Lanchonete sofre ameaça nos EUA por servir comida palestina

Restaurante palestino em Pittsburgh
Image caption O projeto Conflict Kitchen não se resume aos pratos e até a decoração varia de acordo com o 'país inimigo' abordado

Ao criar um restaurante que serve apenas comida de países que estão em conflito com os Estados Unidos, os idealizadores do Conflict Kitchen já esperavam polêmica.

O que talvez eles não imaginassem é que o local tivesse que ficar fechado por quatro dias após receberem ameaças de morte.

O episódio marcou o auge de uma polêmica criada pela lanchonete junto à comunidade judaica de Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, em função da decisão de servir pratos típicos da cozinha palestina.

Foi a primeira vez que a Cozinha do Conflito (em tradução livre) experimentou algo maior do que a mera curiosidade de clientes.

Parte de um projeto artístico e gastronômico, a lanchonete se especializa em cardápios típicos de países que ou são inimigos dos EUA ou não mantêm boas relações com Washington.

Embora não estejam em guerra com a Palestina, os EUA têm uma aliança histórica com Israel e não reconhecem o estado palestino.

Depois de servir pratos de Venezuela, Cuba, Irã, Afeganistão e Coreia do Norte, a lanchonete voltou suas atenções para a culinária palestina.

Protestos

O que não incluiu apenas servir pratos como o quibe ou mahashi (legumes recheados com arroz): especializada em comida para viagem, a Cozinha do Conflito não tem embalagens convencionais.

Isso significou embrulhar a comida com folhetos trazendo entrevistas com palestinos, muitos deles entrevistados especialmente pela equipe da lanchonete em "viagens de reconhecimento" à Cisjordânia.

Uma decisão que foi imediatamente criticada por setores da comunidade judaica de Pittsburgh. O presidente da Federação Judaica da cidade, Gregg Roman, por exemplo, acusou a Cozinha do Conflito de usar o conflito entre Israel e Palestina para fazer publicidade. Em um comunicado oficial, Roman afirmou que a lanchonete "dissemina propaganda destinada a instigar israelenses e judeus".

Direito de imagem Conflict Kitchen
Image caption Rubin e sua equipe estiveram na Cisjordânia e usaram entrevistas com palestinos na embalagem da comida

A organização, no entanto, também repudiou as ameaças de morte feitas à lanchonete e a seu dono, Jon Rubin.

Rubin, que é judeu, viu nas reações um tipo de censura.

"Há certos grupos que querem ver a perspectiva pró-Israel prevalecer sobre a pró-Palestina. Eles ignoram nossa premissa, que é a de abordar aspectos culturais e pontos de vista de países que estão em conflito com os Estados Unidos", disse Rubin à BBC Mundo.

As ameaças fizeram com que a polícia de Pittsburgh recomendasse o fechamento temporário.

Temática, a Cozinha do Conflito faz um extenso trabalho de pesquisa para recriar a culinária "inimiga". Rubin e seu chef, Robert Sayre, se reúnem com integrantes da comunidades imigrantes dos países em foco, já que nem sempre é possível ou seguro viajar para tais localidades.

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"Os palestinos com quem conversamos estavam muito emocionados com a ideia de que alguém deu atenção à cozinha deles", contou Rubin, para quem a cultura dos palestinos está sub-representada nos Estados Unidos.

Próxima parada: Cuba

Mas o projeto da Cozinha do Conflito não fica apenas na comida. Recentemente, Rubin organizou um evento pró-Palestina na Universidade de Pittsburgh, o que rendeu críticas do jornal The Jewish Chronicle, o maior jornal da comunidade judaica americana.

Image caption A Conflict Kitchen também já teve um período especializado em comida da Coréia do Norte

O jornal classificou o evento como uma "demonstração de parcialidade que logo se transformou numa condenação de Israel".

Já a ONG judaica B'nai B'rith International foi além e enviou uma carta de protesto à Fundação Heinz Endowements, questionando uma doação de US$ 50 mil feita para a Cozinha do Conflito - a organização acusou a Heinz de estar financiando um projeto que "faz propaganda contra Israel".

A Heinz Endowements é presidida por Theresa Heinz Kerry, mulher do secretário de Estado dos EUA, John Kerry, envolvido diretamente no processo de paz no Oriente Médio.

Em comunicado, a fundação criticou o que viu como sentimentos anti-israelenses no projeto de Rubin.

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"O objetivo era dar uma ideia mais ampla e real de uma comunidade pouco conhecida e que pode ser vista como inimiga", defendeu-se o idealizador da Cozinha do Conflito.

Image caption A proposta da Conflict Kitchen é mostrar também aspectos culturais dos países abordados

Mas Rubin também teve motivos para tirar ânimo em meio à polêmica. Nos dias em que fechou fechada, a lanchonete de Pittsburgh foi "abraçada" por clientes que reuniam em frente à ela todos dos dias. Muitos deixaram mensagens de apoio na vitrine.

Rubin, porém, já se prepara para enfrentar outro forte lobby nos EUA: os da imensa comunidade imigrantes cubanos que se instalou nos EUA após a revolução que em 1959 levou Fidel Castro ao poder na ilha caribenha. Os EUA mantém desde os anos 60 um embargo econômico a Cuba.

"Há muitas esperanças de que o presidente Barack Obama possa levantar o embargo ou algumas restrições", acredita Rubin.

Sendo assim, depois da polêmica provocada por hummus e falafels, a Cozinha do Conflito voltará suas panelas e baterias mais uma vez para o leitão com feijão preto.

Mas a mudança só ocorrerá em março. Até lá, a homenagem aos palestinos seguirá provocando polêmica em Pittsburgh.

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