Como ler 'Guerra e Paz' em apenas nove horas

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Image caption Ler muito rápido é possível - mas alguns acreditam que isso compromete o entendimento

Você é rápido na leitura? Você é do tipo que lê o jornal inteiro durante o café da manhã? Que checa as redes sociais em questão de minutos? Que lê o último best seller em apenas um dia?

A maior parte das pessoas lê 200 palavras por minuto - mas, em tese, é possível aprender a digerir informação mais rápido.

Algumas empresas vendem apps de leitura veloz - que prometem incrementar a velocidade para acima de mil palavras por minuto. Isso significa que seria possível ler o clássico Guerra e Paz, de Leon Tolstoy, em apenas nove horas. O volumoso Moby Dick, de Herman Melville, poderia ser terminado em apenas três horas e meia.

Isso parece bom demais para ser verdade, segundo alguns acadêmicos.

App veloz

A teoria da leitura veloz envolve técnicas de tentar fazer com que as palavras cheguem de forma mais eficiente à fóvea, uma seção pequena no centro da retina que nos dá a visão aguçada necessária para identificar formas com precisão, inclusive as letras.

Quando lemos, nosso olho pula de uma palavra para a outra, em um movimento conhecido como sacádico. O problema que ocorre é que muitas vezes a palavra que focamos não está no centro da fóvea, e isso diminui a velocidade e a habilidade de reconhecermos a palavra escrita.

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Image caption Com app, é possível terminar 'Guerra e Paz' em nove horas

Muitos métodos de leitura rápida tentam aperfeiçoar a colocação da palavra no centro da fóvea, para facilitar seu reconhecimento.

Os criadores do app Spritz, usado em smartphones e tablets, perceberam que a forma mais rápida de fazer isso é criando uma caixa - na qual as palavras vão surgindo uma após a outra. Ao focar o olhar apenas na caixa, o leitor consegue identificar cada palavra sem desviar os olhos. Sem nenhum grande esforço, a leitura fica muito mais rápida. Tente usar o Spritz, para ver se essa técnica funciona para você (em inglês)

Velocidade x compreensão

Sally Andrews, professora de psicologia cognitiva da Universidade de Sydney, afirma que leitura veloz não é algo tão simples. Em uma análise publicada após o lançamento do Spritz, Andrews disse que o problema da velocidade está no tempo que leva para compreendermos a palavra. Em especial, as palavras longas demais ou as que não conhecemos são as que mais dificultam a leitura.

Segundo Andrews, Spritz faz as pessoas processarem as palavras de uma forma semelhante com a que processamos a fala. Mas nos diálogos orais, é possível compensar palavras que perdemos com a leitura de gestos e entonações. Sem isso, a compreensão fica comprometida.

Mas fãs do Spritz dizem que isso não é um problema incontornável. Leitores que gostam do aplicativo dizem que quando se conhece o estilo de determinado autor, muitas das palavras perdidas podem ser adivinhadas, sem prejuízo ao significado do texto.

Outros apps de técnicas de leitura também exigem que o leitor preencha espaços perdidos. O PhotoReading, por exemplo, é um sistema patenteado em que leitores passam os olhos várias vezes por um texto, começando com os títulos dos capítulos e acrescentando cada vez mais detalhes em cada nova passada de olhos. Andrews argumenta que pessoas que usam essa técnica estão constantemente processando versões incompletas do texto.

Algumas dessas técnicas funcionam bem em determinadas ocasiões. Mas se aceleradas demais, o texto pode se tornar incompreensível.

Experiência

Pesquisas sugerem que a compreensão cai drasticamente depois que a leitura ultrapassa a velocidade de 500 palavras por minuto, segundo Andrews.

Mas a leitura pode não ser a única forma de fazer um "download" de informações no cérebro. Em 2011, neurocirurgiões japoneses e americanos disseram ter conseguido melhorar a "digestão" de conhecimento básico.

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Image caption Cientistas estudam formas de aumentar transmissão de dados ao cérebro

No experimento, eles pediram que voluntários identificassem as diferenças entre três objetos que possuíam variações sutis entre si. Seus cérebros foram analisados enquanto cumpriam a tarefa.

Em seguida, os cientistas pediram que cada voluntário fizesse uma tarefa que - sem que soubessem - recriava o mesmo padrão de atividade cerebral.

Quando voltaram a repetir a primeira ordem - de reconhecer diferenças sutis em objetos parecidos - eles foram muito mais rápidos. Isso sugere que é possível "treinar" o cérebro a ler mais rápido - sem necessariamente modificar o processo de leitura.

Um dos cientistas envolvidos, Takeo Watanabe, da Universidade de Brown, reconhece que essa experiência não envolveu leitura - que é um processo mais sofisticado de reconhecimento de formas. Mas ele acredita que, em tese, a experiência pode ajudar a desenvolver técnicas de leituras mais velozes.

Leia a versão original desta reportagem em inglês na BBC Future.

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