Após ciclo sem patrocínio, handebol ganha título mundial e aposta em gestão

equipe feminina de handebol | Cinara Piccolo/Photo&Grafia Direito de imagem Cinara Piccolo PhotoGrafia
Image caption Mesmo sem patrocínio durante cinco anos, o handebol continuou crescendo. O segredo: planejamento

Sem patrocínio por quase cinco anos, a seleção brasileira de handebol feminino conquistou seu primeiro título mundial e a masculina chegou a sua melhor colocação em mundiais. Agora, com a atenção da mídia e do governo, a Confederação Brasileira de Handebol (CBHg) aposta em um plano de longo prazo para colocar o esporte entre os principais no país.

O crescimento da modalidade nos últimos anos é considerado por especialistas um exemplo de boa gestão no esporte brasileiro, mas o presidente da CBHg, Manoel Luiz de Oliveira, afirma que a confederação "fez muito com pouco".

"Ficamos entre 2008 e o início de 2013 sem patrocínio e o nosso esporte não parou, continuou crescendo. Como conquistamos um campeonato mundial em dezembro de 2013? Planejamento. Independentemente do dinheiro vir, temos pessoas abnegadas que continuaram trabalhando", disse à BBC Brasil.

O título inédito trouxe mais dinheiro ao handebol, mas também a obrigação de continuar ganhando. "O mercado exige títulos, porque eles trazem exposição e patrocinadores. Por isso estamos tentando consolidar uma base de sustentação do esporte. A gente sabe que não conquistar a medalha no Rio não será bom para nós."

O condicionamento de investimentos e incentivos a atletas que já ganharam medalhas divide os especialistas da área entre os que criticam o que chamam de "mercantilização do esporte" e os que dizem ser normal o investimento em quem já provou que pode obter bons resultados.

"Se a equipe não tem resultados, ela não dá retorno de marketing e as empresas desistem de apoiá-las, deixando atletas e profissionais técnicos desempregados. O esporte não pode viver daquele dinheiro que vem só porque você ganhou, porque o esporte de alto rendimento mais perde do que ganha", diz Marco Antonio Bortoleto, professor e pesquisador de Educação Física da Unicamp.

Regularidade

Ao contrário de outras modalidades olímpicas no Brasil, o handebol se beneficiou da popularidade nas escolas para construir suas equipes, segundo Oliveira.

"O handebol é a modalidade mais praticada nas escolas no Brasil. Mas, quando chega na etapa dos clubes, a prática afunila bastante e este é o nó. Termina o ensino médio e naquele momento de ir para a universidade e trabalhar muita gente abandona o barco", afirma.

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Image caption Campeonato em 2013 trouxe mais dinheiro e cobranças para vencer

No início dos anos 2000, a CBHb deu um passo que só agora vem sendo discutido no futebol brasileiro: a contratação de técnicos estrangeiros para conduzir as seleções. Na seleção feminina, o espanhol Juan Oliver Coronado abriu caminho para o dinamarquês Morten Soubak, que assumiu o comando da equipe em 2009.

"O Brasil tem muitos clubes ligados a escolas e universidades, que formam times de handebol. É um bom começo, mas é preciso investir. Não temos muitas equipes de alto rendimento", disse Soubak à BBC Brasil. "Sinto que falta continuidade da formação de atletas. Não conheço os motivos para fecharem uma equipe de handebol de uma hora para outra, mas isso acontece muito aqui."

Para manter a regularidade e a qualidade dos times, a confederação criou uma Liga Nacional de handebol, que precisa ter 12 equipes masculinas e 12 femininas anualmente. "Esse número nos dá mais garantia de mais gente participando. Temos escolas que jogam nos campeonatos nacionais", diz Manoel Luiz de Oliveira, presidente da confederação.

Ele diz que a qualidade da Liga "às vezes é bem sofrível", mas pode fazer com que o país tenha mais equipes mais sólidas. Atualmente, a maioria das jogadoras da seleção feminina campeã mundial atua fora do Brasil.

Cartolas

Manoel Luiz de Oliveira é um dos oito dirigentes de Confederações de esportes olímpicos no Brasil que está no comando há mais de dez anos. A falta de renovação dos quadros administrativos também é apontada por especialistas como um problema, tanto nas modalidades olímpicas quanto no futebol.

Acusações de má gestão e corrupção atingiram até mesmo o vôlei, considerado um dos esportes de gestão mais eficiente no país.

"Estou há tanto tempo na presidência que me incomoda, há mais de 20 anos. Já tinha comunicado na assembleia que não estaria mais, mas me pediram para ficar porque acharam que poderia ser perigoso uma mudança antes dos Jogos Olímpicos no Rio. Mas depois dos Jogos eu já estarei fora", afirmou.

Em setembro de 2013, a presidente Dilma Rousseff sancionou a MP 620, que limita os mandatos dos dirigentes das entidades esportivas a quatro anos, com apenas uma possibilidade de reeleição. Mas, na maioria das confederações vinculadas ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o cenário ainda não mudou.

"Nós não temos um projeto brasileiro para a profissionalização do esporte em todos os níveis. Temos um projeto de investimento maior de dinheiro, mas nós já investimos muito, erradamente, a partir de decisões tomadas por pessoas que têm interesses econômicos privados nesses investimentos ou simplesmente são incompetentes", diz Marco Antonio Bortoleto.

"Os nossos modelos esportivos hoje são insatisfatórios sobretudo por mal investimento, gestão não profissional. É o que se discute no futebol hoje também. Os gestores são cartolas, políticos, não profissionais da gestão. E isso acontece em todas as modalidades. Às vezes eles até são ex-atletas, mas quem garante que um ex-atleta será um bom gestor?"

Segundo o diretor do Comitê Olímpico Brasileiro, o ex-atleta Marcos Vinícius Freire, o COB está "participando dessa mudança com uma estrutura completamente profissional".

"Cada uma das confederações é completamente independente, você não consegue mudar os estatutos ou interferir nelas. Mas nós conseguimos formar os executivos, a equipe. Estamos dando um exemplo no COB e algumas delas já estão seguindo este exemplo e investindo na qualificação dos seus gestores", disse à BBC Brasil.

Em 2009, o Comitê criou o Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), que realiza cursos de formação para técnicos, administradores, gestores esportivos e ex-atletas em transição de carreira. Os alunos, de acordo com Freire, são bolsistas de confederações, de clubes, do governo federal, de governos estaduais e de prefeituras.

Ainda que as confederações nacionais estejam no caminho da profissionalização, o problema persiste nos órgãos esportivos estaduais, segundo Expedito Falcão, técnico da judoca piauiense Sarah Menezes, medalhista em Londres 2012.

"Em nível estadual, o esporte é totalmente amador. Há federações em que os profissionais da gestão mal recebem. O topo da pirâmide está bom, mas a base está muito fraca", disse à BBC Brasil.

Na Política Nacional do Esporte, criada em 2005 durante o governo Lula, uma das ações estratégicas listadas se referia à "modernização e o fortalecimento das entidades de administração e de prática do esporte com vistas à democratização das entidades e à profissionalização da gestão".

Procurado pela reportagem, o Ministério do Esporte não respondeu às perguntas sobre as iniciativas concretas que estariam sendo tomadas nesta direção.

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