Qual é a espécie mais promíscua da natureza?

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Image caption Machos nem sempre são os mais promíscuos da natureza

Quando o assunto é sexo no mundo animal, é comum pensar que os machos são mais "promíscuos" que as fêmeas.

De fato, os machos costumam procurar o maior número de fêmeas possível para tentar aumentar suas chances de inseminar com sucesso.

Já as fêmeas são naturalmente seletivas, porque elas precisam investir muita energia no processo de dar à luz. Também as fêmeas não aumentam suas chances de reprodução só por ter vários parceiros sexuais.

Estes conceitos são estabelecidos no mundo da biologia evolutiva.

Mas algumas dessas ideias não poderiam estar mais erradas.

Abelhas-rainha

Existe um exemplo do comportamento oposto na natureza: as abelhas. No começo da vida, a abelha-rainha faz vários voos de acasalamento. Os diversos machos morrem assim que depositam nela seus espermatozoides.

Os espermatozoides ficam então armazenados na rainha, que os usa ao longo de toda a sua vida.

No caso das abelhas-rainha, existe um lado positivo na "promiscuidade". Quanto mais parceiros a abelha-rainha teve, maior é a produtividade das abelhas-operárias na colmeia.

Acredita-se que a diversidade genética na colmeia - um resultado do fato de a abelha-rainha ter tido múltiplos parceiros - aumenta a resistência dos insetos a doenças.

Uma revisão de literatura científica feita por Hector Cabrera-Mireles, da Universidade da Flórida, mostrou que as abelhas-rainha são as fêmeas mais "promíscuas" da natureza. A variedade europeia (Apis mellifera) tem em média 20 parceiros diferentes.

Mas a Apis dorsata, variedade do sul e sudeste da Ásia, bateu o recorde. Uma análise de DNA determinou que algumas fêmeas chegaram a ter 53 parceiros.

A fêmea do besouro azul serralha (Chrysochus cobaltinus) supera o número de acasalamentos - até 60 -, mas muitos desses aconteciam com o mesmo parceiro.

Mito do macho promíscuo

O mito do macho promíscuo e "ardente" e da fêmea tímida é baseado no que se chama de paradigma de Darwin-Bateman. No livro A Descendência do Homem e a Seleção em Relação ao Sexo (1871), Charles Darwin descreve os machos como "cheios de paixões fortes".

"A fêmea, por outro lado, com raríssimas exceções, é tímida e pode parecer estar tentando escapar do macho", escreveu Darwin no século 19.

Em 1948, o geneticista inglês Angus John Bateman publicou os resultados de uma experiência famosa com drosófilas. Ele separou proporções semelhantes de machos e fêmeas em diferentes garrafas.

Bateman escolheu animais com características físicas bastante visíveis - para conseguir determinar quem eram os pais das crias que surgiram.

Foi este teste que determinou que os machos têm mais chance de se reproduzir com sucesso se inseminam várias fêmeas. Já as fêmeas não possuem chances maiores de se reproduzir só por ter mais parceiros.

Essa noção influenciou biólogos por décadas. Mas de forma surpreendente duas revisões desta experiência de Bateman - feitas em 2007 e 2012 - mostraram que ela tinha falhas metodológicas.

Patricia Adair Gowaty, da Universidade da Califórnia, repetiu a experiência, e descobriu que muitas das características físicas observadas por Bateman não eram prova conclusiva de que as crias tinham sido originadas pelos pais que se supôs.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.

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