Dia da Consciência Negra tem 'invasão' e muda cenário da praia do Leblon

Image caption Mais de 500 pessoas que estavam em um acampamento do MTST em São Gonçalo participaram do ato

Mais de 500 pessoas que recentemente encerraram a ocupação Zumbi dos Palmares, um acampamento organizado pelo MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, lotaram na tarde desta quinta-feira um trecho da praia do Leblon, bairro nobre da Zona Sul da capital, em um protesto por moradia.

Segundo integrantes do grupo, o ato foi tanto uma comemoração quanto uma manifestação.

"Por um lado estamos comemorando o acordo assinado na semana passada, quando recebemos a promessa de que nossas casas vão sair do papel. Por outro, estamos aqui para protestar por moradias dignas no Brasil, e pelo respeito ao pobre e ao negro”, diz Elisabeth dos Santos, de 52 anos, que mora com outras 19 pessoas numa casa com quarto, sala, cozinha e banheiro.

"O pobre não sabe a força que tem. Só quando se une, é que ele se dá conta. Não é tarde não, isso aqui é só o começo”, diz, lembrando que a maioria dos membros da ocupação nunca tinha pisado nas areias diante do bairro com o metro quadrado mais caro do país.

Image caption A enfermeira Danielle Gomes, de 35 anos (óculos na cabeça), diz que o aluguel compromete muito da sua renda e que as dificuldades a forçaram a juntar-se à ocupação do MTST

Para Carlos Augusto Melo da Silva, de 23 anos, um dos líderes do MTST que ajudou a organizar o protesto, o objetivo é denunciar a segregação racial e de espaços físicos e sociais sofridas pela população pobre e negra no Rio.

"Vir para uma praia como essa é um dos poucos artifícios que esse pessoal tem para chamar a atenção. Veja se a mídia não está toda aqui”, diz.

Marcha e 'primeira vez'

Dez ônibus trouxeram as mais de 500 pessoas de São Gonçalo, município vizinho a Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara, à praia de Ipanema, no Rio, na manhã de quinta-feira.

Por volta do meio dia, o grupo começou a marchar, e de forma pacífica entrou na praia na altura da rua Afrânio de Melo Franco, já no Leblon. A Polícia Militar e a Guarda Municipal acompanharam a movimentação, mas tanto a marcha quanto a chegada à praia transcorreram sem problemas ou violência.

Image caption Elisabeth dos Santos lembrou que a maioria dos membros da ocupação nunca tinha pisado nas areias do bairro

Aos gritos de "quem não pode com a formiga, não atiça o formigueiro”, e munidos de bandeiras, toalhas e sombrinhas, a multidão foi aos poucos achando um lugar entre os habituais frequentadores da praia.

"Alguns olhavam para nós assustados. Achavam que era arrastão, e saíam correndo. Outros não entendiam direito o que estava acontecendo, mas ainda ficaram onde estavam”, conta Maria de Fátima, de 52 anos, uma das integrantes do protesto.

Carlos Augusto, do MTST, diz que a grande maioria nunca havia estado ali. "Perguntamos nos ônibus, para fazer uma sondagem. Dos poucos que já haviam ido ao Leblon, a maioria tinha vindo só para trabalhar. Pegar praia aqui, mesmo, é a primeira vez para quase todos”.

Farofa, pagode e reações

Image caption O morador do Leblon Carlos Eduardo Caminha não viu problema no ato: "A praia é democrática, é para todos."

O carioca Carlos Eduardo Caminha, de 42 anos, que mora no Leblon, foi dos que decidiram ficar por perto. "Não vejo problema. A praia é democrática, é para todos. Ficamos um tempo ali no meio, e depois viemos só um pouco mais para o mundo, por conta da música alta. Mas acho válido, acho que é o direito de todo mundo”, diz.

Já para a paulistana Heloíse da Silva, de 31 anos, que veio passar o feriado no Rio, a reação foi diferente.

"Achei ridículo. As autoridades, os governantes, de quem eles querem chamar a atenção, não estão aqui. Não entendo como invadir a praia e fazer esse barulho todo, atrapalhando quem veio curtir o feriado, possa ajudar de alguma maneira”, diz.

O fato é que, pouco mais de uma hora após a chegada, o trecho já não contava com praticamente nenhum dos habituais frequentadores da praia, tomando mate com biscoito ou comendo esfihas.

Image caption Uma das integrantes do protesto, Maria de Fátima (esq.) disse ter percebido que alguns pessoas acharam que o ato era um arrastão

Ao contrário, dezenas de crianças curtiam o mar e a areia, enquanto os adultos saboreavam as marmitas com arroz, feijão, frango, farofa, cerveja e refrigerante.

Ainda sob olhares desconfiados no entorno, a multidão se mostrava disposta a curtir o feriado e comemorar a boa notícia recente, engatando um bom pagode regado a cervejinha.

"É claro que de início assusta, eles não estão acostumados a ver tanto pobre e preto de uma vez só. Mas depois viram que não era nada demais”, diz Niudineia dos Santos, de 61 anos, que conta ter ouvido a frase "lá vêm esses tralhas fazer tumulto”, logo na chegada à praia.

Em agosto de 2000, numa iniciativa semelhante, um grupo registrou no documentário "Hiato” a chegada de moradores de uma favela ao shopping Rio Sul, em Botafogo, munidos de sanduíches de mortadela e refrigerante. Muitas lojas fecharam as portas e os manifestantes relataram preconceito por parte de atendentes.

Promessa de moradias

Image caption A paulistana Heloíse da Silva achou o protesto 'ridículo' e diz não entender como ele pode ajudar de alguma maneira

O grupo de mais de 500 integrantes representa as cerca de 1.400 pessoas que montaram um acampamento num terreno baldio em São Gonçalo, no Grande Rio, por quase duas semanas, e que na quarta-feira (12) passada recebeu uma boa notícia.

Em parceria com a Secretaria-Geral da Presidência da República, a prefeitura de São Gonçalo firmou um compromisso de construir 1.000 moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, na modalidade "Entidades”.

Carlos Augusto, do MTST, explica que nesta modalidade um movimento social se encarrega de auxiliar em todo o processo, da seleção do terreno à finalização do projeto.

"Dessa forma vamos incluir muitas dessas pessoas já nas obras. Muitos que estão desempregados vão poder trabalhar na construção das suas próprias casas”, diz.