Levy é confirmado para Fazenda, mas analistas questionam se terá autonomia

Joaquim Levy em foto de 2004, quando era secretário do Tesouro (Ag Brasil) Direito de imagem Ag Brasil
Image caption Levy foi secretário do Tesouro no governo Lula (acima)

Após semanas de expectativa, especulações e polêmicas, o governo confirmou nesta quinta-feira sua nova equipe econômica.

Joaquim Levy, ex-secretário do Tesouro Nacional, será o novo ministro da Fazenda no lugar de Guido Mantega no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

Nelson Barbosa, que foi secretário-executivo da Fazenda, será o novo ministro do Planejamento. E o atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, permanece no cargo.

Levy até agora administrava um dos braços do banco Bradesco, o Bradesco Asset Management, e teria sido escolhido depois de o presidente do mesmo banco, Luiz Carlos Trabuco, ter declinado o convite, segundo os jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico.

A escolha de seu nome provocou críticas nos setores do PT alinhados mais à esquerda.

Ex-aluno de Armínio Fraga - principal assessor econômico do PSDB durante a campanha presidencial - ele é visto como um adepto do liberalismo econômico, que prega uma menor intervenção do Estado na economia, linha criticada por Mantega.

Levy comandou o Tesouro na gestão do ex-ministro Antonio Palocci, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o governo buscava conquistar a confiança dos mercados financeiros.

Engenheiro naval de formação, com mestrado e doutorado em economia pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, ele já deu aulas na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e integrou os quadros do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Em entrevista coletiva nesta quinta, Levy afirmou que não vai detalhar ainda o "receituário" econômico a ser seguido em seu mandato, mas sinalizou que haverá cortes de gastos para reequilibrar as contas do governo e cumprir as metas de superávit fiscal (economia para pagamento dos juros da dívida), porém "sem grandes surpresas ou pacotes" e articulando-se com os demais órgãos do governo e unidades da federação.

Segundo o novo ministro, o setor público se comprometerá com uma meta de superávit fiscal de 1,2% em 2015 e pelo menos 2% do PIB em 2016 e 2017, para assegurar a continuidade da redução da dívida do setor público em relação ao PIB.

"As escolhas serão feitas para que os agentes (socioeconômicos) possam tomar decisões sabendo que o governo opera dentro de seus recursos", declarou.

Nelson Barbosa afirmou que o equilíbrio econômico (ou seja, eventuais cortes de gastos) não é contraditório, mas sim compatível com o avanço social dos últimos anos, porque esses avanços são justamente dependentes "da capacidade do governo em produzir resultados primários" - em outras palavras, na capacidade do governo de poupar.

Autonomia

Na avaliação de Felipe Salto, economista da Tendências Consultoria, a escolha de Levy é "um passo na direção certa", mas sua maior dificuldade será a "interlocução com a presidente".

"Levy conjuga a experiência no setor público à da iniciativa privada. É extremamente qualificado. Mas não é o salvador da pátria. Qual será o espaço político que ele terá para fazer as tão esperadas reformas? O governo estará disposto a lhe dar carta branca para tomar medidas duras, mas necessárias, para cobrir o rombo fiscal?", questiona.

Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, concorda.

"Levy é um economista excepcional. Mas há dúvidas sobre se terá autonomia em relação a presidente para fazer as reformas necessárias", afirma.

Já André Pereira Perfeito, economista-chefe do Gradual Investimentos, acredita que ainda é cedo para fazer essa avaliação, já que a equipe completa e as medidas a serem tomadas por Levy ainda não foram anunciadas.

"O anúncio do ministro é a cereja do bolo, mas ainda não sabemos do bolo inteiro", diz.

Questionado na entrevista coletiva sobre sua autonomia, Levy declarou que "não faz muito sentido" falar sobre o tema no momento. "A questão será respondida no dia a dia. Mas se a equipe foi escolhida (para a condução da economia) é porque há confiança nela", declarou.

Cenário difícil

O novo ministro assumirá o cargo em meio a um cenário difícil: a inflação ronda o teto de 6,5% estabelecido pelo Banco Central, a economia está quase estagnada e o governo já admitiu que não deve atingir as metas fiscais deste ano.

Na tarde de sexta-feira, quando colunistas de sites e jornais já aventavam a possibilidade de Levy ser escolhido, o mercado reagiu positivamente: a bolsa fechou com forte alta, de 5,02%, e o dólar caiu 0,9% para R$ 2,52.

Para Perfeito, o motivo é que a escolha de um nome para a Fazenda reduz as incertezas do mercado quando à condução da economia.

"Com isso, o mercado para de especular e a volatilidade diminui", diz.

"Além disso, Levy parece ser capaz de traduzir programa de governo de Dilma para os agentes financeiros. Mas tem um desafio muito grande: cuidar da área fiscal sem deixar a economia retrair."

O anúncio oficial da equipe econômica era esperado para a última sexta-feira, mas foi adiado pelo Planalto.

Analistas acreditam que o governo queria primeiro aprovar o projeto de alteração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) no Congresso.

A alteração é necessária pois, frente à queda da arrecadação e o aumento das despesas, o governo não conseguirá atingir a meta de superávit primário neste ano, a economia para pagar os juros da dívida.