Militares assumem o poder em Burkina Faso

Protestos em Burkina Faso Direito de imagem Reuters
Image caption A tentativa do presidente Compaoré de permanecer no poder foi recebida com violentos protestos em Burkina Faso

Depois de divergências entre dois de seus mais graduados oficiais, o Exército de Burkina Faso anunciou na tarde deste sábado que o tenente-coronel Isaac Zida assumiu interinamente a presidência do país africano em lugar de Blaise Compaoré, que renunciou na sexta-feira após 27 anos no poder.

Inicialmente, o general Honoré Traoré, a mesma autoridade que na sexta-feira anunciara a partida de Compaoré, e cuja patente é superior a de Zida, tinha se declarado o novo presidente e até convocado eleições em 90 dias.

O tenente-coronel, porém, fez um pronunciamento público na manhã de sábado contradizendo o general.

Horas mais tarde, um porta-voz do exército anunciou que os militares tinham escolhido o Zida "por unanimidade". E o comunicado oficial tinha a assinatura de Traoré.

"Assumo aqui as responsabilidades de chefe de estado e do processo de transição", disse Zida.

O tenente-coronel fez um pedido à Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas) e à comunidade internacional para reconhecê-lo como líder.

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Image caption Líder do Exército, o general Traoré na sexta-feira afirmou ter assumido a Presidência de Burkina Faso

Há quase três décadas no poder, Compaoré renunciou depois de violentos protestos nas ruas do país em protesto contra sua tentativa de permanecer no poder por mais um ano.

Na quinta-feira, o país entrou em estado de emergência e teve o Parlamento dissolvido para tentar controlar os manifestantes, que puseram fogo à sede do Legislativo e a edifícios governamentais.

Depois de muita confusão sobre o paradeiro do ex-presidente, foi anunciado que Compaoré e sua familia buscaram refúgio na vizinha Costa do Marfim.

Segundo a constituição de Burkina Faso, o novo chefe de estado deve ser o presidente do Senado. O documento também estabelece prazo máximo de três meses para uma nova eleição.

Preocupação internacional

No entanto, o exército declarou estado de emergência e a dissolução do Parlamento. E Zida, num deu seus pronunciamentos, disse que a duração do período de transição "ainda não foi determinada".

Rapidamente, a euforia provocada pela partida de Compaoré deu lugar à apreensão com um possível golpe militar. Especialmente porque Zida, a exemplo do general Traoré, era um dos homens de confiança do ex-presidente.

Localizado no oeste da África, Burkina Faso se tornou independente da França em 1960. O país sofreu diversos golpes militares nos anos 1970 e 80 - um deles, em 1987, permitiu a ascensão ao poder de Compaoré.

Ele venceu as quatro eleições disputadas desde então, mas estava impedido de participar das próximas eleições de acordo com as leis do país.

Burkina Faso é um dos países mais pobres do mundo e ocupa a 181a posição no ranking de Desenvolvimento Humano da ONU.

A renúncia de Compaoré causou surpresa não apenas pela rapidez com que o agora ex-presidente deixou o cargo, menos de um dia depois de anunciar a intenção de permanência.

Nos últimos anos ele tinha se tornado um importante mediador regional.

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Image caption O tenente-coronel Zida neste sábado ignorou a declaração de seu superior e afirmou que ele mesmo estaria assumindo o lugar de Compaoré

Burkina Faso, por exemplo, é onde ficam estacionados regimentos de forças especiais do Exército Francês e o país é um importante aliado dos EUA na luta contra grupos radicais islâmicos na África Ocidental.

Tanto Paris quanto Washington, porém, não protestaram contra a saída de Compaore e preferiram se concentrar em pedidos para que os militares garantam o processo democrático.

"Condenamos qualquer tentativa dos militares ou de outras partes de tirar vantagem da situação. Pedimos respeito ao apoio do povo por um processo democrático", disse na sexta-feira Jen Psaki, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA.

Analistas acreditam que a renúncia de Compaoré poderá ter desdobramentos significativos na África, onde diversos chefes de estado têm tentado ou conseguido prolongar seus mandatos.

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