Como Assad resistiu a sanções dos EUA e 4 anos de guerra

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Image caption O presidente Assad: muitos apostavam em deserções, mas lealdade das tropas ajudou a manter o regime

Há quase quatro anos, no início da guerra na Síria, poucos previam que o presidente do país, Bashar al-Assad, fosse capaz de se manter no poder.

No início de 2011, a repressão violenta de manifestações de rua contra o presidente Assad acabaram servindo de gatilho para uma sangrentas guerra que matou mais de 200 mil pessoas e não parece estar perto de seu fim.

Armada, contando com o apoio de potências ocidentais e inspirada nos eventos das chamada Primavera Árabe - que derrubou os presidentes de Tunísia, Egito, Iêmen e Líbia - a queda do regime Assad, fundado pelo seu pai na década de 70, parecia certa.

Mas Assad sobreviveu, o que teria sido impossível se ele não contasse com um certo grau de apoio popular, segundo analistas. E ele não apenas se manteve no poder como passou a ser visto por vários países - inclusive os Estados Unidos - como importante aliado no combate ao avanço do grupo jihadista autodenominado "Estado Islâmico" (EI) no Oriente Médio.

Apoio popular

Há cerca de seis semanas, o Exército sírio recapturou Adra, uma cidade-satélite de Damasco. Muitos partidários do presidente vivem ali. Na maioria, são empregados de estatais que receberam moradia barata.

Adra foi fortemente destruída na batalha que expulsou rebeldes armados, liderados pela Frente Nusra, um braço da Al-Qaeda.

Mohammad Raja Mahawish, topógrafo de 40 anos de idade, ficou preso no porão de seu bloco de apartamentos com esposa, filhos e outras 60 pessos, nos 22 dias seguintes à tomada da cidade pelos rebeldes, há quase um ano.

De pé no porão úmido onde ficou detido, Mahawish condenou os levantes de 2011.

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"A Primavera Árabe", disse ele, "foi utilizada para enganar as pessoas e causou um monte de problemas em nosso país. Os chefes de família perderam suas propriedades, assim como os proprietários de fábricas, as pessoas que estavam sonhando com um futuro brilhante para seus filhos, boas escolas, universidades, casamento, tudo se perdeu nos últimos três a quatro anos, em que fomos levados de volta à era dos dinossauros."

"Na verdade", diz ele, "os dinossauros eram mais civilizados do que os rebeldes". Antes de Mahawish sair de Adra com sua família e vizinhos, a Frente Nusra e seus aliados, diz ele, impôs um reinado de terror.

"Imagine estar em uma situação em que a qualquer momento alguém pode matar você, seus filhos e sua esposa, ou estuprá-la."

Lealdade

Nos primeiros anos da guerra, Assad passou por momentos difíceis e chegou a perder o controle de grandes áreas do país. Mas o seu regime tem sido surpreendentemente resistente.

Ele conta com apoio militar, diplomático e financeiro do Irã, da Rússia e o do grupo libanês Hezbollah. Mas, mais importante é que ele conta com apoio da maioria das minorias na Síria e com apoio suficiente de parte da maioria sunita.

Isso ajudou a garantir a lealdade de parte das Forças Armadas, outro fator crucial. Havia a previsão de deserções em massa nos primeiros anos da guerra, mas ela nunca vieram.

No labirinto de passagens, passarelas sobre sacos de areia e casas incendiadas na linha de frente em Damasco, soldados sírios endurecidos pela batalha lutam uma guerra de contato com os rebeldes armados.

E no que está sendo visto como uma importante demonstração de força, tropas leais a Assad estão prestes a retomar a segunda cidade síria, Aleppo, informa, do front, a correspondente-chefe da BBC na região, Lyse Doucet.

Como seus opositores também ganham terreno no sul do país, nada indica que alguém esteja levando vantagem na queda de braço.

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Image caption Membro da Defesa Civil caminha sobre escombros após um suposto ataque aéreo das forças do governo em Aleppo.

Mas a retomada de Aleppo é importante. Trata-se do coração industrial do país e a isso deve reafirmar a aliança dos empresários locais com Assad.

Em entrevista à BBC, o presidente da Câmara Industrial da Síria, Fares Shihabi, disse não ver contradição no fato de ataques de tropas do governo causarem perdas de civis.

Diante da iminente retomada de Aleppo, Shibabi celebrou a conquista e afirmou que "sim, as bombas (do governo) mataram alguns civis, mas o alvo são milícias, o Estado Islâmico (IE), a Al-Qaeda, e toda a presença terrorista".

'Todo mundo' contra o 'Estado Islâmico'

Se o ódio e o medo a esses "alvos" ajudou a cimentar boa parte do apoio interno a Assad, também ajudou a fortalecer sua mão no complicado pôquer do jogo de interesses no Oriente Médio.

O vice-ministro do Exterior, Faisal Mekdad, não cansa em repetir que "todo mundo" deveria se aliar para combater o "Estado Islâmico" e outros grupos terroristas, em uma ação "coordenada e independente de coalizões".

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No começo da guerra, Assada argumentava que a revolta contra ele seria consequência de uma conspiração estrangeira, uma aliança "cínica" de jihadistas e amigos de Israel que queriam destruir o Estado sírio.

EUA, Reino Unido, França e Arábia Saudita defendiam sua saída, em nome de uma reforma democrática que respondesse, supostamente, aos anseios da maioria da população.

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Image caption Refugiados sírios: mais de 50% da população deixaram suas casas.

Mas, a partir do momento em que grupos jihadistas passaram a dominar a luta contra seu regime, seu argumento de que os sírios teriam uma escolha a fazer - entre seu regime secular e extremistas religiosos - fez a maré mudar, tanto em casa quanto fora dela.

Se este é o entendimento a prevalecer, é outra história. O desfecho do drama é aguardado com ansiedade pelos mais de 11 milhões de sírios, praticamente metade da população, forçados a deixar suas casas, pelo três milhões que fugiram do país e pelos vizinhos Turquia e Jordânia, que já dão sinais de que não têm mais como abrigar tantos refugiados.

É um drama acompanhado com ansiedade também pela ONU, que tem um novo plano de cessar-fogo, em um estágio precoce.

Tentativas diplomáticas de parar a guerra, ou mesmo retardá-la, falharam. Conexões da Síria com o resto do Oriente Médio, e as rivalidades entre as grandes potências, não deixaram espaço para a diplomacia.