Transexual diz ter sido despedida de empresa aérea 'por cara de homem'

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Image caption Lorena González trabalhava em uma companhia aérea e foi dispensada no segundo dia no emprego

"Simplesmente nascemos em um corpo que não é nosso e temos direitos. Por que devemos ficar limitadas a trabalhar em um salão de beleza ou com prostituição?", diz à BBC a transexual Lorena González, de 45 anos.

"Não nos dedicamos apenas ao mundo dos cílios postiços, das plumas e do salto alto. Outras, como eu, têm outras aspirações e queremos ir além."

É assim que a espanhola de origem colombiana explica sua indignação por sua dispensa de um trabalho que ela acredita ter sido motivada por preconceito.

Lorena é aluna do curso de Técnico de Operações Aeroportuárias da Escola Superior de Aeronáutica (ESA), de Madri, e havia começado um estágio como agente aeroportuária da Turkish Airlines, no aeroporto de Madri.

Mas ela conta que, no segundo dia de trabalho, seu coordenador lhe comunicou que a companhia a havia dispensado por acreditar que ela tinha "cara de homem" e que dava "uma imagem negativa para a empresa".

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Lorena relata que ficou em choque e sem reação: "Não sabia o que responder". Para ela, o motivo da demissão foi o fato de ser transexual.

"Se tivessem me dito que não tenho o perfil para o trabalho, teria compreendido. Mas, se me despedem por ser transexual, isso eu não aceito", ressalta.

Em nota enviada à BBC Brasil, a Turkish Airlines nega ter havido algum tipo de preconceito contra a estagiária.

"Neste caso, não existiu nenhum tipo de discriminação, uma vez que a Turkish Airlines realizou o exame dos candidatos ao estágio na empresa, em condições de igualdade, segundo os requisitos técnicos para qualquer aprendiz", esclarece a nota.

A companhia acrescenta que "rejeita qualquer tipo de discriminação, pelo motivo que seja, inclusive a discriminação por sexo" e que, por estar presente em 108 países e ter aproximadamente 20.000 empregados, é "uma empresa com pessoas de todas as culturas, idades, raças e condição sexual".

Procurada pela reportagem, a Escola Superior Aeronáutica não respondeu aos pedidos de entrevista.

Vida discreta, trabalho digno

Lorena afirma que nunca souberam na escola que ela era uma transsexual já que todos seus documentos a identificam como mulher.

"Acho que não tenho de ficar dando explicações. Quando me matriculei, me disseram que estava apta e que cumpria os requisitos e o perfil físico que requer o cargo, como, por exemplo, a estatura", explica.

"Eu me senti muito mal com essa situação, porque sou muito discreta, muito tranquila, uma pessoa normal. E de repente me dizem algo assim. Sei claramente quem sou."

"Vivemos em uma sociedade onde há muita hipocrisia", diz ela.

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Tudo o que Lorena quer é a oportunidade de exercer uma profissão que considera digna: "Se os empresários nos dão (aos transexuais) a oportunidade de nos conhecer, verão que temos muito valor".

Batalha

O portal de notícias Dos Manzanas, voltado para assuntos LGBT, foi o primeiro a divulgar a história de Lorena.

O jornalista Juli Amadeu afirmou à BBC Brasil que acha que Lorena fez bem ao tornar público o caso.

"Quando uma pessoa sofre discriminação por causa de seu aspecto físico ou sua identidade de gênero, isso é denunciável, para evitar que se repita. Infelizmente, esse tipo de preconceito não é um caso isolado", opina.

Desde a rescisão do contrato, Lorena luta para voltar ao estágio. Lorena relata que, por inúmeras vezes, tentou contato com a escola e com a companhia aérea para conseguir reaver o posto.

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Diante das evasivas, procurou advogados e decidiu tornar público o caso, com a ajuda de uma entidade que defende direitos LGBT.

A estudante fez uma petição no site Change.org, no qual exige não ser discriminada por ser transexual e que lhe seja devolvido o estágio. Em poucos dias, quase 75 mil pessoas já assinaram o abaixo-assinado.

"Fiz esse pedido online porque me sinto enganada, prejudicada pela escola, que justifica que não tem nada a ver com a demissão, mas também não fez nada para me defender como sua aluna. Isso me incomoda", explica.

Segundo ela, a direção da escola se comprometeu recentemente a lhe conceder um outro estágio a partir de janeiro, um trato que parece não convencer a estudante.

"Agora tenho de esperar, mas, como sou uma pessoa batalhadora e profissional, vou seguir adiante com o caso."

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