'Vejo o muro de lama ao fechar os olhos’, diz sobrevivente de deslizamento nos EUA

Membro de equipe de resgate caminha em cenário de deslizamento (foto: AP) Direito de imagem AP
Image caption Vítimas que escaparam de deslizamento nos Estados Unidos contam como foi desastre

Robin Youngblood nunca se esquecerá do momento em que o deslizamento a atingiu.

Ela estava em casa conversando com uma visita – que havia acabado de comentar sobre a serenidade da paisagem – quando foram interrompidos por um rugido poderoso.

"Eu fui até a janela e vi uma parede de lama de seis metros de altura se deslocando pelo vale a uma velocidade de mais ou menos 160 km/h. A próxima coisa que percebi foi quando fomos atingidos. Havíamos sido atingidos e estávamos nos movendo".

O impacto arrancou a casa de suas fundações e a empurrou montanha abaixo. Quando a casa parou, depois de ser movida por 400 metros, Youngblood temeu ser engolida pela torrente de lama e pedras.

Mas a americana, de 63 anos de idade, - cujos ancestrais ajudaram a construir a cidade de Oso – conseguiu se livrar de uma pilha de destroços e conseguiu ajuda.

Olhando para o horizonte abordo de um helicóptero de resgate logo depois, ela percebeu que toda a cidade havia sido varrida.

Mas ela não foi a única passar por esse pesadelo.

Crianças

Em uma tenda da Cruz Vermelha em uma cidade próxima, Darrington, encontrei James Michael.

O garoto de 13 anos estava brincando do lado de fora da casa de seu amigo quando os dois ouviram um som semelhante ao de diversos tratores seguindo em sua direção.

Michael disse ter visto casas se partindo e pessoas sendo sugadas por um mar de lama.

"Eu pensei: é isso, eu vou morrer. E então a coisa simplesmente parou", afirmou.

Tudo ficou então em silêncio e Michael viu um garoto de quatro anos subir em um telhado. Ele tremia muito.

Direito de imagem Arlington landslide Snohomish County
Image caption Autoridades dizem avalanche de lama encobriu cidade no Estado de Washington

Esse menino era Jacob Spillers. Ele estava no andar de cima de sua casa quando ela foi atingida pela avalanche de lama e pedras. Seu pai e três irmãos estavam assistindo TV no andar de baixo.

Uma equipe de resgate em um helicóptero avistou Spillers com lama até os joelhos e o resgatou. Foi assim que ele conheceu Youngblood.

"Ele estava tremendo como uma vara e eu o enrolei em um cobertor e o coloquei em meu colo", disse Youngblood. "Ele ficava perguntando por sua mãe e eu disse: 'nós vamos encontra-la'".

A mãe do menino foi encontrada, mas o resto de sua família continua desaparecida desde que a cidade foi varrida do mapa.

Cerca de 90 membros da pequena comunidade tiveram o mesmo destino. Nada foi descoberto sobre eles desde o último sábado.

Tragédia anunciada

Eu encontrei Youngblood em sua nova casa – um quarto de hotel próximo à cidade de Marysville – no momento em que começavam a surgir afirmações de que o acidente em Oso era uma tragédia anunciada.

Aparentemente, um cientista alertou para os perigos de um deslizamento de terra de grandes proporções na região há 15 anos. Mas a construção de prédios e as atividades comerciais continuaram em ritmo acelerado.

Compreensivelmente, Youngblood estava furiosa, não apenas porque ela não foi informada sobre o perigo quando retornou à cidade de Oso dois anos atrás. Mas também porque grandes empresas foram autorizadas a instalar pedreiras nas montanhas.

Na opinião dela, sem as rochas a região ficou sem nada para manter a terra em seu lugar quando saturada pela água.

Como se a perda de familiares não fosse suficiente, os moradores da cidade lidam agora com a perspectiva de que a tragédia poderia ter sido evitada.

E há também os pesadelos – que Youngblood diz que podem durar por toda a vida.

“Vejo o muro de lama ao fechar meus olhos, e ouço aquel som”, ela afirmou. “Não acho que conseguirei esquecer isso nunca”.

Notícias relacionadas