Após atrasos, polêmicas e protestos, Mundial começa no Brasil

Arena Corinthians, em São Paulo, palco da abertura da Copa do Mundo Direito de imagem Fifa.com
Image caption Arena Corinthians, palco da abertura, não foi testado integralmente antes do Mundial

A 20ª Copa do Mundo da Fifa começa nesta quinta-feira, 12 de junho, às 17h, com o jogo entre Brasil e Croácia, que voltam a se encontrar em Mundiais oito anos depois da vitória brasileira na Copa de 2006, na Alemanha, e dão início ao torneio na Arena Corinthians, em São Paulo.

Depois da estreia em São Paulo, o Brasil enfrenta o México em Fortaleza, na próxima terça-feira (17/06), e a seleção de Camarões na segunda seguinte (23/06), em Brasília, fechando o Grupo A. Ainda na primeira fase, vale destacar a reedição da última final, entre Espanha e Holanda (sexta, 13/06, em Salvador) e a inédita chave com três campeões mundiais: Uruguai, Inglaterra e Itália.

Ao todo, são 64 jogos e pelo menos 5760 minutos de bola rolando em 12 cidades-sede e 32 dias de competição, sendo que algumas seleções se despedem depois de apenas três partidas, enquanto o campeão precisa de sete jogos para erguer a taça em 13 de julho.

Os 32 elencos somam 736 atletas, sendo que o goleiro italiano Gianluigi Buffon chega à quinta Copa de sua carreira, convocado desde 1998. Já o também goleiro Faryd Mondragón é o único jogador no Brasil que esteve na Copa do Mundo de 1994 – é ainda o mais velho, com 43 anos.

Considerada a grande festa do futebol mundial, a preparação do Brasil para o megaevento gerou uma onda de protestos e manifestações.

Sedes e custos

A Fifa voltou a repetir o discurso de confiança total de que o Brasil terá uma grande Copa do Mundo, na volta do torneio ao "país do futebol" depois de 64 anos. No meio disso, gente como Pelé pede para que os protestos e reclamações fiquem para depois dos jogos, deixando a festa do futebol ilesa.

A própria forma com que o estádio localizado em Itaquera, zona lesta de São Paulo, chega à abertura da Copa já simboliza a corrida contra tempo que equipamentos importantíssimos viveram nos últimos meses: o palco da partida inaugural, onde três operários morreram durante as obras, não foi testado integralmente (uma das arquibancadas provisórias nunca recebeu público) e nem terá um público de 68 mil pessoas conforme previsto inicialmente.

"Tem muita coisa para ser feita. Eu diria que isso é normal, esse atraso, ter de instalar alguns assentos agora, mas não há risco para os primeiros jogos. É claro que a primeira semana é desafiadora pelo fato de algumas sedes não terem sido testadas e agora serem usadas na capacidade máxima. Mas está tudo sob controle", disse há uma semana, em coletiva oficial da Fifa, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke.

"No jogo, que começa agora, os pessimistas já entram perdendo. Foram derrotados pela capacidade de trabalho e a determinação do povo brasileiro, que não desiste nunca", colocou a presidente Dilma Rousseff em discurso na televisão na última terça-feira.

Em relação às sedes do Mundial, o principal questionamento é sobre a necessidade de se investir em estádios onde não há clubes de futebol na elite do Campeonato Brasileiro nem grandes públicos em competições locais. A Arena Pantanal, por exemplo, que custou R$ 646,5 milhões de acordo com o Ministério do Esporte e é um dos estádios públicos da Copa, tem capacidade para 44 mil pessoas.

Mas o campo localizado em Cuiabá, cidade onde apenas 35% das 56 obras do pacote de mobilidade urbana foram entregues até o final da última semana, já tenta se reinventar para ter utilidade depois do torneio – conforme reportagem da BBC Brasil, o local pode receber jogos do time de futebol americano Cuiabá Arsenal, que na última temporada levou cerca de 2 mil torcedores por partida (mais do que a média do campeonato estadual de futebol).

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Image caption Nos últimos dias, clima de Copa se intensificou com torcedores seguindo as seleções pelo Brasil

Sobre os estádios, aliás, a primeira estimativa da Fifa há sete anos imaginava um custo total de R$ 2,6 bilhões, valor que chegou a R$ 8,9 bilhões. De forma geral, o governo federal considera que o custo da Copa é de 25,8 bilhões. A promessa inicial de não usar dinheiro público também foi desfeita há anos, quando os governos estaduais assumiram a responsabilidade sobre estádios como os citados de Cuiabá e Brasília.

Por sua vez, o governo justifica que o investimento não tira recursos de outras prioridades. Três semanas antes da Copa, a presidente Dilma Rousseff explicou: "Com dados baseados em 2011, o valor total investido em educação pelo Governo Federal, Estados e Prefeituras chega a R$ 280 bilhões. Recursos à saúde anualmente somam R$ 206 bilhões. Enquanto isso, os gastos com a #CopaDasCopas somam R$ 25,8 bilhões, sendo que parte ainda retornará aos cofres públicos, como é o caso da construção dos estádios".

E, apesar de diversos projetos que foram incluídos na Matriz de Responsabilidades da Copa terem sido retirados do documento, enquanto outros ainda não estão prontos, a presidente reafirmou o processo de desenvolvimento das cidades do país.

"Construímos, ampliamos ou reformamos aeroportos, portos, avenidas, viadutos, pontes, vias de trânsito rápido e avançados sistemas de transporte público. Fizemos isso, em primeiro lugar, para os brasileiros. Tenho repetido que os aeroportos, os metrôs, os BRTs e os estádio não voltarão na mala dos turistas. Ficarão aqui, beneficiando a todos nós. Uma Copa dura apenas um mês, os benefícios ficam para toda vida", discursou dois dias antes da abertura do Mundial.

A Copa já aconteceu

Para o jornalista Jamil Chade, do jornal O Estado de S. Paulo, a Copa já é passado. A avaliação do repórter, publicada no seu e-book recém-lançado A Copa Como Ela É – A história de dez anos de preparação para a Copa de 2014, é de que a própria Fifa deixou de vender a ideia de um legado social no país: "O Mundial de 2014 foi – e digo expressamente no passado – uma oportunidade perdida ao país. (...) Onde estão os ganhos sociais? A falta de um legado social ou de infraestrutura é tão evidente que até mesmo o Palácio do Planalto e a Fifa abandonaram essa mensagem no seu marketing da Copa".

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Image caption Copacabana, sinônimo de festa para os estrangeiros, convive com protestos anti-Copa

A mesma ideia tem o Comitê Popular da Copa, que luta pelo fim das violações que o Mundial cometeu no país. Em conversa com a BBC Brasil, o geógrafo Danilo Cajazeira, membro do comitê em São Paulo, reforçou que as pautas seguem vivas durante o Mundial. E listou aqueles para os quais a Copa do Mundo já aconteceu:

"Já teve Copa para todos operários mortos; despejados; mulheres e crianças traficadas pelas redes de exploração sexual; população de rua varrida das cidades; presos, agredidos, perseguidos e mortos nas manifestações; ambulantes e catadores impedidos de trabalhar; torcedor comum e organizado, principalmente o mais pobre; grevistas sumariamente demitidos pelo governo de São Paulo; e quem luta por um projeto de país mais democrático."

Depois de pedir o fim dos protestos para o início dos jogos, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, voltou a falar sobre o tema na quarta-feira, véspera da abertura, e defendeu o direito das pessoas se manifestarem pacificamente.

"A Fifa tem de defender o futebol, apoiar aqueles que lutam pelo futebol, e proteger protestos pacíficos e liberdade de expressão. As pessoas têm o direito de querer um mundo melhor para suas crianças. Futebol deve ser um meio para mudanças, não um obstáculo".

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