Avanço de insurgentes sunitas pode redefinir fronteiras de quase cem anos do Iraque

Famílias fogem de Mosul. Foto: Reuters Direito de imagem REUTERS
Image caption Muitas famílias começaram a deixar Mosul depois de ocupação por sunitas

Militantes islamistas no Iraque tomaram mais duas cidades nesta sexta-feira, aumentando as áreas sobre seu controle no país e intensificando os temores de uma ofensiva contra Bagdá.

Os islamistas sunitas do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ISIS, na sigla em inglês) ocuparam Saadiya e Jalawla na província de Diyala. As forças de segurança do governo abandonaram suas bases na região.

O ISIS já havia ocupado anteriormente as cidades de Mosul e Tikrit. Analistas temem que os insurgentes islamistas sunitas estejam se deslocando rumo ao sul, em direção a Bagdá e outras áreas controladas pela maioria xiita, que os militantes sunitas veem como "infieis".

Para o editor da BBC para Oriente Médio Jeremy Bowen, o avanço dos insurgentes sunitas no Iraque pode ter grande impacto, com potencial de redesenhar as fronteiras na região - que foram estabelecidas por britânicos e franceses há quase um século, após o fim da Primeira Guerra Mundial.

Bowen diz que o grupo pode almejar a criação de um emirado islamista na região, unindo partes do Iraque e da Síria que estão sob seu comando.

A ascensão do ISIS poderia provocar um conflito tanto com o governo xiita do premiê iraquiano, Nouri Maliki, quanto com o Irã, país também governado por uma maioria xiita.

Nesta sexta-feira, o principal líder religioso do país, o aiatolá Ali al-Sistani, conclamou os iraquianos xiitas a pegarem em armas contra os sunitas.

Estado islâmico

O Iraque está enfrentando a sua crise mais intensa dos últimos anos, com o país muito perto de se fragmentar em diferentes regiões, devido à ofensiva dos militantes sunitas jihadistas, que tomaram cidades no norte e no oeste do país.

Além disso, os curdos - etnia minoritária que administra de forma autônoma uma região no norte do Iraque - também tomaram uma cidade (Kirkuk), que estava sob controle do governo de Maliki.

A ofensiva dos jihadistas sunitas começou em dezembro de 2013, quando eles tomaram a cidade de Falluja e partes de Ramadi.

Apoiada por líderes tribais sunitas, esses combatentes exploram o sentimento de revolta dos árabes sunitas, que acusam o premiê do Iraque, o xiita Nouri Maliki, de discriminá-los.

Agora, seis meses depois, eles lançaram um ataque à cidade de Mosul, ao norte. Trinta mil soldados do governo iraquiano abandonaram suas armas e fugiram – ao se deparar com meros 800 militantes na cidade. Com novo ímpeto, os jihadistas agora marcham rumo ao sul, possivelmente em direção a Bagdá.

Os ataques são liderados pelo Estado Islâmico do Iraque e Levante – uma facção dissidente da al-Qaeda. Há cinco anos, os Estados Unidos haviam declarado que o ISIS estava "prestes a ser derrotado estrategicamente".

Hoje, o grupo comanda atentados quase diários em Bagdá e vários territórios no oeste e norte do Iraque, além da Síria. Seu objetivo é estabelecer um Estado islâmico.

No entanto, as táticas brutais do ISIS – com sua interpretação extrema das leis islâmicas – fez com que rebeldes sírios preferissem se afastar desta ala dos sunitas. Mesmo assim, o grupo iraquiano ganha força e números. Muitos dos que se juntam a ele são ex-militares da época do regime de Saddam Hussein.

O governo iraquiano possui 930 mil pessoas treinadas pelos americanos para lidar com a segurança do país. Em tese, isso deveria ser mais do que o suficiente para lidar com 15 mil combatentes – o número estimado pelo ISIS.

Síria e comunidade internacional

Existe uma relação próxima entre o que acontece no Iraque e na Síria. Parece haver uma união dos rebeldes sunitas nos dois países contras ambos os governos – do premiê do Iraque, Nouri Maliki, e do presidente sírio, Bashar al-Assad, ambos xiitas.

O papel da comunidade internacional ainda não parece claro. O governo americano considera o ISIS uma ameaça à toda região e diz que estuda "todas as opções possíveis", inclusive uma ação militar de ajuda ao governo iraquiano.

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, diz que o ISIS é um grupo "bárbaro" e alertou que seu país não vai tolerar "essa violência e o terror".

A Turquia alertou que poderá retaliar o ISIS, caso 80 cidadãos seus que foram sequestrados pelo grupo sejam feridos ou mortos.

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