Tombini: Brasil tem ‘ferramentas’ para lidar com redução dos estímulos nos EUA

Alexandre Tombini (foto:AP) Direito de imagem AP
Image caption Autoridade monetária americana arrefeceu seu programa de injeção de dólares no mercado

O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse nesta quinta-feira que o Brasil tem as "ferramentas" adequadas para lidar com turbulências geradas pela redução dos estímulos monetários injetados na economia americana.

Durante um evento no centro de estudos Brookings Institute, em Washington, o presidente do BC disse que o país "construiu colchões" antes da crise, que estão "estão vindo a calhar nesta fase de saída (dos estímulos), de normalização" monetária nos países industrializados.

"No futuro, quando você tiver condições normais nas economias avançadas nos campos monetário e financeiro", disse Tombini, "estamos numa posição mais confortável de recorrer às nossas ferramentas para proteger nossa política monetária através de intervenções de esterilização de capital".

"Nós aprendemos a lidar com esses ciclos" de liquidez na economia internacional, afirmou o presidente da autoridade monetária.

'Colchões'

O Federal Reserve, a autoridade monetária americana, arrefeceu neste ano seu programa de injeção de dólares no mercado através da redução das compras de títulos para US$ 55 bilhões por mês (contra US$ 85 bilhões no início do ano).

As expectativas são de que as taxas de juros nos EUA comecem a subir em 2015, reduzindo ainda mais a liquidez na economia americana. Esse processo deve atrair recursos de investidores que hoje estão localizados nos países emergentes, como o Brasil.

Porém, Tombini disse que antes da crise, o país acumulou reservas através das chamadas compras esterilizadas de câmbio.

Depois da crise, “a coincidência de políticas nos países industrializados na mesma direção” obrigou o BC a lançar mão de um “kit de ferramentas mais amplos”, incluindo medidas macroprudenciais no câmbio, de controle de expansão do crédito e com ações de controle de fluxos de capitais.

“A boa notícia é que construímos colchões e estes colchões agora estão vindo a calhar na fase da saída, da normalização”, disse Tombini.

Coordenação

O presidente do BC participou de um evento no qual o presidente do Banco Central da Índia, Raghuram Rajan, criticou o uso de políticas não convencionais de expansão monetária nas nações ricas para apoiar o crescimento nestes países.

Rajan fez uma análise dos riscos que o processo de normalização implica para os emergentes, e pediu maior coordenação entre os BCs mundiais para evitar turbulências. Ele também defendeu encontrar outras alternativas de políticas de liquidez no futuro.

Porém, foi refutado em um painel formado por membros de outras autoridades monetárias, inclusive da zona do euro e do Fed de Chicago.

"O que teria acontecido se as economias avançadas não tivessem adotado essas políticas?", questionou o vice-presidente do Banco Central Europeu, o português Vitor Constâncio. "O mundo estaria em uma situação pior."

Constâncio lembrou que o alto nível de desemprego e a produção ociosa nos países ricos justificou os estímulos.

O presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, argumentou que "o crescimento da economia americana é importante para o crescimento da economia mundial".

Ele lembrou que, no fim das contas, o mandato do BC americano é o de combater a inflação e o desemprego no país.

Já o presidente do BC brasileiro disse concordar com a crítica do colega indiano, mas se disse "cético" quanto a uma coordenação fina das políticas monetárias além da que já existe.

"Temos organizações como o G-20 para a coordenação macroeconômica e o BIS (Banco Internacional de Compensações) para temas monetários", lembrou.

Ele afirmou ainda que o ciclo atual de liquidez na economia global não é diferente dos outros, apenas um caso extremo.

"À nossa própria maneira, encontramos estratégias para lidar com esses ciclos."

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