Argentinos atrasam R$ 4,4 bi em dívidas com exportadores brasileiros

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Importadores argentinos acumulam US$ 2 bilhões (R$ 4,4 bilhões) em pagamentos atrasados a fornecedores brasileiros, segundo informou à BBC Brasil Miguel Ponce, presidente da Câmara de Importadores da República Argentina (Cira).

Ponce atribui os atrasos às restrições no acesso a dólares impostas pelo governo da presidente Cristina Kirchner. Ele negou, contudo, que haja qualquer risco de "calote".

"No total, nossos pagamentos em atraso somam US$ 5 bilhões (R$ 12 bilhões), dos quais 2 bilhões são apenas com exportadores brasileiros", afirma Ponce.

"Não se trata de calote, de forma alguma. Sabemos o que devemos, mas não sabemos quando essa situação será regularizada."

A maior parte da dívida envolveria o setor automotivo, que representa cerca de 70% da balança comercial entre os dois países, segundo dados da consultoria econômica DNI, de Buenos Aires.

Mudança de prazo

Ponce explica que até janeiro deste ano os pagamentos pelas importações eram realizados com prazo de aproximadamente 40 dias.

Desde então, a pedido do governo, as operações com dólares para a compra de produtos no exterior passaram a ser de até 120 dias.

A ideia do governo, segundo Ponce, era "ganhar tempo" para a entrada de divisas no país por meio de operações de comércio exterior - o que lhe permitira normalizar a situação dos pagamentos.

As reservas do Banco Central argentino somam cerca de US$ 30 bilhões (R$ 73 bilhões). Para efeito de comparação, as reservas brasileiras são da ordem de US$ 380 bilhões (R$ 920 bilhões).

No fim de julho, porém, a Argentina entrou em "default técnico" por uma ordem judicial dos Estados Unidos vinculada ao litígio com fundos especulativos.

O governo rejeita que a situação possa ser classificada como moratória, mas a situação ampliou ainda mais as dúvidas sobre sua capacidade de obter dólares para pagar dívidas com fornecedores estrangeiros - entre eles os brasileiros.

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"Assim que foi feito o adiamento para 120 dias, todos os nossos parceiros comerciais concordaram com o novo prazo. Mas depois do 'default de fato', alguns exportadores passaram a pedir prazos menores para receber, de até 30 dias, ou até pagamento adiantado. Isso é desconfiança, sem dúvida", diz o presidente da Cira.

Polêmica

As dificuldades de pagamento enfrentadas pelos importadores ganharam as manchetes da imprensa argentina nesta semana.

Os jornais El Cronista e La Nación, de Buenos Aires, chegaram a publicar que os importadores passariam a ser obrigados a obter dólares no câmbio paralelo e não mais no oficial para honrar suas dívidas.

A polêmica ocorre em meio a mais uma alta do dólar, que bateu novo recorde, sendo cotado a 16 pesos no mercado paralelo – quase o dobro do oficial.

"Temos muita dificuldade para conseguir dólares. Isso é um fato. O presidente do Banco Central (Juan Carlos Fábrega) garantiu que teremos acesso à cotação oficial para pagar o que compramos. Mas não sabemos em que prazo poderemos pagar as importações", diz Ponce.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) do Brasil, o governo federal "recebe informações do setor privado brasileiro e mantém contatos com a contraparte argentina para estas dificuldades sejam contornadas".

Também procurado pela BBC Brasil, o Banco Central da Argentina não aceitou comentar sobre o assunto.

As dúvidas sobre o pagamento das importações argentinas ganham força em meio a uma forte redução do comércio bilateral, como observam fontes do governo brasileiro.

Em agosto, o comércio bilateral registrou queda de 28% frente ao mesmo mês do ano passado, de acordo com dados da consultoria Abeceb, de Buenos Aires.

No acumulado do ano, a retração chega a 22%, o que vem preocupando os dois governos.

"Isso nos preocupa porque a Argentina é o principal mercado para as exportações industriais brasileiras", diz um integrante do governo brasileiro.

"Essa queda ocorre devido ao menor crescimento econômico nos dois países - e, além da questão do pagamento aos nossos exportadores, ainda temos o problema das barreiras argentinas que dificultam o fluxo comercial entre os dois países."

Default

A Argentina entrou em "default de fato" no dia 30 de julho, após o vencimento do prazo de trinta dias para que o governo da presidente Cristina Kirchner chegasse a um acordo com os chamados 'fundos abutres'.

Esses fundos detêm títulos da dívida do país incluídos na moratória de 2001 e se recusaram a aceitar as ofertas de acordo feitas pelo governo em 2005 e em 2010.

A disputa com esses investidores, que representam 1% daquela dívida de 13 anos, foi levada a um tribunal de Nova York.

A decisão do tribunal a favor dos fundos abutres voltou a ampliar as incertezas sobre a capacidade da Argentina honrar seus compromissos financeiros.