa da crise na Ucrânia.
  • Na cidade de Donetsk, no leste da Ucrânia, centenas de manifestantes pró-Moscou quebraram janelas de escritórios locais dos serviços de segurança e reivindicaram a soltura da prisão Pavel Gubarev.

A favor e contra

Segundo estimativas das autoridades, 50 mil pessoas participaram do protesto neste sábado em Moscou contra a intervenção do governo russo na Crimeia e no leste da Ucrânia.

"Tire as mãos da Ucrânia", gritavam alguns manifestantes.

"As pessoas que querem paz entre a Ucrânia e a Rússia se reuniram aqui. É por isso que eu estou aqui", disse um dos participantes.

Já o protesto pró-Kremlin contou com a participação de cerca de 15 mil correligionários do presidente russo Vladimir Putin, que apoia o referendo.

Muitos deles vestiam vermelho e carregavam bandeiras da Rússia e da União Soviética.

"Nós estamos aqui pela amizade da Rússia e da Ucrânia. Nós querem dizer um grande "não" à essa junta fascista que chegou ao poder na Ucrânia e, naturalmente, defendemos os nossos colegas ucranianos", disse um homem.

Na sexta-feira, o secretário de Estado Americano, John Kerry, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, conversaram por seis horas em Londres, mas não chegaram a um acordo para resolver a crise na Ucrânia.

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