Com proposta bilionária, rei da laranja brasileiro quer virar rei das bananas

AFP Direito de imagem AFP
Image caption Cutrale fez oferta pela produtora de bananas Chiquita

O brasileiro considerado o "rei da laranja" no mundo quer virar também o "rei da banana".

Neto de um feirante que vendia laranjas, José Luís Cutrale herdou o reinado de seu pai e comanda hoje uma das maiores exportadoras mundiais de suco de laranja, a Cutrale.

Ao contrário de muitos empresários, ele foge dos holofotes. Reservado, evita fotos e entrevistas e sua empresa, de capital fechado, não divulga resultados.

Nesta segunda-feira, a Sucocítrico Cutrale e o grupo Safra, também brasileiro, fizeram uma proposta de US$ 611 milhões (aproximadamente R$ 1,4 bilhão) em dinheiro para adquirir a americana Chiquita, líder global em produção de bananas. O valor total da oferta, incluindo a dívida da empresa, é de US$ 1,25 bilhão.

O negócio, apelidado de "guerra das bananas" - pois abre uma disputa com outra empresa que já estava em processo de fusão com a Chiquita -, foi destaque em publicações estrangeiras como o Financial Times e o Wall Street Journal.

A Cutrale é responsável pela venda de um em cada três copos de suco de laranja no mundo. Mas, nos últimos anos, o consumo do suco declinou, o que explica a tentativa da empresa de diversificar seus negócios, primeiro com a soja e, agora, com a banana.

Reservado

Figura reservada, Luís Cutrale não costuma dar entrevistas ou tirar fotos. A empresa, com sede em Araraquara, no interior de São Paulo, segue a mesma linha: é conhecida por ser pouco transparente e avessa a entrevistas.

A Cutrale não informou dados sobre o faturamento ou sobre a história da empresa para esta reportagem. Também não quis enviar fotos. Nem mesmo o perfil de José Luís na revista Forbes, que lista milionários de todo o mundo, traz foto do empresário. De dados pessoais, apenas a formação em Administração e a idade, 68 anos.

A gigante da laranja tem uma gestão familiar e, exatamente por ser muito fechada, é cercada de mitos. Diversos jornais já disseram que, em Araraquara, a Cutrale construiu um condomínio cercado por um muro em formato de coração e com seguranças armados para os maiores executivos da empresa -informação que a Cutrale não comentou.

Direito de imagem ThinkStock
Image caption Cutrale é uma das líderes mundiais em produção de laranja

Uma pessoa próxima ao grupo disse que, apesar desta imagem de união extrema condizente com uma empresa familiar, os empresários passam a maior parte do tempo viajando a negócios. A Cutrale é gerida por José Luís e por seus dois filhos, descritos como pessoas simples e que valorizam sua privacidade.

"São pessoas normais, que querem andar na rua tranquilos. São muito workaholics e, apesar de ser uma empresa familiar, o nível de governança é muito sofisticado. Eles têm controle de tudo", disse a fonte à BBC Brasil.

O império do suco de laranja começou a ser erguido pelo avô de José Luís Cutrale, um imigrante italiano que tinha uma banca de laranjas no Mercado Municipal de São Paulo.

O pai de José Luís, José Cutrale Júnior, é exemplo típico de empresário que, apesar da falta de estudos, conseguiu conquistar o mundo. Largou a escola e começou a trabalhar com o pai ainda adolescente. Nos anos 50, comprou a primeira fazenda do grupo e, em 1967, fundou a Cutrale.

No livro Citrus, o professor e químico Pierre Laszlo afirma que Cutrale Júnior tirou vantagem de uma geada que destruiu laranjais na Flórida para crescer mundialmente. Ele se associou à Coca-Cola para a produção do suco Minute Maid e, quando os EUA adotaram medidas antidumping contra a Cutrale, transferiu parte da produção para lá.

Cutrale Júnior morreu em 2004, deixando a empresa, já uma gigante, nas mãos do filho, José Luís.

Expansão

A expansão da empresa no Brasil e no exterior não ocorreu sem controvérsias. Nos Estados Unidos, a Cutrale foi alvo de queixas trabalhistas sobre salários e demissões. No Brasil, já sofreu condenações por supostos atos de discriminação e foi flagrada em condições irregulares de trabalho. À época, a empresa negou as suspeitas.

No Brasil, a empresa manteve boas relações com diferentes governo. O nome da Cutrale costuma figurar entre os de doadores de verbas para campanhas eleitorais - em 2010, a empresa doou para os comitês de Dilma Rousseff, do PT, e de José Serra, do PSDB.

José Luís foi nomeado para integrar o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), órgão consultivo que reunia governo e sociedade civil, no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 2009, a Cutrale virou notícia quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) destruiu plantações de laranja de uma de suas fazendas. O então presidente Lula chamou a ação de "vandalismo".

Notícias relacionadas