Líder mais longevo na América Latina, Evo caminha para 3º mandato

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Image caption Pesquisas de boca de urna apontaram vitória de Morales com 60% dos votos

"Um, dois, três, Evo outra vez"; "Evo 2015, Evo, dois mil e sempre"; "Evo não vai embora, vai ficar, Evo presidente", cantavam os apoiadores de Evo Morales neste domingo, dia de eleição presidencial na Bolívia.

Com o apoio de cerca de 60% dos eleitores, segundo as pesquisas de boca de urna, tudo leva a acrer que o presidente boliviano foi eleito para um terceiro mandato - ele é o presidente em exercício há mais tempo no cargo na América Latina.

De acordo com a atual Constituição, este será o último mandato de Morales.

Não está claro, no entanto, se ele terá maioria suficiente no Congresso para mudar esse texto e, caso mude, se buscará uma nova reeleição.

Mas, quando terminar seu último ano de governo, em 2020, Morales terá permanecido 14 anos no poder.

"Com os resultados destas eleições, em meu nome e também do vice-presidente e daqueles que continuam a lutar pela libertação da Bolívia, digo obrigado por esta vitória do povo boliviano", afirmou o presidente no domingo.

"Até quando continuaremos submetidos ao sistema capitalista? Esta vitória é anticapitalista e antineoliberalista", disse, sob aplausos.

O triunfo da economia

Talvez a vitória mais simbólica deste pleito seja a do seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo), em Santa Cruz, um departamento (Estado) que tem sido tradicionalmente considerado um bastião da oposição e onde, até recentemente, o presidente era mal recebido.

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Image caption Boom econômico e redução da pobreza impulsionaram votação

O MAS ganhou em todos os departamentos, exceto em Beni, no norte, na fronteira com Rondônia.

E, graças ao bom desempenho econômico do país, Morales agregou empresários e até mesmo celebridades locais a sua base de apoio tradicional de indígenas, camponeses e outros grupos sociais.

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As receitas de um presidente que fala sobre anti-imperialismo e nacionalizações têm sido elogiadas por organizações que estão longe de ser consideradas socialistas, do FMI (Fundo Monetário Internacional) ao jornal americano The Wall Street Journal.

As ruas de La Paz estão cheias de sintomas dessa bonança, incluindo edifícios em construção, novos supermercados, cinemas, centros comerciais e "cholets", as já famosas mansões extravagantes de empresários migrantes que ganharam dinheiro nos últimos anos.

Mas talvez o melhor exemplo de mudança na Bolívia - que ainda é um dos países mais pobres da América Latina - seja o novo teleférico da capital, com duas linhas e uma terceira a caminho.

Essa façanha notável de engenharia liga La Paz à cidade satélite de El Alto, que abriga milhares de migrantes do interior que vivem a mais de 4 mil metros acima do nível do mar.

"(O presidente) me ajudou com o bônus Juana Azurduy (concedido a mulheres grávidas e mães de crianças menores de dois anos) e com o Sumi (seguro de saúde para mães e crianças). O governo atende meus filhos até os 5 anos ", disse à BBC María Esther Prieto, com seu bebê nos braços.

Ela conta que o salário de seu marido professor dobrou nos últimos dois anos.

Críticas

Sob a gestão Morales a Bolívia tem crescido a uma taxa constante de 5% ao ano e se tornou a economia que mais cresce na América do Sul. Além disso, a pobreza foi reduzida em 20%.

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Image caption Em La Paz, Evo Morales combina sua imagem com esta estátua de Che Guevara

Porém, críticos como seu principal rival na eleição, o empresário de centro-direita Samuel Doria Medina, acusam Morales de vincular o futuro da economia à flutuação aleatória da cotação dos recursos naturais do país no mercado internacional.

Ele também é atacado pela esquerda, que sustenta que Evo é apenas um capitalista com pele de socialista e está colocando a economia na frente da proteção do meio ambiente.

Até agora, o legado de Evo deixa sombras que ele terá que enfrentar em seu terceiro mandato, como um sistema de justiça ineficiente, uma onda de violência contra mulheres e tensões raciais dentro das Forças Armadas.

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"Ele deveria planejar mais obras e projetos em saúde e educação, que tem sido muito negligenciada na Bolívia", diz Jorge Lora, jornaleiro no bairro de La Lomas, em La Paz.

Legado

Em El Alto, um monumento ao revolucionário argentino Che Guevara está ao lado de um dos novos shoppings, cercado por milhares de barracas que vendem legumes e mercadorias contrabandeadas.

E, acima de tudo isso, há um cartaz com o rosto de Morales.

Seu rosto vai ficar aqui por um longo tempo, a julgar pelo apoio de grande parte dos bolivianos, que o veem como diretamente responsável por seu bem-estar.

Como líder cocaleiro, Evo Morales ganhou o coração dos indígenas. Como chefe de Estado, conquistou a confiança dos empresários.

Agora, terá que provar que seus críticos estão errados quando dizem que ele se tornou um líder autocrático e disposto se perpetuar no poder.

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