Cientistas britânicos usam hip hop para tratar distúrbios mentais

Show de hip hop em St. Louis, EUA, dia 12 de outubro de 2014 | Foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Letras de rap que falam sobre distúrbios mentais e momentos difíceis são usadas no tratamento de jovens

Dois pesquisadores britânicos estão usando letras de rap para tratar pacientes com depressão, vícios e transtorno bipolar.

"O Hip Hop Psych (Psiquiatria do Hip Hop, em tradução livre) está abrindo portas para uma cultura que combine a medicina e o estilo musical, com respostas incríveis", disse a neurocientista Becky Inkster, da Universidade de Cambridge, para a BBC.

O projeto usa letras de canções ligadas à cultura do hip hop e a outros estilos musicais para ajudar pacientes com distúrbios mentais em hospitais e comunidades a se expressarem.

"Usamos isso como um veículo para nos aproximarmos de pessoas mais jovens", afirma Inkster.

"É difícil fazer contato com elas e também é difícil passar conhecimento, mas (por intermédio do) hip hop eles discutem as coisas. Podemos conversar sobre quem é melhor - (os rappers) Nas, Biggie ou Tupac - e eles realmente se abrem para o diálogo."

O site oficial do projeto afirma que "as letras de hip hop vão muito além dos xingamentos, de falar sobre dinheiro e da exploração de mulheres". "A música do hip hop está cheia de referências à saúde mental, ligadas a vícios, psicoses, desvios de conduta, transtorno bipolar e outros."

Fãs

A cientista diz que a ideia partiu de sua preferência pessoal pelo estilo musical: "Sempre fui muito fã de hip hop, mesmo que não vivesse em uma comunidade onde o estilo era popular."

Seu colega, o psiquiatra Akeem Sule, pesquisador associado do departamento de psiquiatria da Universidade de Cambridge, diz que também "ouve hip hop desde que ele começou".

"Eu queria ser rapper, mas meus pais queriam que fosse psiquiatra. Eu sou da Nigéria, e lá você tinha que fazer o que seus pais queriam."

Algumas das canções utilizadas no projeto falam das experiências dos próprios cantores com depressão e com a dificuldade de falar de traumas emocionais.

Segundo Sule, muitos pacientes jovens têm dificuldade de explicar o que se passa com eles.

"Mas se você pedir que eles cantem um rap, eles conseguem. Aí encontramos uma narrativa muito rica. Eles se abrem mais", afirma.

'Acalma a mente'

A organização de caridade britânica Key Changes já colocava em prática parte da ideia de Inkster e Sule, realizando atividades musicais com pessoas que sofrem de doenças mentais em hospitais e comunidades de Londres.

Dois participantes do projeto, Ice e Stickz, falaram à BBC sobre o papel do rap em sua recuperação.

"Em vez de ter que explicar as coisas pelas quais eu passei, faço rap sobre elas", diz Stickz, de 26 anos, que foi diagnosticado há quatro anos com transtorno bipolar e hoje é rapper.

Ele diz que a música o ajudou a recuperar a autoconfiança e a reencontrar sua personalidade.

Já Ice, também de 26 anos, toma medicamentos para esquizofrenia paranoide e pretende seguir carreira no hip hop.

"(O rap) acalma minha mente. Um dia as pessoas vão gostar da minha música. Posso ser um exemplo para as pessoas que estão passando por provações", afirma.

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