Legado turístico da Copa ainda é incerto em Cuiabá

Portaria do Parque Nacional da Chapada dos Guimaraes em 30 de maio de 2014 | Foto: Camilla Costa/BBC Brasil Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Cidades do entorno de Cuiabá, que concentram pontos turísticos, reclamam de 'abandono'

Apesar de ter usado o Pantanal e na Chapada dos Guimarães como âncora de sua candidatura como cidade sede da Copa do Mundo, Cuiabá sofre com a falta de infraestrutura turística. Às vésperas do Mundial, a capital do Mato Grosso tem intervenções de última hora e empresários de cidades do entorno reclamando de "abandono".

Obras de mobilidade urbana que não ficaram prontas até o Mundial dificultam o acesso a diversos pontos turísticos. A sede mato-grossense espera receber cerca de 80 mil turistas durante os dias em que receberá quatro jogos da primeira fase da Copa.

A procura pela cidade - que se tornou a terceira onde mais ingressos foram vendidos para estrangeiros, segundo pesquisa divulgada pelo ministério do Turismo, surpreendeu as autoridades e apressou a ampliação de programas de hospedagem alternativa cerca de um mês antes do Mundial.

Problemas na comunicação e na divisão de ações entre o governo estadual e as prefeituras dificultaram a adequação da capital e das cidades do entorno - que concentram atrações turísticas como o Pantanal e o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães -, segundo o presidente do conselho estadual da Confederação Nacional do Turismo, Jaime Okamura.

"O anúncio era que tudo ia dar certo, tudo ia ficar pronto. Quando anunciaram a Copa para Cuiabá, o governo do Estado assumiu a preparação do turismo, mas a Secopa (Secretaria Extraordinária da Copa) acabou tratando mais dos projetos de infraestrutura. Como as prefeituras não tiveram ingerência, também não assumiram responsabilidade alguma."

"Acho que do limão teremos que fazer uma limonada, mas ainda podem acontecer coisas boas. Vamos receber a Copa da melhor forma possível, mas dizer que (a cidade) está preparada está difícil", afirma Okamura.

O secretário municipal de Turismo de Cuiabá, Marcus Fabricio, disse à BBC Brasil que Cuiabá se preparou "como alguém se prepara para receber um visitante em casa".

De acordo com Fabricio, cerca de 70% das placas de sinalização de pontos turísticos da cidade, em português, devem ficar prontas até o início do Mundial. O projeto de implantação de elevadores acessíveis em alguns pontos da cidade não ficarão prontos, porque a licitação foi aprovada somente em março.

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Image caption Obras de mobilidade inacabadas dificultam acesso a pontos turísticos em Cuiabá

A prefeitura também modificou o horário de abertura de alguns dos principais museus da cidade, que até meados de maio não ficavam abertos nos fins de semana.

"O que é importante é a gente trabalhar, como na África do Sul, a recepção desses turistas. Lá, 42% dos turistas retornaram com suas famílias para conhecer melhor o lugar. No meu ponto de vista, esses turistas vão retornar para conhecer melhor não só Cuiabá como também Chapada e as cidades do entorno", afirma.

De última hora

Em Chapada dos Guimarães, que fica a 60 km da capital mato-Grossense e é a porta de entrada para um dos parques nacionais mais visitados do Brasil, guias turísticos e donos de hoteis reclamam de deficiências na infraestrutura da cidade.

"O argumento para Cuiabá na Copa foi valorizar o turismo no Pantanal e na Chapada, mas depois nem pisaram aqui", diz Alberto Krebs, dono de uma agência de turismo em Chapada dos Guimarães.

Ele diz temer que os problemas estruturais na cidade dificultem a vida dos turistas que estiverem hospedados lá. "Estou tendo bastante procura, mas acho que vai ser difícil atender a todos. Quando há eventos muito grandes em Cuiabá já é difícil aqui. Falta guia, falta transporte, faltam leitos. E existe uma carência muito grande de profissionais bilíngues. Também é comum, quando a cidade está cheia, que falte água", diz Krebs.

Em um camping dentro da cidade, Faisal Assad já começa a receber os chilenos que se hospedarão na cidade para assistir à partida entre Chile e Austrália, no dia 13 de junho, mas também diz estar preocupado com a capacidade de Chapada dos Guimarães.

"Não há quem não goste de Chapada, mas não vejo nenhuma preparação, vai ser de última hora. Minha capacidade vai estar lotada, a dos hoteis também. A estrutura turística da cidade não foi modificada. O que der pra ter, vai ter", disse à BBC Brasil.

Segundo Faisal, o abastecimento de água na cidade é intermitente desde o último domingo. Os turistas chilenos, no entanto, estão "fazendo festa" no local, segundo ele.

Leia mais na BBC Brasil: Caravana de 3 mil chilenos cruzará os Andes de carro para ver Copa

Segundo Plano

Atualmente, o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães contabiliza pontos turísticos que estão interditados ou sem a infraestrutura necessária para receber um grande número de visitantes - mesmo que seja, segundo analistas do Instituto de Conservação Chico Mendes (ICMBio) que administra o parque, um dos seis mais visitados do país.

Entre os projetos inacabados estão revitalização de trilhas, uma portaria e um centro de visitantes no complexo da cachoeira do Véu de Noiva, que concentra 90% dos visitantes do parque.

A construção da portaria do complexo, a um custo de R$ 300 mil, foi interrompida por problemas de repasse de verbas. De acordo com a administração do parque, o projeto foi elaborado em 2009 e deveria ter sido concluído até 2011.

"A secretaria de Turismo do Estado teve poucas obras concluídas para a Copa. E eles tinham coisas básicas para resolver, como um aeroporto. Então as nossas obras ficaram em segundo plano", diz a analista ambiental Carolina Potter, do ICMBio.

Atrativos mais distantes do centro do parque agora são abertos somente para visitas guiadas, com agendamento prévio, desde que, em 2008, o desabamento de um paredão de arenito matou uma jovem e deixou outros quatro feridos na cachoeira.

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Image caption Parque Nacional da Chapada dos Guimarães tem acesso limitado a principais pontos turísticos

"Nos falta sinalização nas trilhas, nos falta monitores. As trilhas precisam de uma intervenção. Nos falta estrutura básica mesmo, uma trilha como uma passarela para a pessoa não pisar em pedras, cercas para protegê-los de locais mais arriscados", diz o analista ambiental Cecílio Pinheiro, também da administração do parque.

Potter diz estar "apreensiva" com a perspectiva de aumento do número de visitantes durante a Copa. "Na África do Sul esperavam mais visitantes aos parques nacionais do que realmente receberam, porque o perfil das pessoas que vêm para a Copa é diferente. Mas ao mesmo tempo estamos muito perto de Cuiabá", diz.

Obras pós-Copa

O secretário de Desenvolvimento do Turismo do Mato Grosso, Jairo Pradela, afirma que "problemas muito sérios de projetos" atrasaram as obras na Chapada dos Guimarães.

"Toda a reestruturação das trilhas e do centro de atendimento ao turista dentro do parque era para ter sido feita em janeiro. Houve problema de planejamento e só foi licitado no dia 7 de maio, perdemos quase cinco meses. São essas coisas que atrasam o processo, além da burocracia, que é muito engessada", disse a BBC Brasil.

"Isso não é desculpa para as obras não acontecerem. Vão acontecer, mas é o velho sistema. E as obras que não são concluídas, não o são pelo mesmo motivo."

Ele admite que o Estado poderia ter se planejado melhor para projetos de infraestrutura, mas acredita que a cidade receberá bem os turistas.

"A preparação existe e está aí. O que não pode é semanas antes da Copa querer falar que não tá pronto. Tivemos todo o tempo sim e utilizamos todas as ferramentas que estavam disponíveis para hospedagem, gastronomia e cultura. E isso vai ser o diferencial", diz.

Pradela afirma ainda que mais de 30 pontes na rodovia Transpantaneira serão trocadas - onde, até então, donos de hoteis do Pantanal vinham realizando reparos nas estruturas, segundo a mídia local.

As obras, no entanto, só começam em julho, por causa das chuvas. "Esse legado Copa vai ficar com obras pós-Copa. Turismo não é só Copa do Mundo, é melhoria contínua."

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