#SalaSocial: Insatisfeitos com eleições pedem ajuda a militares e aos EUA

Manifestantes em São Paulo no dia 1º de novembro de 2014 | Foto: AFP Direito de imagem AFP
Image caption Protesto em São Paulo pediu impeachment de Dilma, mas teve presença de defensores da intervenção militar no governo

Após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, frequentadores de mais de 80 grupos, páginas e eventos no Facebook pedem a "Intervenção militar já" no governo. Eles chamaram a atenção em meio a uma manifestação pedindo o impeachment da presidente, que reuniu entre 2 mil e 5 mil pessoas no último domingo, em São Paulo.

Nas semanas seguintes à vitória do PT no segundo turno, o número de páginas apoiando a ideia aumentou, e seus membros mais ativos começaram a organizar eventos através da rede social - alguns dos quais se misturaram à passeata de domingo. Muitas das páginas e grupos ganharam novas adesões após os protestos de junho de 2013.

Duramente criticados pelo PT e por membros do PSDB – e até mesmo por outros manifestantes contra o governo –, que temiam ser associados a uma defesa da ditadura militar, os defensores da intervenção afirmam que não apóiam a ideia de um golpe de Estado.

"Seria uma intervenção branca, diferente de um golpe. Todos os (parlamentares e juízes) que forem culpados (de corrupção) serão afastados imediatamente do governo. Quem vai julgar é uma comissão formada pelos militares, pela sociedade civil ou outros juízes que não estiverem comprometidos", disse à BBC Brasil o empresário paulista Carlos Carvalho Junior, de 47 anos, que criou o maior grupo sobre o tema no Facebook, com mais de 48 mil membros.

"Se entrar um ladrão na sua casa, você vai chamar a polícia, né? E se há corruptos nos três Poderes, a quem vamos recorrer? Não podemos escolher a Polícia Federal nem a Civil se temos um Judiciário comprometido. Isso é fato."

Em alguns dos grupos e eventos visitados pela reportagem, participantes afirmam acreditar que houve fraude no processo eleitoral, mas divergem sobre qual seria a solução "mais democrática" para o problema.

Já Carvalho, que é filiado ao Partido Militar Brasileiro (PMB), acredita que uma intervenção militar seria uma solução contra a corrupção no país.

"Acho que os militares têm que entrar, fazer uma auditoria em todas essas urnas e chamar eleições novamente. Em três meses, no máximo, resolver isso. Tenho certeza que seria rápido, porque no mundo de hoje não cabe ditadura. Hoje o Brasil tem outros interesses, como comércio internacional", diz.

Direito de imagem Reproducao
Image caption Grupos, páginas e eventos no Facebook pedem o que dizem ser uma "intervenção constitucional" contra a corrupção

Segundo o empresário, não há contato oficial com membros das Forças Armadas a respeito do assunto. Ele afirma, no entanto, ter depoimentos de alguns generais e militares da reserva que seriam favoráveis à ideia. "Mas muitos não falam porque podem ser presos".

Procurados pela BBC Brasil, o Ministério da Defesa e o Exército afirmaram que não comentariam o assunto.

Leia mais: Reeleição de Dilma contrasta com intensificação de sentimento antipetista

Argumentos reeditados

Segundo o sociólogo Valeriano Costa, professor de ciência política na Unicamp, a intervenção militar "cirúrgica" que tirou Getúlio Vargas do poder em 1945 e convocou novas eleições – vista por parte da população como positiva –, criou uma "tradição" de episódios deste tipo ao longo dos anos 50 e 60, até a ditadura militar.

"Os militares aceitavam o sistema representativo, mas não aceitavam os resultados. Ficavam indignados com o poder que os populistas tinham de vencer eleições. E as elites liberais, a classe média em geral e setores mais conservadores da sociedade se uniram a eles. Esse é um comportamento um pouco recorrente na sociedade brasileira", disse à BBC Brasil.

"Na época, o argumento principal (a favor de intervenções militares) era que o poder político havia sido corrompido pela corrupção e pelo comunismo. Por isso, o governo eleito seria ilegítimo. O argumento de hoje é quase copiado desse."

Em debates no Facebook, os defensores de uma "intervenção constitucional" citam o artigo 142 da Constituição, que define o papel das Forças Armadas na defesa do Estado e das instituições democráticas.

O próprio texto da norma, no entanto, dificultaria uma ação militar motivada apenas por manifestantes, de acordo com o advogado Dircêo Torrecillas Ramos, professor da USP e especialista em direito constitucional.

"A interpretação gramatical não deixa muita confusão. As Forças Armadas são comandadas pelo presidente da República. A iniciativa de convocá-las tem que ser de um dos três Poderes. E o movimento está querendo a atuação delas contra a presidente da República. Há pessoas instatisfeitas, mas o caminho é outro", disse à BBC Brasil.

Para Valeriano Costa, a ideia de uma intervenção militar também estaria distante dos interesses dos próprios militares brasileiros atualmente.

"Os militares estão bastante bem acomodados em seu papel constitucional. Os últimos governos fizeram muitos investimentos em tecnologia e em rearmamento, e eles agora estão claramente orientados para uma defesa do território do ponto de vista econômico - a defesa das fronteiras e do mar -, portanto mais afastados da esfera política. As Forças Armadas não têm mais interesse, legitimidade nem capacidade para intervir", afirma.

'Pedido de socorro'

Abaixo-assinados em sites como Avaaz e Change.org também exigem o impeachment da presidente e, em alguns casos, intervenção militar – ou mesmo uma do governo norte-americano. Uma petição popular criada por brasileiros no site da Casa Branca pede que o governo dos Estados Unidos "se posicione contra a expansão do comunismo bolivariano promovido pela administração de Dilma Rousseff".

O texto da petição menciona suspeitas de fraude nas urnas eletrônicas e fala de um "plano para estabelecer um regime comunista no Brasil - o molde bolivariano proposto pelo Foro de São Paulo (grupo que reúne organizações e partidos de esquerda latino-americanos, criado pelo PT em 1990)".

Leia mais: 'Associar Bolivarianismo com Socialismo é erro', diz biógrafa de Bolívar

Até o momento, a petição tem cerca de 130 mil assinaturas. A Casa Branca costuma responder a petições assinadas por mais de 100 mil pessoas.

Direito de imagem Reproducao
Image caption Representante do governo americano no Brasil disse que petição de brasileiros "não representa" opinião dos EUA

No entanto, a adida de Imprensa da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Arlissa Reynolds, afirmou ao portal Terra que a página no site da Casa Branca é "destinada a cidadãos norte-americanos para terem a sua voz ouvida pelo governo dos Estados Unidos" e que elas (as petições) "não representam as opiniões do governo" americano.

"A petição para os Estados Unidos foi um pedido de socorro", disse à BBC Brasil a empresária paulistana Vanessa Moraes, de 38 anos, que participa ativamente de grupos e eventos pedindo o impeachment de Dilma Rousseff no Facebook.

"Essa petição é uma garantia do povo brasileiro, porque não podemos nesse momento ter segurança com os meios que deveriam garantir nossos direitos pela Constituição. Como o nosso governo está comprado, a gente quer a ajuda de um governo forte para garantir a democracia."

Moraes, que participou da passeata em São Paulo no último domingo, afirma ser apartidária, mas defende que Aécio Neves seja considerado o legítimo presidente da República. Ela acredita que houve fraude na reeleição da presidente por 51,64% votos, contra 48,36% votos do candidato tucano.

Mas, na segunda-feira, representantes do PSDB se declararam - na imprensa e nas redes sociais - contra as bandeiras de ativistas como Vanessa Moraes e Carlos Carvalho.

Em seu perfil de Facebook, o tucano Xico Graziano, um dos coordenadores da campanha de Aécio, disse ter sido criticado ao se pronunciar contra o impeachment da presidente. "Julguei a causa antidemocrática, não republicana. Não gostei daqueles discursos irados, revanchistas e reacionários", afirmou.

Ele descreveu os manifestantes como "uma corrente que luta para destruir o PT, acusando-o de querer implantar o comunismo por aqui" e disse considerar "absurdo" quando militantes conservadores "exigem que nós, os sociais democratas, encampemos sua ideologia".

Comentando os cartazes pedindo intervenção militar na passeata do último domingo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo que "as pessoas têm o direito de se manifestar, mas é evidente que nós, que lutamos tanto pela democracia, não podemos aceitar esse tipo de coisa".

Em sua página oficial no Facebook, o PT chamou os militantes "às armas virtuais" e pediu que eles se informem para rebater argumentos de quem fala em impeachment ou intervenção militar

Novas manifestações contra a presidente Dilma Rousseff estão marcadas para o dia 15 de novembro, feriado da proclamação da República.

Leia mais: Como não deixar o debate político morrer?

Tópicos relacionados

Notícias relacionadas