Ex-exilado na ditadura relembra isolamento e medo em Paris

casa de Violeta Arraes Direito de imagem Daniela Fernandes
Image caption Alencastro frequentava reuniões de exilados em Paris na casa da socióloga Violeta Arraes.

O historiador e cientista político catarinense Luiz Felipe de Alencastro ainda lembra de cor um dos endereços que mais frequentou durante o tempo em que ficou exilado em Paris.

Em uma rua situada no charmoso bairro do Marais, Alencastro era recebido com outros expatriados na casa da socióloga Violeta Arraes, irmã de Miguel Arraes, governador de Pernambuco deposto pelos militares em 1º de abril de 1964.

Também presa e expulsa do país, Violeta ficou conhecida como "Rosa de Paris" em razão da acolhida e apoio que deu a inúmeros exilados políticos na França, inclusive chilenos.

Sua casa se tornou ponto de encontro de intelectuais e ativistas políticos e era lá que Alencastro se reunia com nomes como Fernando Henrique Cardoso e Celso Furtado.

"A Violeta tinha ligações com a esquerda católica francesa. Sua casa era uma central de apoio. Ela também tinha contatos com advogados franceses e abrigava pessoas que não tinham contatos na França", conta Alencastro, que ia "tomar sopinhas" no apartamento da socióloga.

Violeta Arraes também estudou psicologia e ajudou, como psicoterapeuta, muitos brasileiros que haviam sido torturados, conta Alencastro. Ela também se tornou, posteriormente, uma referência para a divulgação das artes brasileiras na Europa.

Foi a partir desses encontros que surgiu a ideia de montar a Frente Brasileira de Informações, formada por um grupo de exilados unidos na missão de denunciar ao mundo as torturas cometidas pela ditadura no Brasil.

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Image caption Alencastro vive hoje na França, mas deve retornar ao Brasil em breve

Acompanhada de perto por Alencastro, a "Operação Pororoca", como também ficou conhecida a Frente, publicava boletins que eram enviados a personalidades e intelectuais em todo o mundo.

"A agência dos Correios na praça da Bolsa de Valores era a única em Paris que tinha listas telefônicas do mundo inteiro. O pessoal copiava os endereços de pessoas com títulos de doutores e professores em vários países e também responsáveis de organizações internacionais de direitos humanos", diz Alencastro.

Isolamento

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Image caption Violeta Arraes (à esq.) com o marido, a cantora Maria Betânia e uma amiga em sua casa

Alencastro tinha contato regularmente com outros exilados, mas isso não impediu que sentisse um "grande isolamento" na França.

"Só fui saber que meu pai havia falecido um mês depois da sua morte. Naquela época não era fácil fazer ligações internacionais e tínhamos pouquíssimas notícias do Brasil", relembra.

Ele costumava ir ao escritório da Varig, na avenida Montaigne, para ler os jornais de "quatro ou cinco dias atrás".

Os brasileiros preferiam não se encontrar muito em bares "para não chamar a atenção", diz Alencastro, mesmo que às vezes isso ocorresse em alguns cafés da região do Quartier Latin.

Mesmo a milhares de quilômetros do Brasil, era preciso continuar tomando precauções para escapar da ditadura militar. A partir de 1966, quando se exilou na França, adotou o pseudônimo "Júlia Juruna" para assinar artigos sobre política brasileira, publicados pelo jornal francês Le Monde Diplomatique.

"Nenhum homem nega sua identidade masculina. Ninguém pensaria que Júlia Juruna poderia ser um homem", sorri Alencastro, que hoje leciona história e é diretor do Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul na prestigiosa Universidade Sorbonne.

Em março de 1964, Alencastro integrava o diretório estudantil da Universidade de Brasília (UnB), uma das instituições acadêmicas mais visadas pelos militares.

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Image caption FHC em um dos encontros na casa de Violeta Arraes

Ele foi alvo de inúmeros inquéritos militares, sendo intimado várias vezes a depor em uma caserna do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP). Nunca foi torturado, ao contrário de outros membros do diretório estudantil da UnB que foram assassinados durante a ditadura.

Aconselhado por amigos a deixar o Brasil, Alencastro chegou à França aos 20 anos após conseguir uma bolsa do governo francês para estudar ciências políticas em Aix-en-Provence, no sul do país.

Ele foi acolhido em Paris pelo também exilado Raul Ryff, secretário de imprensa do governo de João Goulart. Após 1970, ele se instalou na capital francesa e passou a estudar na Universidade de Nanterre, a mesma onde o também exilado Fernando Henrique Cardoso deu aulas.

Ele chegou a ficar um ano sem passaporte porque a embaixada brasileira em Paris se recusava a renová-lo. "Não quis pedir asilo político porque se fosse negado teríamos de deixar a França", conta.

Depois, por pressão das autoridades francesas junto à embaixada brasileira, Alencastro conseguiu renovar o documento.

Polícia secreta

Segundo Alencastro, após a chegada de Valéry Giscard d'Estaing à Presidência da França, em 1974, a situação ficou mais fácil para os exilados brasileiros no país. "Com a chegada de Giscard ao poder, a polícia ficou menos em cima dos exilados em geral. O Parlamento francês também tinha deputados que apoiavam os exilados chilenos e sul-americanos", afirma.

Antes, no entanto, a situação era pior. Durante o mandato de Georges Pompidou, entre 1969 e 1974, o governo francês, a pedido dos militares brasileiros, havia proibido a entrada de Miguel Arraes na França.

Em certa ocasião, o delegado Sérgio Fleury, que torturou opositores ao regime militar no Brasil, realizou uma visita a Paris. "A Violeta nem foi dormir em casa. Ficou com medo da presença do Fleury aqui", relembra Alencastro.

Também foi durante o governo de Pompidou que o general Paul Aussaresses, célebre torturador durante a guerra francesa na Argélia, nos anos 50 e 60, se tornou, em 1973, adido militar da França no Brasil, onde ensinou técnicas de tortura contra os opositores ao regime.

Aussaresses, que dizia ser um "grande amigo" do ex-presidente João Batista Figueiredo (na época ministro-chefe da Casa Militar do Brasil), ensinou técnicas de tortura no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus, criado em 1964.

Os brasileiros também se preocupavam, até o início dos anos 70, com a polícia secreta portuguesa infiltrada pelas ruas de Paris à busca de quem havia fugido do serviço militar em Portugal, que estava em guerra contra suas colônias na África.

"Havia uma paranoia lusófona nessa época em Paris", diz o historiador.

Por isso, os brasileiros evitavam se reunir em lugares públicos para que suas conversas não fossem entendidas pela polícia secreta portuguesa, afirma Alencastro.

Duas levas

Ele conta também que houve duas fases no exílio dos brasileiros na França. Quando ele chegou, em meados dos anos 60, havia um "circuito institucional" de exilados mais velhos e ligados à política e aos meios acadêmicos, afirma.

Depois, com o início da luta armada no Brasil e o golpe de Estado no Chile, em 1973, muitos jovens se exilaram na França.

Calcula-se que no início dos anos 70 havia 5 mil exilados brasileiros no país.

Nessa época, diz ele, começou a haver divergências políticas entre os exilados, já que os membros da luta armada estavam mais ligados à extrema esquerda.

Alencastro só voltou a morar no Brasil, por motivos pessoais, em 1986. Mas desde a Anistia, em 1979, já havia começado a viajar regularmente ao país.

"Voltei a morar no Brasil em um momento muito interessante, principalmente no Congresso, com as discussões da assembleia nacional Constituinte, que criou a Constituição de 1988", afirma.

Ele diz ter voltado em uma situação "privilegiada" porque foi trabalhar no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) ao lado de intelectuais como José Arthur Giannotti, Paul Singer e FHC.

Alencastro retornou à França em 1999 como professor de História do Brasil na Sorbonne, onde é atualmente diretor do Centro de Estudos do Brasil e do Atlântico Sul. Pretende se aposentar em breve de quer voltar ao Brasil, onde dará aulas na Fundação Getúlio Vargas.