Detenção mina chances de Sarkozy de voltar à presidência da França

Nicolas Sarkozy | Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Nicolas Sarkozy enfrenta investigações relativas a tráfico de influência

A detenção do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy nesta terça-feira, por suspeita de envolvimento em tráfico de influência, é um duro golpe às suas eventuais ambições de se candidatar novamente à Presidência em 2017.

Desde sua derrota, em 2012, quando anunciou sua saída "definitiva" da política, Sarkozy vem dando sinais, ainda que velados, de que pretende se recandidatar, com frases como "não é possível escapar de seu destino" ou "é preciso mudar tudo na França".

Mas para disputar mais uma vez o Palácio do Eliseu, Sarkozy terá de provar sua inocência em investigações movidas contra ele e seu partido.

Ele foi detido e interrogado pelo Escritório contra a Corrupção e Infrações Financeiras e Fiscais da Polícia Judiciária de Nanterre, nos arredores de Paris. Ele é suspeito de envolvimento em tráfico de influência.

Com base em escutas telefônicas, os investigadores suspeitam que uma rede de informantes na polícia e na própria Justiça francesa tenha colocado Sarkozy a par do andamento de processos que o ameaçam.

Isso violaria o sigilo da fase de instrução judicial, onde são recolhidas as provas.

É a primeira vez que a Justiça da França prende um ex-chefe de Estado.

Privilégio

Sarkozy também teria prometido ajudar o juiz Gilbert Azibert, da Corte de Cassações, a obter um cargo prestigioso em Mônaco em troca de informações sobre processos que o envolvem.

Thierry Herzog, advogado de Sarkozy, Azibert e outro juiz da Corte de Cassação, Patrick Sassoust, foram detidos para interrogatório na segunda-feira e permanecem presos.

As suspeitas de que Sarkozy teria cometido tráfico de influência surgiram durante as investigações, iniciadas em abril de 2013, sobre um suposto financiamento dado à sua campanha presidencial em 2007 pelo ex-líder líbio Muamar Khadafi.

Em setembro do ano passado, a Justiça francesa decidiu colocar dois telefones de Sarkozy sob escuta e passou a ouvir as conversas com seu advogado, Thierry Herzog.

Essas escutas não teriam revelado nada sobre um eventual financiamento líbio à campanha de Sarkozy, mas colocaram o ex-presidente no centro das atenções da Justiça.

As conversas teriam revelado que Sarkozy e seu advogado estavam bem informados sobre atos processuais na Corte de Cassação e teriam apoio na Justiça para tentar intervir em uma decisão importante, concedida em março deste ano, relacionada à apreensão de antigas agendas do ex-presidente.

Antigas agendas de trabalho de Sarkozy, da época em que ele era presidente, foram apreendidas em um processo que investigou doações feitas pela herdeira da L’Oréal, a octogenária Liliane Bettencourt, no qual o ex-presidente era acusado de "abuso de incapaz".

A Justiça já havia considerado, em outubro de 2013, que não havia elementos suficientes contra Sarkozy no caso das doações feitas pela herdeira da L’Oréal.

Mas o ex-presidente queria impugnar a custódia judicial de suas agendas, que podem ser utilizadas em outros processos que o ameaçam: o do suposto financiamento líbio à sua campanha e o da indenização de 400 milhões de euros paga pelo Estado francês ao empresário Bernard Tapie, amigo de Sarkozy, em uma ação contra o banco Crédit Lyonnais, na época estatal.

Em março deste ano, a Justiça indeferiu o pedido de Sarkozy e manteve a apreensão do material.

Nome Falso

As suspeitas de contatos de Sarkozy e de seu advogado com juízes levaram a Justiça, em fevereiro deste ano, a abrir uma investigação por tráfico de influência e violação do sigilo da instrução processual.

Escutas telefônicas teriam revelado que Sarkozy, que também foi ministro do Interior, teria informantes na polícia e estaria a par sobre o monitoramento de seus telefones.

O jornal Le Monde revelou que Sarkozy, temendo estar sob escuta, havia adquirido um segundo telefone, sob o nome falso de "Paul Bismuth", para conversar com seu advogado.

Em março, Sarkozy rompeu seu silêncio para denunciar na imprensa "os métodos da Stasi", a polícia política da Alemanha Oriental, contra ele e "a instrumentalização da Justiça" pelo governo socialista.

UMP

E Sarkozy ainda enfrenta outro problema que dificulta uma futura candidatura: seu partido, o UMP, está sendo investigado pela Justiça por ter criado falsas faturas, de cerca de 18 milhões de euros, para esconder gastos de sua campanha presidencial em 2012.

Como na França existe um teto que limita os gastos dos candidatos (21,5 milhões de euros no segundo turno, sendo a metade reembolsada pelo Estado), o partido teria organizado falsas conferências para justificar as despesas excedentes de comícios de Sarkozy.

O escândalo das falsas contas, conhecido como "caso Bygmalion' provocou rachas no partido e afetou sua imagem na França.

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