'Não entendo o pessimismo com a Copa', diz autor de 'O Ócio Criativo'

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Image caption Sociólogo diz que Brasil não pode mais copiar modelos estrangeiros: país precisa criar modelo autônomo.

Em passagem pelo Brasil às vésperas da Copa, o sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de O Ócio Criativo, diz não compreender o desânimo dos brasileiros com o evento. "Não entendo por que o pessimismo. Para uma pessoa não brasileira, é difícil entender", afirmou em entrevista à BBC Brasil.

"Os dados estatísticos são todos positivos. Há 196 países no mundo, são 189 abaixo do Brasil. Em qual posição o Brasil deveria estar para ser mais otimista?", provocou o sociólogo.

O entusiasmo com o Brasil fica claro no livro que De Masi veio lançar no país. Em O Futuro Chegou – Modelos de vida para uma sociedade desorientada, o italiano parte da premissa de que tanto o comunismo quanto o capitalismo falharam. Analisa, então, 15 diferentes modelos de desenvolvimento com o objetivo de, a partir deles, propor um novo modelo.

"O Brasil copiou a Europa por 450 anos, mas agora o modelo da Europa está em crise. O Brasil copiou o modelo americano por 50 anos, mas agora esse modelo também está em crise. Agora, o Brasil não pode mais copiar modelos. Precisa criar um modelo seu, autônomo", disse.

Na obra, De Masi destaca a "concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade". Afirma ainda que os índios já viviam em "ócio criativo", numa síntese de estudo, trabalho e lazer.

Nesta entrevista, rebateu reportagem da revista britânica The Economist, que afirmou que os brasileiros eram improdutivos e que, "a partir do momento em que você pisa no Brasil, você começa a perder tempo".

"Eu, quando chego ao Brasil, fico super produtivo", rebateu.

De Masi destaca que o Brasil ainda não cumpriu seu potencial, mas é o "melhor que o Brasil já foi até hoje". "O futuro já chegou, não precisa mais esperar. Se um país é o 7º do mundo, significa que o futuro já chegou."

Leia abaixo trechos da entrevista.

Brasil

A atual sociedade global não tem modelo, é preciso criar um. Para isso, temos que analisar todos os modelos, pegar as coisas boas e tirar o negativo.

O Brasil tem como positivo a alegria, a solidariedade, o otimismo, o senso estético. Negativos são a violência, corrupção, analfabetismo e a distância entre ricos e pobres.

O Brasil atual não é o melhor Brasil possível, mas é o melhor que o Brasil já foi até hoje. Há mais longevidade, aumentou o PIB geral e o per capita, há mais universidades, escolas, e a democracia é completa.

Formação cultural

O Brasil tem quatro matrizes culturais: índia, portuguesa, africana e mundial, europeia, mas também oriental, asiática.

Do modelo índio, pode-se pegar a dimensão estética, a convivência, a relação harmoniosa com a natureza.

Do modelo português podemos pegar o empreendedorismo, o espírito de aventura.

Da matriz africana, a preocupação com o corpo, a musicalidade, o sincretismo religioso, e do modelo que vem dos outros países do mundo, a globalidade.

Pessimismo

No livro, digo que os brasileiros são otimistas, com base em uma pesquisa. O resultado dela é que aspectos importantes do Brasil são a solidariedade, alegria, sensualidade, espírito de acolhimento.

Não entendo por que o pessimismo com a Copa. Para uma pessoa não brasileira, é difícil entender. Os dados estatísticos são todos positivos, não são negativos.

O Brasil é o sétimo maior PIB do mundo. Sabe quantos são os países? 196. O Brasil é o 7º posto. São 189 países abaixo do Brasil, de acordo com o PIB. Em qual posição o Brasil deveria estar para ser mais otimista?

Não é fácil explicar o pessimismo. Se o país fez um investimento no evento, o dinheiro gasto é maior ou menor que o dinheiro que vai ganhar? Se a percepção é que os gastos serão maiores, por que o Brasil fez a Copa? Para mim, não está claro se é bom ou não.

A Copa e a Olimpíada não vão fazer os serviços melhores? Eu vi todos os aeroportos renovados. Porto Alegre, Brasília, São Paulo, Rio, estavam fazendo reformas em tudo. Aqui no Rio só vejo obras. A impressão é que há coisas mudando, mas isso vocês também podem ver.

Protestos

Eu penso que os protestos são uma fase de maturação do Brasil. A corrupção sempre esteve no Brasil. Mas a contestação à corrupção é um fato novo. É interessante porque foi a primeira vez que houve uma forte contestação contra a corrupção.

Produtividade

Eu, quando chego ao Brasil, sou super produtivo. A falta de produtividade no Brasil se deve muito à desorganização urbana. O trânsito em São Paulo é sempre terrível, por exemplo. As pessoas perdem horas pra chegar ao trabalho, perde-se muita produção.

O modelo brasileiro de produtividade é muito bom, porque a relações não são só racionais, são emotivas. Isso é ótimo. Mas contra a produtividade há a desorganização e a burocracia.

Aquilo que é necessário hoje a uma pessoa que trabalha é a criatividade. A criatividade é uma síntese entre fantasia e concretude. A fantasia é emotividade, e a concretude é racionalidade.

O brasileiro é mais criativo, porque há fantasia e concretude. Os americanos só têm concretude. Os napolitanos, só fantasia.

Distribuição de riqueza

Os economistas falam de crise, mas não há uma crise. A crise é algo que acaba, e esse processo que está acontecendo no mundo não vai acabar. Há uma redistribuição da riqueza mundial. Os países pobres ficarão sempre mais ricos e os ricos, mais pobres.

Não li o livro do [economista francês] Thomas Piketty (O Capital no Século XXI), por isso não posso fazer um comentário. Mas esse aumento na diferença entre poucos ricos e muitos pobres não é novidade, foi dito há 15 anos no meu livro.

Há uma diferença da situação mundial e daquela de dentro dos países. A riqueza do mundo aumenta em geral 3 pontos por ano. Alguns países pobres, como a China, Índia e Brasil, há 30 anos aumentam a riqueza. Mas dentro da China, dentro do Brasil, dentro da Índia, alguns estão ficando mais ricos, e outros mais pobres.

País do futuro

O Brasil copiou a Europa por 450 anos, mas agora o modelo da Europa está em crise. O Brasil copiou o modelo americano por 50 anos, mas agora esse modelo também está em crise. Agora, o Brasil não pode mais copiar modelos. Precisa criar um modelo seu, autônomo

Jorge Amando, em um livro de 1930, disse em um certo ponto que Brasil era o país do futuro. Depois, em 1941. Stefan Zweig [escritor austríaco] escreveu Brasil, um país do futuro.

Depois, o governo militar, de 1964 a 1984, dizia sempre que Brasil era o país do futuro. Eu digo que o futuro já chegou, não precisa mais esperar. Se um país é o 7º do mundo, significa que o futuro já chegou.