Canção de 'Maradona maior que Pelé' foi 'ensinada' a argentinos um dia antes da estreia na Copa

Amigos argentinos que compuseram 'Brasil, decime qué si siente' (Arquivo Pessoal) Direito de imagem Personal archive
Image caption 'Nossa intenção foi a diversão, dentro do que é o futebol. Nada de provocação'

A música com o refrão "Maradona é maior que Pelé", que "viralizou" entre os torcedores argentinos nos estádios brasileiros, foi criada por um grupos de oito amigos e "ensinada" à torcida um dia antes da estreia da Argentina na Copa.

"Nós queríamos apoiar a seleção e primeiro pensamos em coisas básicas como vestir camisetas, bonés e levar bandeiras para o Brasil", contou à BBC Brasil Ignacio Harraca, de 30 anos, um dos criadores. "Mas depois pensamos e 'por que não criar uma música?'".

Os "hinos" dos torcedores da seleção argentina até então, segundo Harraca, eram os tradicionais Vamos, Vamos Argentina e O que não salta (pula) é inglês (uma referência a outros rivais dos argentinos, os britânicos, por causa da disputa pelas Ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos), em 1982.

Os oito amigos dos tempos da escola então se reuniram e criaram Brasil, decime qué si siente (Brasil, diga-me como se sente), sobre a melodia e ritmo da canção Bad Moon Rising, do grupo americano Creedence Clearwater Revival - que já era bastante usada pelas torcidas de clubes locais.

O mais conhecido da música acabou sendo o refrão, que faz graça com a eterna discussão sobre quem é melhor, Maradona ou Pelé.

"Nossa intenção foi a diversão, dentro do que é o futebol. Nada de provocação. Como os brasileiros dizem que Pelé é melhor que Maradona achamos que esse seria um bom refrão", contou Harraca.

Posto 4

O caminho para levar a música à boca dos torcedores não foi fácil.

Em Buenos Aires, pouco antes do Mundial, eles tentaram propagar a letra que compuseram, mas não encontraram interessados na criação.

Image caption Torcedores argentinos costumam usar fantasias em partidas. Este, estava com máscara de Maradona em BH

Eles tiveram a ideia de imprimir cerca de 400 panfletos com a letra, colocaram tudo na mala e viajaram para o Rio de Janeiro, onde sua seleção estreou contra a Bósnia no Maracanã, no dia 15 de junho.

"Lemos nas redes sociais que o ponto de encontro dos argentinos seria no sábado (14), um dia antes do jogo, no Posto 4, em Copacabana."

Eles chegaram ao Posto 4, de Copacabana, naquele sábado, achando que haveria poucos torcedores no local. "Chegamos a pensar que estaríamos entre os poucos que leram a informação, que não sei de quem partiu no Twitter, mas quando chegamos lá era uma multidão".

A reprodução deste formato de vídeo não é compatível com seu dispositivo

Eles distribuíram os panfletos e "cada vez que havia um silêncio entre uma música e outra, cantávamos a nossa letra", contou Harraca.

Segundo ele, aos poucos, outros passaram a cantar já com os folhetos na mão.

A moda pegou. Os torcedores argentinos no Brasil cantam a música dentro e fora dos estádios da Copa.

A "canção" virou assunto de reportagens da imprensa argentina e brasileira e estourou de vez com a divulgação de vídeos "virais" de jogadores da seleção argentina cantando a música no vestiário depois das partidas.

Em Buenos Aires e em outras cidades do país, esse é o hino das torcidas em cada jogo da Argentina.

"(Mas) foi uma música para essa Copa e não achamos que irá muito além disso", disse Haraca.

Feita no chuveiro

A letra teve início enquanto um dos integrantes do grupo estava no chuveiro em casa, como contaram à imprensa local. Ex-alunos do colégio Manuel Belgrano, na cidade de Buenos Aires, os criadores do hit são administradores de empresas, advogados e especialistas em finanças.

"Nenhum de nós é músico e estamos surpresos de como essa música pegou", disse Patrício Scordo, um dos oito amigos, à uma rádio argentina.

As torcidas na Argentina são famosas pela sua organização. Elas inventam letras para seus clubes de futebol, levam cartazes com frases irônicas para a arquibancada e, dependendo da situação, até se fantasiam - como a batina similar a do Papa Francisco, o ex-cardeal de Buenos Aires Jorge Bergoglio.

Na capital argentina é comum que no dia seguinte a um jogo entre, por exemplo, Boca Junior e River Plate, surjam cartazes nos muros provocando o perdedor da partida.