Países da ex-URSS com minorias russas temem reflexos pós-Crimeia

Protesto pró-Rússia no leste da Ucrânia, em 23 de março (AP) Direito de imagem AP
Image caption Leste da Ucrânia é um dos pontos sensíveis, com diversos protestos pró-Rússia

A Assembleia Geral da ONU aprovou nesta quarta-feira uma resolução afirmando que o referendo realizando na Crimeia – em que a península ucraniana optou por sua independência, abrindo caminho para sua integração à Federação Russa – foi ilegal.

A resolução estabelece um apoio à integridade territorial da Ucrânia e teve 11 votos contra e 58 abstenções. Trata-se de um documento sem efeito vinculante, mas que as potências do Ocidente esperam que reforce o isolamento russo por causa do envolvimento na Crimeia.

O Brasil se absteve, ao lado de Argentina, China, Índia, Equador e Uruguai.

A Rússia diz que simplesmente apoiou o direito da população da Crimeia, de maioria étnica russa, à autodeterminação.

A justificativa inicial de Moscou para intervir no território (para onde enviou tropas) era a preocupação quanto à população étnica russa que mora ali, que estaria vulnerável às decisões de políticos contrários à Rússia em Kiev.

Mas outras regiões da antiga União Soviética com moradores de origem russa podem passar por situação semelhante?

Confira regiões onde esse perigo é debatido:

Leste da Ucrânia

Desde que o presidente ucraniano Viktor Yanukovych foi afastado do cargo, em fevereiro, tem havido frequentes protestos pró-Rússia em cidades do leste da Ucrânia, especialmente Donetsk e Kharkiv. Ao menos uma pessoa morreu.

A Rússia alega que a tensão na Ucrânia se deve a grupos de extrema direita pró-Ocidente. Tropas russas realizaram exercícios militares perto da fronteira e permanecem na região. Não seria difícil para que elas invadir a Ucrânia.

Assim, se a Rússia está considerando mais uma expansão territorial, o leste da Ucrânia provavelmente estará no topo da lista.

Os custos políticos, no entanto, seriam altos: a Otan e o Ocidente advertiram contra novas medidas expansionistas.

Ao mesmo tempo, uma vez que o sentimento separatista dos russos ucranianos ganhou força com o envolvimento de Moscou na Crimeia e o novo governo contrário à Rússia em Kiev, é difícil voltar a contê-lo.

Moldávia

As atenções também estão voltadas à Transnístria, região separatista do leste da Moldávia que já pediu para ser anexado por Moscou. A região autoproclamou sua independência em 1990, mas isso nunca foi reconhecido internacionalmente.

A maioria da população da Transnístria fala em sua maioria russo, enquanto os moldavos falam uma língua própria muito parecida com o romeno.

O comando da Otan na Europa advertiu que a Transnístria pode ser o novo alvo da Rússia - que já tem mil soldados no território, localizado perto da fronteira ucraniana.

Mas a Moldávia está se preparando para assinar um acordo de aproximação com a União Europeia, o que desagradaria Moscou e, potencialmente, aumentaria a tensão no território.

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Ao mesmo tempo, no sul da Moldávia fica um território conhecido como Gagauzia, região autônoma formada por quatro enclaves, totalizando 160 mil habitantes. A população ali é de maioria cristã ortodoxa e fala um idioma de origem túrquica.

Em fevereiro, a Gaugazia realizou um referendo no qual 98,4% dos votantes apoiaram a integração com a união aduaneira liderada pela Rússia. Mas o governo moldavo alega que o pleito foi ilegítimo.

Geórgia

Em 2008, a Rússia travou uma breve guerra na Geórgia, que resultou na secessão de duas áreas, a Ossétia do Sul e a Abecásia - onde parte da população tem passaporte russo e há uma forte oposição à afirmação de soberania georgiana.

A Abecásia, que faz fronteira com a Rússia, já havia declarado unilateralmente sua independência, em 1999. Desde então, os dois enclaves passaram a viver em um limbo diplomático - sem reconhecimento internacional.

A Ossétia do Sul faz fronteira com a república russa da Ossétia do Norte, e seus suprimentos vêm da Rússia por meio de um túnel sob as montanhas do Cáucaso. Os preços são altos, assim como a corrupção e o desemprego.

Foi só por ocasião da guerra em 2008 que a Abecásia e a Ossétia do Sul passaram a ser aceitos por Moscou e alguns outros países (entre eles a Venezuela) como nações independentes.

Países bálticos

Independentes após a Primeira Guerra Mundial, as repúblicas bálticas só reconquistaram esse status após o colapso da União Soviética, nos anos 1990.

Na Letônia e na Estônia, cerca de um terço da população é de origem russa. Ambos os países só dão cidadania a quem falar suas línguas - fazendo com que russos não consigam ou não queiram se tornar cidadãos locais. Eles se queixam de discriminação.

Na Lituânia, russos étnicos são cerca de 5% da população e não precisam passar por exames de idioma.

Em meados de março, o Kremlin expressou "indignação" pelo tratamento de russos étnicos na Estônia - a mesma razão dada para a intervenção na Crimeia.

No entanto, os países bálticos são membros da Otan e da UE. Qualquer incursão russa teria consequências sérias. O artigo 5º da Otan afirma que um ataque a um país-membro é um ataque a todos.

Norte do Cazaquistão

Mais da metade da população do norte cazaque é de população russa. A região, assim como a Crimeia, já foi parte do Império Russo, no século 19.

Os elos entre Rússia e Cazaquistão vêm dos tempos czaristas, quando cidades do norte como Pavlodar e Uralsk foram fundadas por russos para serem postos militares.

Como a Ucrânia, o Cazaquistão assinou um acordo de desarmamento nuclear em 1994 em troca de proteção.

Ao mesmo tempo, o Cazaquistão já tem laços próximos com a Rússia: é membro, ao lado de Belarus, da integração aduaneira criada por Moscou.

O país tem permanecido neutro na questão ucraniana, mas pede uma resolução pacífica.

Outras repúblicas centro-asiáticas

A porcentagem de russos étnicos na Ásia Central oscila de 1,1% no Tadjiquistão a 12,5% no Quirguistão. Após sua independência em 1991, vários russos emigraram.

Mas as economias da Ásia Central continuam ligadas à Rússia por conta do comércio e das remessas enviadas por imigrantes. Parece improvável que Moscou interceda na região.

Ao mesmo tempo, a turbulência pós-Crimeia ainda pode ter efeitos à medida que sanções ocidentais afetarem negócios russos. Imigrantes desempregados que precisem deixar a Rússia podem causar dor de cabeça aos governos quirguiz e tadjique.

Armênia e Azerbaijão

A Armênia não tem população russa relevante; o Azerbaijão tem 1% de russos. Ambos ficam na corda-bamba geopolítica entre a Rússia e o Ocidente.

Assim como a Ucrânia, a Armênia vinha se preparando para assinar um acordo com a UE. Mas, em setembro, anunciou que em vez disso se aliaria à união aduaneira russa.

Desde a independência armênia, em 1991, a Rússia mantém uma base militar na cidade de Gyumri. Já o Azerbaijão exporta petróleo e gás natural à UE e é menos dependente economicamente da Rússia. Um oleoduto que termina na Turquia permite que o país não dependa do território russo para exportar os produtos.

Moscou gostaria de manter os dois países em sua esfera de influência, mas acredita-se que, para isso, use medidas econômicas, em vez de militares.

Um elemento que pode levar a Rússia a ter maior influência na região é o conflito adormecido em Nagorno-Karabakh, um enclave armênio em território azerbaijano reivindicado por Baku. O território declarou sua independência com apoio armênio e negociações de paz, envolvendo representantes russos, estão em andamento há anos.

Caso um confronto volte a florescer, Moscou poderia sair ganhando com a venda de armas.

Belarus

O país já é aliado próximo de Moscou. Ainda que apenas 8,3% da população se declare russa, mais de 70% falam a língua.

Não há motivos para uma intervenção russa: os dois governos são extremamente amigos; Belarus tem acordos econômicos com a Rússia, e o idioma russo é oficializado no país.

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