Quatro coisas que você não sabia sobre peixes-dourados

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Image caption Peixes-dourados não eram dourados inicialmente

Peixinhos-dourados raramente instigam o mesmo sentimento entre pessoas se comparados a cães e gatos. Um animal de estimação que não podemos acariciar, que não reage à nossa voz e brincadeiras e que, na verdade, não faz nada além de dar voltas no aquário.

Mas mesmo sendo aparentemente um tédio os peixinhos-dourados também escondem seus segredos. Abaixo, uma lista de quatro curiosidades sobre eles. Alerta: pode incluir álcool.

1. PEIXES-DOURADOS ERAM A JANTA!

Os peixinhos-dourados não eram animais de estimação quando começaram a ser criados. Eram parte da janta.

Os peixes modernos (carassius auratus auratus) são uma versão domesticada da carpa selvagem que vive nos rios da Ásia. Seus ancestrais eram os "chi", que no passado distante foi o peixe mais comumente usado como alimento em toda a China. A coloração dos chi era cinza prateado.

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Image caption Variedade de peixes-dourados é grande, como o "telescópio"

Mas volta e meia, uma mutação genética acabava produzindo peixes em cores brilhantes como vermelho, amarelo ou laranja. No século nove, os monges budistas chineses começaram a manter os "chi" em lagos e piscinas, para protegê-los de predadores.

Segundo uma lenda chinesa, o governador Ting Yen-tsan descobriu um peixe-dourado e amarelado em um lago nas imediações da cidade de Jiaxing. O lago ficou conhecido como "lago da misericórdia".

Na tradição budista, libertar um animal é considerado um ato raro, especialmente se o animal em questão é uma espécie rara. Assim se disseminou a prática de poupar os raros chi coloridos da janta. Muitos foram soltos nos lagos e rios. Estatísticas oficiais mostram que a população do peixe-dourado começou a crescer em 975.

Mas por 100 anos, eles eram exatamente como os chi selvagens. O animal se escondia dos humanos e se recusava a comer qualquer coisa que lhe fosse dada.

2. JARRAS E AQUÁRIOS VIRARAM TECNOLOGIA DE 'MONSTRUOSIDADES'

Por volta de 1240, porém, os peixes-dourados foram domesticados e passaram a ficar diferentes dos chi. Eles eram mais mansos e comiam prontamente o que lhes era dado. Em lagos públicos, os peixes-dourados viviam ao lado de chi, tartarugas e outros peixes.

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Image caption Salamandras estão ameaçadas por causa da disseminação do peixe-dourado

Com tantos peixes-dourados disponíveis, passou a ser fácil cruzá-los e tentar produzir animais com algumas características desejadas. Isso começou em 1163 no palácio de Te Shou, na cidade de Hangchow.

Desse período até o século 16, passou a ser comum guardar peixes-dourados em jarras.

Os nomes das 250 variedades de peixes-dourados que surgiram dão ideia de quão "monstruosos" e "aberrações" (nas palavras da enciclopédia Purnell de animais, de 1969) alguns cruzamentos geraram: cometa, Cauda de veu, celestial, olhos de bolha, escama de pérola, telescópio, pompom, duas caudas (ou cauda de leque), cabeça de leão, peixe ovo, olho de dragão e cabeça de sapo.

3. PEIXES-DOURADOS SÃO 'INVASORES'

Os peixes-dourados se espalharam por rios e lagos de todo o mundo. O chi continua aparecendo nos rios do leste e do centro da Ásia. Mas peixes-dourados aparecem em lugares distantes da sua origem, como Europa, África do Sul, Madagascar e nas Américas. Há também peixes-dourados em rios da Oceania e do Caribe. Acredita-se que as populações se disseminaram a partir de animais de estimação que foram libertados no meio ambiente.

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Image caption Aquários e jarras eram usadas para criar novas espécies

Na Europa, eles são uma ameaça a uma espécie nativa de carpa, por se cruzarem com elas. Os peixes-dourados também "varrem" os rios de algumas plantas aquáticas usadas por outras espécies.

Em 2001, uma pesquisa mostrou que peixes-dourados comem as ovas e larvas de uma espécie de salamandra. Muitos peixes-dourados não fazem isso de forma instintiva, mas o estudo mostrou que eles aprendem com outras espécies. Ao ver alguns peixes comendo ovas, eles imitam o ato. Esse apetite aprendido é suficiente para aniquilar algumas espécies.

4. ELES NOS AJUDAM A ENTENDER NOSSA VISÃO E ATÉ MESMO O ALCOOLISMO

Peixes-dourados são comuns em laboratórios - por assimilarem tarefas facilmente e por existirem em abundância na natureza.

Eles são uma das espécies mais usadas para estudos sobre cognição e percepção visual. Acredita-se que os peixes-dourados vêem as mesmas cores que os humanos - algo que nem mesmo os primatas conseguem. A visão da cor azul é prejudicada nos primeiros anos de vida, mas isso melhora com o tempo. Esse mesmo padrão é observado em humanos.

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Image caption Peixes-dourados são valiosos para pesquisa em ciência

Os peixes-dourados possuem até mesmo uma vantagem: eles têm quatro receptores de cores (um a mais que os humanos), o que permite que eles vejam luzes ultra-violetas.

Estudos sobre o efeito do álcool no corpo e no cérebro também são conduzidos em peixes-dourados. Isso porque a concentração de álcool em seu sangue é rapidamente assimilada da água em que eles estão nadando.

Em 1969, o cientista Ralph Ryback, do Boston City Hospital, testou a habilidade dos peixes-dourados de aprender quando estão embriagados. O teste mostrou que peixes nadando em uma solução com uísque tiveram mais perdas de sentidos do que aqueles que nadaram em um copo com vodca.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.

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