Conheça os yazidis, minoria cercada em montanha por rebeldes no Iraque

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Image caption Muitos yazidis estão cercados pelo grupo Estado Islâmico sem comida ou água

Entre as muitas vítimas do avanço do do grupo jihadista Estado Islâmico (IS, na sigla em inglês) no Oriente Médio está um grupo de 50 mil pessoas, membros da minoria yazidi.

No momento, eles estão presos nas montanhas no noroeste do Iraque, sem comida nem água.

O grupo sunita que se autodenomina Estado Islâmico tem avançado em várias cidades iraquianas, incluindo Mosul, e já controla grandes áreas do Iraque e Síria.

Agora, o grupo avança em direção à capital, Bagdá, ao sul. Para tentar conter este avanço, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, autorizou ataques aéreos contra os militantes islâmicos no norte do Iraque.

Funcionários do governo americano também informaram que os aviões do país lançaram suprimentos para ajudar o grupo de refugiados yazidis, que abandonou as aldeias no norte do país devido a ameaças dos militantes.

Mas, segundo a ONU, é preciso fazer mais para ajudar a minoria. Marzio Babille, representante do Unicef no Iraque, afirmou que os yazidis estão em uma situação extremamente precária devido aos militantes do Estado Islâmico, que são "muito agressivos e brutais".

Babille disse também que há muitas "dificuldades logísticas e estratégicas" e acrescentou que é necessário estabelecer um corredor para a entrega de ajuda humanitária para este grupo.

Muitos yazidis deixaram suas casas para se refugiar nas montanhas de Sinjar.

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Diana Darke, autora dos livros Eastern Turkey ("Leste da Turquia", em tradução livre) e My House in Damascus, An Inside View of the Syrian Revolution ("Minha Casa em Damasco, Uma Visão Interna da Revolução Síria", em tradução livre) visita áreas divididas entre curdos e yazidis no sudeste da Turquia desde a década de 1980.

A autora explica à BBC quem são estes religiosos:

"Eles ganharam a atenção internacional nas últimas semanas, algo que a comunidade não queria. Devido à sua crença diferente, os yazidis são rotulados, injustamente, de 'adoradores dos diabo' e tradicionalmente se mantêm distantes, fechados em pequenas comunidades espalhadas no noroeste do Iraque, noroeste da Síria e sudeste da Turquia.

Calcular o número de membros desta minoria é difícil, os números variam entre 70 mil a 500 mil. Temidos, difamados e perseguidos, não há dúvidas de que a população diminuiu consideravelmente no último século. Como outras minorias religiosas da região, como os druzos e alauítas, não é possível se converter ao yazidismo, apenas nascer já no grupo.

A atual perseguição a esta minoria em sua região mais central, na região do Monte Sinjar, a oeste da cidade de Mosul, está baseada em um mal entendido com o nome deles.

Extremistas sunitas, como o EI, acreditam que o nome da minoria vem de Yazid ibn Muawiya (647-683), o segundo califa da dinastia Umayyad, que era profundamente impopular.

Pesquisas modernas esclareceram que este nome não tem nada a ver com os yazidis ou com a cidade persa de Yazd, mas tem origem em uma palavra do persa moderno "ized", que significa anjo ou divindade. O nome Izidis significa apenas "adoradores de deus", que é como os yazidis se descrevem.

Bíblia e Alcorão

O grupo se refere a si como Daasin (plural: Dawaaseen), que é uma palavra tirada de uma antiga diocese nestoriana - a Igreja Antiga do Leste - pois muitas de suas crenças são derivadas do cristianismo.

Eles reverenciam a Bíblia e o Alcorão, mas grande parte de sua tradição é oral. Em parte devido ao segredo que cerca este grupo, ocorreram algumas confusões, entre elas de que a complexa fé yazidi é ligada ao zoroastrismo, com uma dualidade entre a luz e as sombras e até uma adoração ao sol. Mas, estudos recentes mostraram que, apesar de seus templos serem frequentemente decorados com o sol e seus túmulos apontarem para o leste, o local do nascimento do sol, eles compartilham muitos elementos com o cristianismo e islamismo.

As crianças são batizadas com água consagrada por um pir (padre). Em cerimônias de casamento, ele parte o pão e entrega uma metade para a noiva e a outra para o noivo.

A noiva, vestida de vermelho visita igrejas cristãs.

Em dezembro, os yazidis jejuam por três dias, antes de beber vinho com o pir.

Entre 15 e 20 de setembro, há uma peregrinação anual até a tumba do Sheikh Adi at Lalesh, ao norte de Mosul, onde eles fazem ritos no rio local. Eles também praticam o sacrifício de animais e circuncisão.

O ser supremo dos yazidis é conhecido como Yasdan, considerado de um nível tão elevado que não pode nem ser adorado diretamente. Ele é considerado uma força passiva, o Criador do mundo, não aquele que preserva.

Sete grandes espíritos emanam dele e, destes, o mais importante é o Anjo Pavão, conhecido como Malak Taus, um executor ativo da vontade divina. O pavão, no início do cristianismo, era um símbolo de imortalidade, pois sua carne parece não decompor. Malak Taus é considerado o alter ego de Deus, inseparável e, devido a isto, o yazidismo é considerado uma religião monoteísta.

Os yazidis rezam para Malak Taus cinco vezes por dia. O outro nome de Malak Taus é Shaytan, que é a palavra árabe para diabo, e isto levou ao mal entendido dos yazidis serem rotulados como "adoradores do diabo".

Purificação

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Image caption Os yazidis organizaram um protesto em frente aos escritórios da ONU na cidade iraquiana de Erbil

Os yazidis também acreditam que as almas passam sucessivamente por vários corpos (transmigração) e que a purificação gradual é possível devido ao renascimento contínuo, o que faz com que o inferno seja desnecessário.

O pior destino possível para um yazidi é ser expulso de sua comunidade, pois isso significa que sua alma jamais poderá progredir. Conversão para outra religião também está fora de questão.

Em áreas remotas do sudeste da Turquia, indo em direção das fronteiras com a Síria e o Iraque, os vilarejos abandonados estão começando a voltar à vida, com novas casas sendo construídas pelas próprias comunidades yazidis.

Muitos deles estão voltando o exílio agora que o governo turco não os perturba mais.

Apesar de séculos de perseguição, os yazidis jamais abandonaram sua fé, o que é sinal de um extraordinário senso de identidade e força de caráter.

Se eles forem expulsos do Iraque e da Síria pelos extremistas do Estado Islâmico, existe a possibilidade de mais yazidis se estabelecerem no sudeste da Turquia, onde eles podem viver em paz."

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