Uruguai vota para presidente de olho em resultado no Brasil

Candidatos à eleição presidencial no Uruguai (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Disputam a Presidência Tabaré Vázquez, da base governista Frente Ampla, Pedro Bordaberry, do Partido Colorado, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional

Os eleitores uruguaios vão às urnas neste domingo no primeiro turno das eleições presidenciais, com as atenções voltadas para o próprio país e para o resultado do segundo turno no Brasil.

Nos últimos dias, o presidente José "Pepe" Mujica, de 79 anos, prestes a deixar o cargo, enfatizou a importância da eleição brasileira para seu país.

"O resultado da eleição deste domingo no Brasil tem tanta ou mais importância que o resultado eleitoral no Uruguai. É um fato determinante (para o Uruguai e a região)", disse Mujica, segundo a imprensa local.

E a mídia uruguaia, assim como a dos demais países da América do Sul, tem dedicado amplo espaço à campanha eleitoral brasileira, num sinal de máxima atenção ao que ocorre no país mais populoso e com a maior economia regional.

Para Mujica e para políticos e analistas ouvidos pela BBC Brasil, a eleição no Brasil definirá o "rumo" da América Latina, e principalmente da América do Sul.

Mujica tem boas relações com a candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), e o uruguaio teria dito, segundo interlocutores, que uma eventual vitória de Aécio Neves (PSDB) "seria um desastre".

No entanto, analistas ouvidos pelo jornal uruguaio El Observador apontaram que Montevidéu poderia ver vantagens em qualquer que seja o presidente eleito neste domingo no Brasil.

"Dilma reforçará o Mercosul e tem bom diálogo com o Uruguai", diz o jornal. "Aécio já adiantou que levará o Brasil a se abrir ao mundo, algo demandado tanto pela Frente Ampla (coalizão governista do Uruguai) quanto pela oposição."

Reportagem do jornal El País, da capital uruguaia, apresenta argumentos semelhantes. "Enquanto a atual presidente (brasileira) fala em fortalecer o Mercosul, Aécio Neves pretende modificar as normas que impedem os sócios do bloco de negociar acordos comerciais de forma individual, como pede o Uruguai."

'Aliança pragmática'

"Houve uma aliança política pragmática entre os governos do Uruguai e do Brasil nos últimos tempos, o que permitiu resultados concretos como acordos na área de infraestrutura, como energética", disse à BBC Brasil o professor de história e cientista político Gerardo Caetano, da Universidade da República.

Nos últimos dez anos, segundo dados oficiais, o comércio bilateral aumentou quase 400% e o Brasil está entre os principais investidores diretos no Uruguai, apesar de ter perdido recentemente para a China o título de maior exportador para o país vizinho.

Com 3 milhões de habitantes, o Uruguai é o menor país do Mercosul - bloco que conta ainda com Argentina, Paraguai e Venezuela -, o que explica a grande preocupação com os rumos adotados pelo sócio maior, o Brasil.

O senador governista Luis Gallo, da Frente Ampla, afirmou que ter o Brasil como "aliado" fortalece seu país.

"Uma coisa é o Uruguai sentar sozinho em uma mesa de negociação internacional e outra é estar com o Brasil. Além disso, o que ocorre no Brasil acaba influenciando toda a região. Nós estamos indo bem e queremos continuar assim", disse Gallo.

O pleito uruguaio

No primeiro turno uruguaio, que será realizado neste domingo, os principais candidatos, segundo as pesquisas de opinião, são o ex-presidente Tabaré Vázquez, da base governista Frente Ampla, Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, e Pedro Bordaberry, do Partido Colorado.

Lacalle Pou e Bordaberry são apontados pelos analistas como "parecidos" a Aécio Neves, pelas propostas que apresentaram até agora, principalmente na área de política externa.

Segundo Caetano, Tabaré e Dilma manteriam a "sintonia" que existe entre Dilma e Mujica.

O historiador afirmou ainda que pesquisas de opinião costumam mostrar que "o Brasil e os brasileiros são o país e o povo mais querido pelos uruguaios", num, sinal, entende, da "forte influência" do Brasil no país – o Uruguai foi província cisplatina entre 1817 e 1825 durante o reinado de Portugal, Brasil e Algarve (depois chamado Império do Brasil).

Analistas e políticos uruguaios de diferentes tendências apontam ainda a maior aproximação política do governo uruguaio com o governo brasileiro especialmente após as diferenças públicas vividas entre o Uruguai e seu tradicional sócio político e econômico, a Argentina.

As diferenças ocorreram principalmente na época do ex-presidente Néstor Kirchner (2003 e 2007), quando uma ponte entre os dois países foi bloqueada em um protesto dos argentinos contra uma fábrica de pasta de celulose às margens do rio que compartilham, o Uruguai.

"Os dois governos, Uruguai e Brasil, acabaram ficando ainda mais próximos", disse uma fonte do governo brasileiro.