Políticos 'ignoram grito de jovens por maior representatividade'

Manifestação no Rio em julho de 2013 (Fernando Frazão/ABr) Direito de imagem Fernando FrazoABr
Image caption Para especialistas, juventude não se sente representada por partidos tradicionais e busca novas formas de participação.

Governantes e políticos ainda não foram capazes de responder às demandas, vindas principalmente de jovens, por mais representatividade na política, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para eles, a desconfiança e a sensação de distanciamento dos jovens em relação ao sistema político, expressas principalmente durante as manifestações de junho de 2013, ainda estão presentes a três semanas do primeiro turno das eleições.

Para David Fleischer, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília, a incapacidade de implementar os pedidos das ruas fez com que o sentimento de frustração com as instituições políticas evidenciado em 2013 – especialmente entre as gerações mais novas – continuasse neste ano.

"Esse foi o grande grito do ano passado: eu não me sinto representado. Os políticos ensaiaram fazer algumas reformas no sistema político, mas não deu em nada, não reformou nada", disse Fleischer.

Segundo Benedito Tadeu César, professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a juventude se sente distante das formas institucionais de política.

"Esta juventude se sente órfã. O jovem não tem interesse por essa política que está aí. Ela não se reconhece nesses intrumentos", disse, acrescenteando que o atual modelo é fruto da sociedade industrial do século 19.

Reforma política

As demandas por novas formas de representatividade e participação políticas estavam no centro das manifestações de 2013 juntamente com reivindicações por melhorias na saúde, transporte e educação.

Durante as manifestações, a presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, propôs a convocação de um plebiscito que autorizasse uma constituinte exclusiva para a reforma política. Mas a proposta recebeu forte oposição no Congresso e acabou não progredindo.

"Fizemos um compromisso com a reforma política. Enviamos para o Congresso essa reforma política, não foi aprovada. Aliás, eu acredito que reforma política no Brasil vai exigir a participação popular e a consulta popular atráves de um plebiscito”, reiterou Dilma durante o primeiro debate presidencial desta campanha, transmitido pela TV Bandeirantes no dia 26 de agosto.

A necessidade da reforma política foi um ponto levantado por leitores da BBC Brasil em discussões nas redes sociais.

O leitor Daniel Lopes afirmou que, se o "sistema não mudar", novas manifestações podem ocorrer, enquanto que Gean Claudio Araujo chegou a propor até mesmo a extinção dos partidos políticos.

‘É muito Facebook’

Diante da insatisfação o que percebem como promessas não cumpridas, da desconfiança em relação aos políticos e da crescente demanda por representação, os jovens estão buscando outras formas de participação política, inclusive por meio da internet e redes sociais.

"Você tem uma enorme massa com anseios (por mudança). (Eles) passaram a ter direitos e estão cobrando esses direitos, mas não têm canal de expressão disso", disse Tadeu César.

Isso, diz ele, faz com que o engajamento político da juventude seja fragmentado, em um processo que não ocorre apenas no Brasil, mas também em outras partes do mundo.

"O grande palanque hoje virou as redes sociais, onde cada um vai e diz o que bem entende", disse ele. "É muito Facebook, eu vou lá, eu digo o que está me incomodando".

Isso não significa o fim do distanciamento dos jovens com a política. Apesar do interesse deles ter crescido com os protestos, "a alienação continua", com "uma grande maioria que continua apática e afastada", disse Fleischer.

Eleições

Para Fleischer, estas características do eleitor mais jovem se refletem também na disputa pela Presidência, em que a candidata Marina Silva (PSB), que diz representar "novas formas de fazer política", é a maior beneficiada.

Direito de imagem AP
Image caption Para especialistas, governo não atendeu demanda dos protestos do ano passado e jovens seguem frustrados

"Os governos não entenderam muito bem essas demandas. Então, essa frustração continua. Em parte, nós vemos isso desaguar num grande tsunami de apoio a Marina Silva", disse.

De fato, segundo pesquisa espontânea feita pelo Datafolha, na qual o nome dos candidatos não é apresentado ao entrevistado, Marina tem 28% das intenções de voto entre os eleitores de 16 a 24 anos.

Dilma (PT) tem 23% e Aécio Neves (PSDB) tem 10% das intenções. A pesquisa, divulgada no dia 4, tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Mas ainda é difícil prever se isso se refletirá nas urnas.

"Você tem uma insatisfação que não está mais latente, está manifesta. E me parece que está se expressando nessas eleições. A Marina tem sido beneficiada por isso, mas não sei por quanto tempo isso se mantém", diz Tadeu César.

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