#SalaSocial: Com 'Decime qué se siente', avós provocam militares argentinos

Foto: AFP Direito de imagem AFP
Image caption Estela, no centro, comemora encontro do neto, sumido há 36 anos, junto a outras 'avós da praça de maio'; minutos depois, na nova versão do hino da Copa foi entoada pelos presentes

"Milico, decime qué se siente / Que hayamos encontrado un nieto más / Te juro que aunque pasen los años, siempre los vamos a buscar / Porque ahora somos más, las viejas van a brindar y los pibes con nosotros van a estar" (Milico, me diz como se sente / Por termos encontrado um neto mais / Te juro, ainda que passem anos / Sempre nós vamos procurar / Porque agora somos mais / As 'velhas' irão brindar / E as crianças aqui conosco vão estar).

O ritmo é o mesmo que ecoou pelo Brasil durante a Copa do Mundo - mas em vez de insistir que Maradona é melhor do que Pelé, os "hermanos" agora comemoram o encontro de mais uma criança desaparecida na ditadura argentina (1976-1983).

Registrada por um canal de TV a cabo local, o vídeo da cantoria virou figurinha fácil nas redes sociais.

A nova versão de "Decime qué se siente" surgiu na sede da entidade "Abuelas de Plaza de Mayo" (Avós da Praça de Maio), na última quinta-feira, durante a coletiva de imprensa em que a presidente do grupo, Estela de Carlotto, anunciou ter localizado seu neto desaparecido há 36 anos.

O encontro coroa a atuação de Estela como defensora dos direitos humanos. À frente da entidade, a senhora de 83 anos já ajudou 113 pessoas que haviam sido sequestradas e entregues a outras famílias a reencontrarem seus familiares.

'Velha, não!'

De camisa vermelha, colete cinza e grandes óculos de hastes pretas, cercada por quatro outras senhoras de cabelos tão brancos quanto os seus, Estela se surpreendeu quando os presentes puxaram a "versão política" do principal grito de guerra argentino na Copa.

A paródia foi entoada, principalmente, por outros jovens que foram reapresentados às suas famílias graças à entidade.

Com a letra na mão, Estela pegou o microfone e se arriscou nos novos versos. No trecho que diz carinhosamente que as "velhas irão brindar", a avó sorriu, envergonhada.

Depois da música, cantada com a mesma entonação dos estádios pelos presentes no encontro, Estela pediu a palavra para um adendo.

"Está tudo muito bem, agradeço a iniciativa de transformarem esta melodia. Mas não gosto muito da parte das 'velhas'", disse, para gargalhada geral. E logo emendou: "Bom, somos velhas, né? Velhas de amor".

Um banco de dados genéticos criado pelas Avós da Praça de Maio tem sido o principal caminho para que os bebês separados dos pais biológicos, todos hoje com mais de 30 anos, sejam localizados. Segundo a entidade, entretanto, ainda faltam "mais de 400" desaparecidos.

No encontro, a veteraníssima Rosa Roisinblit, vice-presidente do grupo "Abuelas de Plaza de Mayo" aos 95 anos, disse que cada vez que um novo neto é encontrado, um brinde com champanhe é realizado entre as avós.

"Quando fazemos brindes, sempre digo: 'Que o próximo seja o de Estela'. O que vou fazer agora?", perguntou, rindo.

Aplaudidíssima, Estela de Carlotto agradeceu a presença de todos. "Obrigada por tudo. Até o próximo neto!".