'Não faria o que Diego Costa fez', diz artilheiro do Shakhtar convocado por Dunga

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Image caption Autor de cinco gols numa só partida da Liga dos Campeões da Uefa, o atacante Luiz Adriano enfim recebeu sua primeira convocação para a seleção brasileira

Antes mesmo da noite em que fez cinco gols na Champions League nesta semana, Luiz Adriano já vinha se habituando a responder a uma pergunta inevitável: seria ele o próximo jogador a "trocar de pátria"?

Um raro caso de atacante brasileiro aparecendo regularmente nas listas de goleadores do futebol europeu, o atacante do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, jamais tinha sido convocado para a seleção brasileira, apesar do período de entressafra de centroavantes na equipe nacional.

No entanto, Luiz Adriano foi uma das novidades na lista dos convocados para a Seleção brasileira anunciada nesta quinta-feira pelo treinador Dunga, no Rio de Janeiro. Seu companheiro de ataque na Ucrânia, Douglas Costa, também foi chamado.

Ele fará parte do grupo que disputará, em novembro, amistosos contra a Turquia e a Áustria.

A falta de oportunidades no Brasil gerou muita especulação na Ucrânia de que o gaúcho poderia aceitar um convite para se naturalizar e defender a ex-república da União Soviética.

Neste caso, ele estaria seguindo passos já trilhados por outros jogadores brasileiros, de jogar por outra seleção - mais recentemente Diego Costa, que disputou a última Copa do Mundo pela Espanha.

Por isso, havia uma grande expectativa sobre sua inclusão ou não na lista de Dunga, em especial depois de Luiz Adriano, de 27 anos, ter roubado a cena na última rodada da Champions League, ao marcar cinco gols na vitória de 7 a 0 do Shakthar sobre o BATE Borisov, de Belarus.

Ele se igualou ao argentino Lionel Messi como único jogador da história do mais importante torneio de clubes do mundo a fazer uma "quina" numa única partida. Mas nem mesmo Messi conseguira marcar quatro em apenas um tempo.

De quebra, o gaúcho tornou-se o maior artilheiro da história da equipe ucraniana, com 117 gols em 247 partidas.

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Image caption Em sete temporadas, Luiz Adriano se transformou no maior artilheiro da história do Shakthar Donetsk, com 117 gols em 247 partidas

No entanto, Luiz Adriano nega que o pensamento de aceitar a naturalização - e a vaga na seleção ucraniana - tenha passado por sua cabeça.

"Meu sonho sempre foi jogar pela seleção brasileira e nunca pensei em abrir mão deste desejo. Falaram muita coisa na Ucrânia sobre uma naturalização e eu sempre ouvi com muito respeito, mas nunca disse que aceitaria. Cada um toma sua decisão na vida, mas nunca quis fazer o que Diego Costa fez", afirma Adriano, em entrevista à BBC Brasil.

Time 'refugiado'

No ano passado, apesar de ter atuado pela seleção brasileira em dois amistosos, Costa recebeu permissão da Fifa para aceitar uma convocação da Espanha - o estatuto da entidade máxima do futebol permite a troca de nacionalidades para jogadores que não disputaram partidas oficiais pelas seleções principais de seus países.

Luiz Adriano apenas representou o Brasil na categoria Sub-20.

"Eu sempe trabalhei para um dia ser convocado. Jogo na Ucrânia há sete anos e vinha melhorando a cada ano. Sabia que a chance um dia poderia vir", conta Luiz Adriano.

"Acho que não consegui ser convocado antes porque o campeonato ucraniano não tem tanta visibilidade. Por isso, foi importante ter bons jogos na Champions League. Mas não acho que minha convocação veio apenas por causa dos cinco gols. Tenho feito um bom trabalho há bastante tempo".

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Image caption A ausência de convocações do jogador para a seleção brasileira tinha gerado especulações de uma naturalização para jogar pela Ucrânia

Vestir pela primeira vez a camisa da seleção é uma boa notícia para Luiz Adriano, em especial num ano difícil para todos os 13 brasileiros jogando no Shakthar.

Por conta dos confrontos na região oriental da Ucrânia, o clube teve que abandonar a cidade de Donetsk e se mudar para a capital, Kiev - o estádio do Shakthar, a Donbass Arena, foi até atingida por ataques.

Inicialmente, os jogadores e suas famílias deixaram pertences para trás em suas casas. Cinco jogadores brasileiros (Dentinho, Douglas Costa, Alex Teixeira, Fred e Ismaily) recusaram-se durante algumas semanas a se apresentar ao clube com medo dos confrontos.

"É muito triste o que tem acontecido na Ucrânia. Fui acolhido de braços abertos aqui e em Donestk principalmente. A gente fica preocupado não só com a segurança da gente, mas das pessoas que ficaram na cidade", explica Luiz Adriano.

"No plano esportivo, estamos jogando todas as nossas partidas como visitantes. Não temos nossa torcida por perto. É uma situação estranha".

E o estranhamento aumenta pelo fato de que, ao contrário do que acontecia em Donetsk, os jogadores brasileiros ainda não conseguiram encontrar, em Kiev, um bom fornecedor de carnes para os churrascos do grupo.

"Já faz uns três meses que não como um bom churrasco. Mas um bom bife já vai ser bom para comemorar a convocação", brincou o jogador.

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