Candidato à presidência, Campos se apresentava como 'nova via' da política

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Image caption Eduardo Campos era presidente do PSB desde 2005, partido pelo qual disputaria as próximas eleições

O candidato à presidência pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), Eduardo Campos, de 49 anos, morreu na queda de um jato na cidade de Santos, no litoral paulista, na manhã desta quarta-feira.

Campos estava em terceiro lugar na corrida eleitoral, com cerca de 10% dos votos, segundo as pesquisas mais recentes, atrás da presidente Dilma Rouseff (PT) e do senador Aécio Neves (PSDB).

Sua última aparição pública ocorreu na noite de terça-feira, durante uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional, da Rede Globo. Na ocasião, após ser questionado sobre sua vontade de ser presidente, ele disse: "Não se trata de ambição. Trata-se de um direito. Numa democracia, qualquer partido pode lançar um candidato".

Segundo Antonio Campos, irmão de Eduardo, o político será enterrado no túmulo de seu avô, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes (1916-2005), no Cemitério de Santo Amaro, em Recife, em data ainda não confirmada.

Acidente

De acordo com a Aeronáutica, o jato em que estava Campos saiu do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, com destino ao aeroporto do Guarujá, em São Paulo. Quando se preparava para o pouso, por volta das 10h, o avião arremeteu devido ao mau tempo.

Em seguida, o controle de tráfego aéreo perdeu contato com a aeronave. A Aeronáutica já deu início às investigações para apurar o que pode ter contribuído para o acidente, no qual morreram outras seis pessoas - o fotógrafo da campanha, um operador de câmera, dois assessores e os dois pilotos.

Campos era casado com a economista e auditora concursada do Tribunal de Contas do Estado Renata de Andrade Lima Campos, de 47 anos. Eles começaram a namorar ainda na adolescência.

Renata estava com a família em Recife no momento do acidente. Campos deixa cinco filhos.

Trajetória política

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Image caption Campos disputaria presidência com Dilma e Aécio

Nascido em 10 de agosto de 1965 em Recife, capital de Pernambuco, Eduardo Henrique Accioly Campos era filho do poeta Maximiano Campos (1941-1998) e de Ana Arraes, atual ministra do Tribunal de Contas da União.

Campos era o principal herdeiro político de seu avô. Economista formado pela Universidade Federal de Pernambuco, onde ingressou aos 16 anos, foi eleito presidente do Diretório Acadêmico de sua faculdade em 1985.

Começou oficialmente na política em 1986, ao trabalhar na campanha de Arraes em sua segunda candidatura ao governo de Pernambuco. Para isso, desistiu de cursar um mestrado nos Estados Unidos.

Em 1990, filiou-se ao PSB, pelo qual foi eleito deputado estadual no mesmo ano.

Aos 25 anos, sofreu sua única derrota eleitoral. Disputou as eleições para a Prefeitura de Recife, vencidas pelo então atual prefeito da cidade, Jarbas Vasconcelos. Campos ficou em quinto lugar.

"Era uma criança, um menino", disse em entrevista à revista Época no ano passado.

Em 1994, foi eleito deputado federal com 133 mil votos. Licenciou-se do cargo para integrar o terceiro governo de Arraes em Pernambuco, primeiro como secretário de Governo e, depois, como secretário de Fazenda. Em 1998, foi reeleito deputado federal com 173,6 mil votos.

Ocupou o cargo de ministro de Ciência e Tecnologia entre 2004 e 2006, durante o primeiro mandato da presidência de Luis Inácio Lula da Silva. Era o mais jovem entre os ministros nomeados na época.

Presidência

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Image caption Campos e Marina formaram uma aliança controversa para as próximas eleições

Campos assumiu a presidência do PSB em 2005 e, no ano seguinte, licenciou-se deste cargo para concorrer às eleições para governador de Pernambuco.

Campos foi eleito com 60% dos votos no segundo turno. Em 2010, foi reeleito com 83% dos votos no primeiro turno, o maior índice registrado entre todos os governadores eleitos na ocasião.

Em 2011, Campos foi reeleito presidente do PSB. Seu mandato iria até este ano.

O político estava em campanha para as próximas eleições presidenciais e havia firmado aliança com a política Marina Silva, da Rede Sustentabilidade, que seria sua vice-presidente.

A pré-candidatura foi lançada oficialmente em abril deste ano, quando ele deixou o governo de Pernambuco. A aliança foi considerada controversa por muitos para os quais os partidos de Campos e Marina defendiam interesses conflitantes.

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Image caption Campos se apresentava como uma nova forma de fazer política no país

A candidatura foi confirmada no fim de junho. Nela, Campos vinha se apresentando como uma nova via da política nacional.

"Tantas pessoas que votaram na Dilma se frustraram. Agora, o que o povo quer é alguém que dê solução a isso", disse ontem em sua última entrevista.

"Eu e Marina entendemos que para dar solução a isso é fundamental um novo caminho. Porque PSDB e PT governam o país há vinte anos. Se a gente quer chegar a um novo lugar, a gente não pode ir pelos mesmos caminhos."

Mesmo atrás nas pesquisas, Campos acreditava que poderia se eleger depois que tivesse a chance de se apresentar ao país com o início da campanha na televisão.

"Minha eleição vai ser de fenômeno, vai ser de arranque na última hora", disse à revista Piauí.

Ainda não há uma definição sobre o futuro da candidatura capitaneada por Campos. O PSB tem dez dias para apresentar um nome para substituir Campos.

Em entrevista à rádio Estadão, o presidente do PSB de São Paulo, Marcio França, disse que "ninguém tem cabeça para pensar nisso agora".

Segundo França, Campos era "o jovem mais brilhante que a política brasileira produziu nos últimos anos".

Repercussão

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Image caption Campos estava a caminho de Santos para participar de um seminário internacional

A presidente Dilma Rousseff decretou luto oficial e a suspensão de sua campanha por três dias em homenagem a Campos.

Em um pronunciamento, Dilma lamentou a morte de Campos: "Quero dizer que hoje o Brasil está de luto e sentido com uma morte que tirou a vida de um jovem político promissor. O Brasil perde uma jovem liderança, com um futuro extremamente promissor, um homem que poderia galgar os mais altos postos".

O vice-presidente Michel Temer também comentou a morte de Campos: "Não há palavras para descrever essa tragédia que se abateu sobre a política brasileira. Eduardo campos era um político e princípios herdados de sua família e carregados por ele com dignidade e honra wem sua carreira no Parlamento e no Executivo".

Visivelmente abatida, a ex-senadora Marina Silva exaltou os dez meses de convivência com Campos ao comentar pela primeira vez a morte de seu companheiro de chapa.

"Essa é sem sombra de dúvida uma tragédia. Uma tragédia que nos impõe luto e uma profunda tristeza", disse Marina em coletiva de imprensa realizada em Santos.

"Durante esses dez meses de convivência, aprendi a respeitá-lo, admirá-lo e a confiar nas suas atitudes e ideais de vida."

O candidato Aécio Neves também suspendeu sua campanha por causa da tragédia. Em nota, disse que o "Brasil perde um de seus mais talentosos políticos, que sempre lutou com idealismo por aquilo que acreditava. A perda é irreparável e incompreensível".

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