Aécio e Dilma têm diplomacia distinta, mas grandes mudanças são improváveis

Palácio do Itamaraty (Thinkstock) Direito de imagem Thinkstock
Image caption Debates sobre política externa estão ausentes das eleições

Se entre ataques pessoais e acusações de corrupção os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) ainda encontram espaço para debater questões relativas a economia, segurança e programas sociais, outro tema relevante para o próximo governo é um dos grandes ausentes das discussões da campanha eleitoral deste ano: a política externa.

Embora tradicionalmente as relações internacionais não sejam um assunto mobilize a maior parte das atenções nas corridas eleitorais, durante a campanha de 2010, por exemplo, questões como as relações do Brasil com o Irã foram alvo de debates entre os principais candidatos. Na atual disputa, no entanto, o tema até agora tem tido atenção apenas marginal.

Apesar disso, os programas apresentados pelos dois candidatos apresentam importantes diferenças no modo como tratam a política externa do próximo governo.

Enquanto o tucano adota um tom crítico à política externa petista e propõe uma revisão no Mercosul para que novas alternativas comerciais sejam avaliadas, a campanha de Dilma promete fortalecer o bloco e continuar com uma política voltada para o estreitamento dos laços com países em desenvolvimento – incluindo os Brics.

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Mas, apesar dessas abordagens diferentes, analistas ouvidos pela BBC Brasil discordam quanto aos resultados concretos que esse discursos podem ter, embora concordem que mudanças radicais sejam improváveis no próximo governo.

Diferenças

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Image caption Para analista, Aécio Neves pode dar ênfase à tentativa de construção de acordos comerciais

Segundo Miriam Gomes Saraiva, professora do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), enquanto Dilma tem sinalizado que vai manter uma política que é caracterizada “por cooperação com os países do Sul” e uma posição mais assertiva em relação às grandes potências, a candidatura de Aécio Neves é ligada a uma corrente dentro do Itamaraty que defende uma aproximação maior do Brasil às posições das economias desenvolvidas em instituições internacionais.

Para a pesquisadora, isso pode trazer uma diminuição na pressão brasileira por reformas em instituições como o FMI e o Banco Mundial e outras mudanças.

“No Conselho de Direitos Humanos da ONU, pode ter votos mais alinhados com os europeus. No interior do G-20, pode-se buscar uma posição menos conflitiva”, diz Saraiva que, no entanto, acredita que o Brasil deve continuar pressionando pela abertura de mercados europeus e americanos para produtos agrícolas brasileiros em um eventual governo Aécio.

Na visão da professora, as sinalizações vindas da campanha do tucano apontam também apara uma política externa que tende a priorizar as dimensões comerciais e econômicas – e menos políticas – das relações exteriores, em mais uma diferença em relação aos governos petistas, em especial à administração de Lula.

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Comércio

O comércio também é apontado por Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, como a diferença mais marcante entre programas de Dilma e Aécio para as relações exteriores.

“Aécio realmente tem uma visão diferente em relação ao tema do comércio. Eu acho que ele estaria muito mais disposto a fortalecer a participação do Brasil no mercado, na economia global”, diz.

“A visão de mundo do PT nesse sentido aposta muito mais na proteção, acredita que é preciso proteger o mercado brasileiro, nisso o Aécio é um pouco diferente”, afirma Stuenkel.

Ele avalia que, no caso de uma vitória do tucano, dificilmente haverá uma abertura “radical” do mercado brasileiro.

Esta visão diferente no comércio, no entanto, poderia também ter impacto no Mercosul, que atualmente impede que seus membros façam individualmente acordos bilaterais com países de fora do bloco.

“Eu acho que Aécio se sentiria mais à vontade para fechar acordos de comércio sem a participação da Argentina, reduziria o Mercosul pra uma área de livre comércio para ter mais liberdade para articular acordos de comércio”, diz Stuenkel.

Declarações do candidato tucano nos últimos meses também indicavam que um eventual governo do PSDB poderia endurecer as relações com países produtores de drogas da América do Sul. Stuenkel, no entanto, duvida disso.

“Isso foi algo que ele articulou, mas não existe a menor possibilidade de que ele acabe fazendo isso. Então, eu acho que as retóricas (de Dilma e Aécio) podem ser diferentes, o comércio pode mudar, mas as linhas gerais da política externa não vão mudar”, diz.

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Continuidade

Por outro lado, para o professor da FGV, “os dois governos, Dilma ou Aécio, teriam o mesmo desafio no ano que vem, que seria consertar as relações com os Estados Unidos”, além de focar também nas relações com a China e com os Brics.

Posição parecida tem Tullo Vigevani, professor emérito da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Para ele, Dilma ou Aécio podem trazer “ênfases” diferentes à política externa, mas que isso dificilmente significará alguma transformação no modo como o Brasil tem agido até o momento.

“As relações internacionais ou bilaterais não dependem só das posições brasileiras ou das posições ideológicas dos governos, ainda que haja ênfases diferentes na política externa.”

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Image caption Segundo analistas, Dilma tem sinalizado com uma continuidade em sua política externa

“Há discursos diferentes, mas poucas possibilidades diferentes de concretizá-las”, diz Vigevani, para quem a proposta de Aécio de fazer acordos comerciais com países de fora do Mercosul sofreria grande oposição dentro e fora do Brasil.

“Em relação aos EUA, algumas pessoas próximas a Aécio sugerem um acordo de livre comércio. Mas a possibilidade não é simples. Precisaria quebrar o Mercosul, o que encontrará forte resistência”, diz.

Para Vigevani, no entanto, no caso da vitória do tucano, é possível que ele tente sinalizar de maneira mais enfática uma tentativa de aproximação com os EUA.

“Pode haver algumas declarações importantes, não excluo que ele pense em retomar com ênfase a busca de (melhores) relações com os Estados Unidos, mas isso não significa necessariamente resultados concretos”, diz.

Esvaziamento

Para Saraiva e Stuenkel, no entanto, caso Aécio vença as eleições, é possível que seu governo passe a dar uma importância maior à política externa, que eles consideram ter sofrido de um esvaziamento durante a administração de Dilma.

“A gente está em uma situação muito peculiar, na qual a política externa realmente não tem uma importância no projeto nacional da presidente... Dilma não tem uma atuação grande fora do país, ela não considera como algo crucial. É como se ela tivesse uma não política externa”, diz Stuenkel.

Questionado pela BBC em uma reportagem sobre o assunto em fevereiro deste ano, o Itamaraty disse, por e-mail, que o Brasil "privilegia sempre o diálogo nos foros e mecanismos multilaterais. A atuação brasileira nessas instâncias é pautada por princípios permanentes, que dão continuidade e consistência à política externa."

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No caso do candidato do PSDB, Miriam Gomes Saraiva acredita que "recuperar o papel do Itamaraty" pode ser algo benéfico, embora Aécio não tenha demonstrado que tenha "particular interesse em política externa".

De qualquer forma, independentemente de quem vença, Saraiva diz considerar ser provável que o próximo governo continue a relegar a política externa para um papel mais secundário.

“O Brasil não vai ter uma política externa tão ativa como teve com Lula ou mesmo com FHC”, diz.

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