Patriota nega recuo de política externa e diz que 'era hora de consolidar'

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Image caption Patriota, embaixador do Brasil na ONU, disse que momento era de consolidar política externa do país

Antonio Patriota tem a resposta aos que dizem que a política externa do Brasil recuou nos anos Dilma: a hora era de consolidar, diz, no tom suave que lhe é habitual.

Mas nem todos pensam como o ex-chanceler, atual embaixador do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU).

Analistas argumentam que a política externa foi deixada em segundo plano, com as atenções da presidente Dilma Rousseff voltadas a questões domésticas, como a desaceleração da economia.

Apontam, ainda, para um menor engajamento dela em questões internacionais, apesar da emergência do Brasil como ator global, e criticam posições do país em crises recentes, como na vizinha Venezuela - o governo brasileiro, ao evitar pronunciamentos e críticas, teria "favorecido a repressão aos protestos em Caracas", como disse à BBC em março o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia.

Um forte contraste ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se empenhava pessoalmente em temas externos.

"Era um momento de consolidar", disse Patriota em entrevista à BBC, por telefone, de Nova York.

"Você pode sair de uma situação de menos atuação internacional para uma de mais e consolidar essa posição".

Leia mais: Com Dilma, o Brasil perdeu força na política internacional?

Patriota, 60, diz ter exemplos "eloquentes" da nova fase de consolidação da política externa.

Cita como conquistas as eleições de Roberto Azevêdo para a direção da Organização Mundial do Comércio (OMC) e de José Graziano da Silva como novo diretor-geral do órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Patriota foi chanceler de janeiro de 2011 até agosto do ano passado, substituído por Luiz Alberto Figueiredo após da polêmica operação de fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina, que tinha buscado refúgio na Embaixada Brasileira em La Paz e foi levado ao Brasil secretamente por iniciativa de um diplomata da representação.

É conhecido pelo tom cordial e frases que parecem ser meticulosamente pensadas - o que, entre jornalistas, lhe rendeu o apelido de "sem lide", pela ausência de declarações fortes.

Agora embaixador na ONU, Patriota disse surgir "com alguma força" a possibilidade de uma decisão sobre a ampliação do Conselho de Segurança da entidade em 2015 - tema que se arrasta há anos.

A obtenção de um assento permanente é há décadas uma das principais bandeiras da política externa brasileira. Era um pleito defendido com ênfase no governo Lula - inclusive pelo próprio - mas que desapareceu dos discursos públicos nos anos Dilma.

"É um desaparecimento aparente. Ele continua muito presente dentro do nosso dia a dia", disse.

Veja abaixo trechos da entrevista.

BBC Brasil - Há, então, a possibilidade concreta de se ampliar o Conselho?

Patriota - Há várias etapas no processo. Ainda não há uma visão clara de quantos novos (membros) permanentes, não-permanentes, que tipo de prerrogativas eles teriam. São questões que ainda precisam ser mais definidas em detalhes.

A hipótese do Brasil vir a ocupar um assento seria uma etapa subsequente e passaria também por uma eleição na Assembleia Geral.

Eu vejo algumas mudanças interessantes no ambiente negociador.

Países como França e Reino Unido hoje dizem abertamente que eles querem muito a reforma do Conselho, com ampliação das duas categorias (membros permanentes e não-permanentes), que eles são muito favoráveis a Brasil e Índia como membros permanentes.

Porque eles sentem que a legitimidade deles próprios nesta categoria vai ser crescentemente questionada se não houver uma ampliação. Isso não era dito há 10 anos. Isso mostra uma evolução do pensamento.

BBC Brasil - Mas Rússia e China, membros permanentes, se opõem. E Estados Unidos declararam apoio ao pleito da Índia por um assento permanente e não fizeram o mesmo com o Brasil.

Patriota - Embora persistam objeções e vozes que se sentem ameaçadas pela ideia de novos membros permanentes, a maioria, e alguns atores influentes, como alguns membros permanentes, já começam a sentir que não é possível continuar por muito mais tempo da maneira que está.

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Image caption Patriota foi substituído por Luiz Alberto Figueiredo como ministro de Relações Exteriores em 2013

BBC Brasil - Como o sr. vê a crítica de especialistas de que houve uma retração da política externa brasileira no governo Dilma?

Patriota - Nunca o Brasil exerceu tanta influência e teve posições que fossem tão levadas em consideração sobre uma gama tão ampla de assuntos.

É visível a ampliação da esfera de atuação do Brasil no plano multilateral e também a maior capacidade de articulação de posições.

Aqui nas Nações Unidas não há retração alguma. Pelo contrário. Há um perfil muito participativo, muito atuante, que vem sendo construído ao longo dos últimos 15 anos que nos permite hoje em dia atuar com muita capacidade de penetração dentro desses diferentes grupos.

BBC Brasil - Mas especialistas, de maneira geral, dizem que houve uma retração pública do Brasil.

Patriota - Você, com retração internacional, não elege o diretor-geral da FAO em Roma, não elege o diretor-geral da OMC em Genebra, não exerce a presidência da Peacebuilding Commission, não interfere num debate sobre proteção de civis, estratégico para a comunidade internacional. Eu posso continuar a dar exemplos.

Isso não é retração internacional. Isso é uma capacidade de atuação que eu diria superior, inclusive, a dos outros Brics.

Eu não vejo, por mais que nós tenhamos parcerias estratégicas com muitos dos Brics, assim como também temos com a União Europeia e com outros, eu não constato uma criatividade, uma influência, uma capacidade de articulação tão inovadora em outros lugares, embora possa haver episodicamente alguma atuação. Depende comparar com o quê.

BBC Brasil - Críticos dizem que o tom da política externa é diferente na comparação aos anos Lula.

Patriota - A política externa dos anos Lula abriu inúmeras frentes de trabalho. Por exemplo 40 novas embaixadas, criou a Unasul (União de Nações Sul-Americanas), criou a Celac (Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos).

O desafio hoje em dia é consolidar tais espaços.

O exemplo da eleição do Graziano para a FAO e do Roberto Azevêdo para a OMC é um bom exemplo de utilização desses espaços novos que foram criados.

O ritmo de transformação, de ampliação de frentes de atuação internacional, de abertura de embaixadas, não pode ser mantido permanentemente.

Você pode sair de uma situação de menos atuação internacional para uma de mais e consolidar essa posição. Você não pode ficar permanentemente aumentando essa fronteira porque em certos planos quantitativos se esgotam as possibilidades de ampliação.

BBC Brasil - Era momento, então, de consolidar a política externa?

Patriota - Era um momento de consolidar e eu acho que existem muitos bons exemplos, exemplos eloquentes de que a consolidação está ocorrendo.

Os espaços abertos estão sendo aproveitados. A gente dá opinião sobre praticamente tudo que acontece na ONU.

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