Jornalistas da BBC Brasil compartilham seus momentos inesquecíveis na Copa

Cobrir uma Copa do Mundo no seu próprio país é algo que, provavelmente, só acontece uma vez na vida de um jornalista.

Na série de depoimentos a seguir, a equipe da BBC Brasil compartilha experiências vividas nesse momento único na história brasileira: o país transformado, invadido por turistas, clima de festa, tensões e dificuldades.

Situações inusitadas, que trouxeram reflexões – mas não couberam na matéria final.

Trilha Sonora

Rogério Wassermann, no Rio de Janeiro

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Algo que certamente levarei comigo desta Copa do Mundo será a musiquinha que não me sai mais da cabeça, cantada pelas multidões de argentinos com as quais cruzei durante o último mês no Rio de Janeiro.

"Brasil, decime que se siente, tener en casa a tu papa", o grande hit da torcida do país vizinho, que inclui duas provocações aos donos da casa – uma referência à vitória da Argentina por 1 a 0 contra o Brasil nas oitavas de final da Copa de 1990 (mas faz tanto tempo, e eles ainda lembram disso?), e o ultraje maior, a frase "Maradona é maior do que Pelé".

Essa musiquinha, que parece ser uma espécie de hino informal da torcida argentina no Brasil, é apenas um exemplo da paixão e da alegria que torcedores estrangeiros, principalmente sul-americanos, trouxeram ao país nas últimas semanas.

Foi uma agradável surpresa ver motorhomes, vans e carros dos mais diversos tamanhos com placas da Argentina, do Chile e até do Uruguai circulando por Copacabana, após vários dias de estrada desde suas cidades-natais, e tomando conta da Avenida Atlântica nos primeiros dias da competição (depois, foram levados dali para o sambódromo pela prefeitura, mas essa é outra história).

Assim como foi uma experiência única ver um grupo de dezenas de chilenos pulando e cantando sem parar dentro de um posto de gasolina, onde se abrigavam da chuva torrencial que caía no Rio de Janeiro, no dia da vitória do Chile sobre a Espanha, que tirou os atuais campeões da competição. Isso à 1h da manhã, o que fez um britânico que era entrevistado a poucos metros dali por meu colega da BBC inglesa observar, encantado: "Isso é a Copa do Mundo no Brasil!"

Essa "invasão dos hermanos", como muitos a apelidaram, está questionando os mitos de que o Brasil é o país do futebol, e de que ninguém ama mais esse esporte do que os brasileiros.

Aliás, a torcida brasileira nos estádios foi criticada por não vibrar com a mesma alegria, ficando na xôxa ladainha "Eeeeu sou brasileiroooo, com muito orgulhoooo"…

Até vi grupos de brasileiros reagindo, criando novos gritos de guerra. Um, em especial, respondia à provocação argentina: "Sozinho, Pelé tem mais títulos que a Argentina!"

Mas os argentinos continuam ganhando no quesito animação, e isso só mostra que, no futebol, a paixão conta mais que a razão.

Resgate de colega jornalista

Luís Kawaguti, em São Paulo

A onda de protestos de rua contra a Copa do Mundo foi o meu principal foco de atenção durante a cobertura do mundial.

Testemunhei violência tanto de manifestantes quanto de policiais, em várias ocasiões.

Em meio a essa conturbada cobertura jornalística, aprendi algo com dois correspondentes veteranos da BBC, Wyre Davis e Chuck Tayman.

No dia 6 de fevereiro de 2014, recebi na redação da BBC Brasil em São Paulo um vídeo gravado pela câmera de Chuck, que ficara ligada, rodando, no chão de uma praça próximo à Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

O equipamento registrou o momento em que Wyre e Chuck tentavam conter o sangramento "catastrófico" na cabeça do cinegrafista da rede Bandeirantes, Santiago Andrade. Apesar dos esforços da dupla e da equipe médica que o atendeu, Andrade morreu dias depois, em um hospital.

Os dois jornalistas não agiam de forma improvisada. Passaram por um rigoroso treinamento em primeiros socorros, obrigatório a todos os jornalistas da BBC que trabalham nesse tipo de cenário.

Image caption Sangue respingou em máscara de gas da jornalista ferida em protesto

O episódio me fez refletir sobre um dos dilemas do jornalismo - me envolvo ou apenas reporto?

A teoria virou realidade para mim na abertura da Copa, em 12 de junho. Tropas de choque da polícia de São Paulo disparavam uma quantidade anormal de balas de borracha e granadas de gás lacrimogênio contra um grupo pequeno de manifestantes. Segundo relatos, eles teriam tentado bloquear uma importante via de acesso à Arena Corinthians.

Em meio à confusão e barulho, um pequeno grupo pedia socorro. Após afastar os curiosos com empurrões, vi uma mulher deitada no chão, muito nervosa, com ferimentos profundos no antebraço (mais tarde, soube que ela havia sido atingida por pelo menos 17 fragmentos, possivelmente estilhaços do dispositivo precursor de uma granada de gás da polícia).

Enquanto desentrelaçava sua máscara de gás do braço ferido e pegava bandagens no meu kit de primeiros socorros (que passei há algums meses a carregar a tiracolo) soube que se tratava de uma colega jornalista, da rede CNN.

Foi preciso afastar supostos socorristas vindos de grupos ligados aos manifestantes. Eles propunham procedimentos inúteis naquela hora, quando a prioridade era achar todos os ferimentos e parar o sangramento. Em poucos minutos Wyre nos achou e imobilizou o braço da jornalista com outra atadura.

A vida da colega – Barbara Arvanitidis - não estava em jogo, pois não se tratava de um sangramento "catastrófico". Mas ela me diria, dias depois, que aquele tinha sido um dos momentos mais apavorantes de sua vida.

Foi bom estarmos lá para ajudar.

Havia dezenas de jornalistas em todas essas manifestações e pouquíssimos pararam para ajudar os feridos. No meio do corre-corre, quando policiais e manifestantes ainda trocam tiros de borracha e garrafadas, não há paramédicos nem bombeiros. Eles só chegam muito mais tarde.

Talvez, tão importante quanto a ajuda em si, seja o ato de oferecer apoio. Espero que mais colegas cheguem a essa conclusão.

Mal-entendido na Rua Augusta

Ricardo Senra, em São Paulo

Rua Augusta, centro de São Paulo, dois rapazes europeus vestindo camisas do Brasil, duas garotas de programa de salto alto, minissaia e maquiagem carregada.

- For you is more barato, R$ 300! (Para você é mais barato, R$ 300!) - diz uma das mulheres.

- Sorry? I can't get you, baby. Come here, what do you mean? (Me desculpe, não consigo te entender, querida. Vem cá, o que você quer dizer?) - respondem os rapazes.

- "Baratow". "Pechincha"!

- What are they saying? (O que eles estão dizendo?) - diz um dos europeus.

- Oh man, they are prostitutes! Sorry, girls! (Oh, cara, elas são prostitutas! Desculpe, meninas!) - completa o outro.

Flagrei esta cena no primeiro dia da Copa do Mundo, depois da vitória do Brasil sobre a Croácia por 3 a 1.

A rua mais boêmia de São Paulo estava cheia de estrangeiros, que lotaram bares e investiram pesado na "Copa da paquera" antes, durante e depois dos jogos.

O problema é que boa parte deles demorou a entender que a área é frequentada por garotas de programa. Elas bem que tentaram... mas não conseguiram fisgar a dupla de gringos.

Duas Copas

Mariana Della Barba, em São Paulo

Direito de imagem BBC BRASIL

A Copa para mim começou duas vezes.

Primeiro, quando eu fui à Fan Fest aqui em São Paulo, durante a abertura do Mundial. Ver o Anhangabaú completamente lotado - e cheio de esperança - cantando o hino nacional foi de emocionar até os mais durões. Eu, que tenho o coração mole, chorei até.

O outro ponto alto da Copa para mim foi levar meu filho, de 5 anos, para ver um jogo. Talvez, quando ele for contar desse dia para os amigos dele, ele não se lembre do placar da partida - um morno Bélgica 1 x 0 Coreia do Sul.

Mas ele certamente vai lembrar do Itaquerão vibrando com o gol, da torcida embalando o jogo, dos gringos animados e das olas gigantes. E, por sorte, ele não vai lembrar de como a mãe dele tentou mas não conseguiu explicar quem decidiu que era hora de se erguer e animar o estádio.

A tristeza do zagueiro - e da repórter

Renata Mendonça, em São Paulo

Direito de imagem Reuters
Image caption O choro do zagueiro David Luiz com o fim do sonho do hexa brasileiro

No fatídico 8 de julho, eu estava na favela da Paz, a 300 metros da Arena Corinthians (o estádio da Copa em São Paulo), um lugar onde o esgoto corre a céu aberto e onde vivem 400 famílias, que se alegraram com suas grandes conquistas nessa Copa: a água encanada e a energia, que está por vir.

Durante o jogo, notei a empolgação dos moradores com o hino e depois, nos primeiros minutos, acreditando na vitória do Brasil.

Veio a enxurrada de gols - 1, 2, 3 a 0 - e eles ainda acreditavam na virada. Mas, a partir do quarto gol alemão, a esperança teve de ceder lugar à realidade. A goleada virou piada.

Trabalhando há quatro anos no jornalismo esportivo, confesso que já criei um certo distanciamento entre a paixão pelo futebol e a racionalidade que precisa existir por trás dele.

Mas há momentos em que razão e emoção se confundem de tal forma, que nem toda a experiência e preparo do mundo são capazes de proteger você das lágrimas.

Como quando o zagueiro David Luiz, um dos símbolos da seleção nessa Copa, apareceu na TV chorando e disse: "Eu só queria dar uma alegria pro meu povo, que já sofre tanto".

Olhei ao meu redor e senti as palavras do David.

Os moradores levaram a derrota com bom humor, a festa programada para rolar madrugada adentro foi em frente - apenas terminou mais cedo.

A manhã viria da mesma forma, com os mesmos problemas. Mas como teria sido bem-vinda, a alegria momentânea que o futebol roubou daquela gente.

São Paulo cosmopolita

Paula Adamo Idoeta, em São Paulo

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Image caption Estrangeiros na praça Charles Miller, para visitar o Museu do Futebol, em São Paulo

Passageiros falando árabe no metrô Faria Lima, japoneses batendo perna pela Avenida Paulista, argentinos em trailers na Vila Madalena, indianos passeando pelo Itaim Bibi e grupos de equatorianos chegando aos montes, de ônibus, à Praça Charles Miller para visitar o Museu do Futebol. Para mim, o mais interessante desta Copa do Mundo foi ver São Paulo concretizar sua vocação (já exercitada, ainda que não neste grau) de cidade cosmopolita, multicultural e internacional.

Nunca havia ouvido tantas línguas e visto tantas etnias passeando pela cidade ao mesmo tempo - espero que eles voltem sempre!

Peladas nos gramadões de Brasília

João Fellet, em Brasília

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Image caption Garotos jogam pelada em campinho improvisado em Brasília

Moro em Brasília há três anos e adoro a cidade, embora nunca tenha me habituado a seus imensos espaços vazios. Pois na Copa algo surpreendente ocorreu. O gramadão em frente ao meu prédio - que normalmente abriga apenas invocados quero-queros e curicacas - passou a sediar as mais animadas peladas entre a criançada da vizinhança. Desde que a Copa começou, todo os dias eles descem para tentar repetir os gols e dribles que viram na TV.

Até arranjaram umas traves para o negócio ficar mais organizado. Espero que a algazarra continue depois do Mundial - Lúcio Costa certamente aprovaria a mudança.

Vai ter ou não vai ter?

Camilla Costa, em São Paulo

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Crianças brincam na Copa do Povo na abertura da Copa do Mundo

No dia da abertura do Mundial fui à ocupação Copa do Povo, próximo à Arena Corinthians, e acompanhei debates dos coordenadores da ocupação - alguns acalorados - sobre se seria permitido ou não assistir ao primeiro jogo do Brasil na única TV disponível no local.

Em uma Copa tão marcada por cobranças e reclamações, o mais interessante foi perceber que para alguns dos mais envolvidos em protestos, os sem-teto da ocupação, a dicotomia entre torcer pela seleção e reivindicar seus direitos estava perfeitamente resolvida. Um não excluía o outro, ambos simplesmente coexistiam.

A maioria das famílias saiu do acampamento para assistir ao jogo em outros lugares e, na Copa do Povo, não teve Copa.

O desafio dos mariachis

Eric Camara, no Rio de Janeiro

O metrô estava lotado na volta do Maracanã. Chile e Espanha tinham feito uma grande partida. No meu vagão, havia grupos de espanhóis cabisbaixos e vários chilenos comemorando a classificação para as oitavas de final.

De repente, na estação da Cidade Nova, já longe do Maraca (sabe-se lá o que faziam por lá), cinco mexicanos entraram pulando e cantando a plenos pulmões. De sombreros, fantasias de mariachi e enormes e brancos sorrisos.

Desfilaram provocações: "O Chile vai provar o Chili nacional", "É preciso estudar/ é preciso estudar/ Quem não estudar/ Chileno vai virar", "Oye chileno/ Vamos te encontrar/ Nas oitavas vamos te tourear". Dedicaram algumas poucas também aos arrasados espanhois que nem tiveram forças para revidar.

Já a maioria chilena - surpreendida pela blitzkrieg musical - tentava se organizar, mas bastava baixarem o volume para os mexicanos cochicharem uns nos ouvidos dos outros e lançarem outra trova. Tudo no maior bom humor.

Foram pouco mais de cinco minutos até os mexicanos saltarem do trem. Algum brasileiro, ainda soltou um urro solitário: "Neeeense!".

O México, segundo do grupo, não pode tourear o Chile nas oitavas e acabou eliminado pela Holanda com um gol no finalzinho do jogo. Nós brasileiros, que assistimos a tudo quietos, acabamos batendo o Chile nas oitavas.

Mas nunca vou me esquecer do dia em que cinco mariachis nocautearam as rojas e encantaram um vagão de metrô com suas canções.

A esperança de um reencontro

Julio Gomes, editor da BBC Brasil

Os relatos acima dos meus colegas, com quem tenho, aliás, um orgulho imenso de trabalhar, formam o grande mosaico do que foi a nossa Copa do Mundo. Somos um país em que a maioria da população vive em regime de isolamento do resto do mundo. Um percentual enorme da população vive no litoral ou perto dele, com um oceano inteiro nos separando da Europa e da África, milhares de quilômetros às costas que nos distanciam da América Latina.

As invasões sul-americanas fizeram o Brasil "descobrir a América". Vejo tudo na vida com um viés de otimismo e olhar para o futuro. Que esta Copa faça muitos brasileiros pensarem em aprender idiomas (como assim não falamos castelhano, se estamos rodeados de países deste idioma?), a viajarem para países vizinhos, a tentarem compreender melhor o continente em que vivemos. Um continente que adoraria nos ter como líderes e mentores.

Os argentinos, com a musiquinha que realmente não desgruda, como relatado pelo grande Rogério Wassermann, foram um show à parte. Quem vai negar que eles jogaram a Copa inteira como "locales"? Houve problemas aqui e ali. Mas tenho certeza que muito mais pessoas foram surpreendidas e conquistadas por eles do que irão perpetuar uma rivalidade que inexplicavelmente alguns tentam extrapolar do mundo futebolístico.

E por falar em futebol... Que grande Copa foi esta! A atmosfera nos estádios foi inacreditável, nada comparado com as três Copas anteriores que cobri (2002, 2006 e 2010). O envolvimento do público, a torcida por este e aquele, a convivência de pessoas com camisas diferentes lado a lado. Grandes jogos, nervos à flor da pele em todas as fases, mesmo em partidas entre grandes da história contra os "ex-bobos". Quem diria que a Argélia, ao enfrentar a Alemanha, daria tanto trabalho para a melhor seleção do mundo e que acabaria sendo campeã?

Os brasileiros nos desencontramos do futebol nos últimos tempos. Porque o que é jogado aqui, quarta e domingo, quarta e domingo, é outra coisa. Absolutamente desconectada do futebol jogado há mais de 15 anos nas grandes ligas europeias. O brasileiro está desaprendendo a gostar e amar o futebol, porque o que ele vê na TV está longe de ser o esporte apaixonante que vimos nos últimos mês. O Brasil arrebatou corações pelo mundo ao longo de décadas.

Hoje, a máscara caiu. Nossa seleção já é mundana há tempos, mas só agora o planeta se deu conta. A esperança que tenho é que a Copa do Mundo faça as pessoas se darem conta que o futebol, o verdadeiro futebol, é este que vimos em 64 jogos, 31 dias de inverno quente e agradável. Que o futebol é mais do que ganhar, ele é e tem que ser uma expressão de nossa cultura. Eu vi muitos brasileiros se reencontrando com o esporte nos estádios do país. Eles estavam com saudades. Todos estávamos com saudades de ir para o campo em nome da diversão, não do sofrimento.

Os próximos anos nos mostrarão se as duas coisas serão apenas um "acidente" ou virarão legado. Que o Brasil se reencontre com a América que pulsa. Que o Brasil se reencontre com o futebol. Que a Copa das Copas dure para sempre.