Grande júri decide não acusar policial por morte de jovem negro em Ferguson

Crédito: Arquivo pessoal Direito de imagem Arquivo pessoal

O grande júri de St. Louis, subúrbio de Ferguson (Estado americano do Missouri), optou por não acusar o policial Darren Wilson pela morte do jovem negro Michael Brown, de 18 anos, em agosto passado. Testemunhas afirmam que Brown estaria desarmado no momento dos disparos.

A decisão foi anunciada nesta segunda-feira pelo promotor do condado de St Louis, Bob McCulloch, com um pequeno atraso, por volta das 20h15 locais (0h15 de Brasília) em um tribunal em Clayton, no Missouri.

"Darren Wilson não será acusado em conexão à morte de Michael Brown ocorrida em 9 de agosto em Ferguson", afirmou McCulloch.

Segundo ele, o júri trabalhou "intensamente" durante os últimos meses e encontrou inconsistências no depoimento das testemunhas que incriminavam Wilson.

"Não há dúvida de que Darren Wilson matou Michael Brown. Darren Wilson foi o agressor inicial. Mas foi autorizado a usar força letal em autodefesa", afirmou McCulloch.

Pouco tempos depois do anúncio, foram registrados episódios de violência nas proximidades de Ferguson, como tiros e vandalismo.

Em nota enviada à imprensa, a família de Brown afirmou que ficou "profundamente desapontada que o assassino de seu filho não enfrentará a consequência de suas ações".

"Juntem-se a nós em nossa campanha para que todo policial nas ruas desse país use uma câmera acoplada a seu corpo. Nós respeitosamente pedimos que vocês, por favor, protestem pacificamente. Responder violência com violência não é a reação mais apropriada", informou o comunicado.

"Não vamos fazer apenas barulho; vamos fazer a diferença", acrescentou a nota.

Em pronunciamento na Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez um apelo por protestos pacíficos.

"Junto-me aos pais de Michael para pedir a quem queira protestar que proteste pacificamente. Faço um apelo às forças de segurança de Ferguson por cuidado e moderação ao agir contra protestos pacíficos", afirmou Obama.

O grande júri era responsável por decidir se Wilson deveria ser acusado de quatro possíveis crimes: assassinato em primeiro degrau, assassinato em segundo grau, homicídio voluntário e homicídio involuntário.

Pelo menos nove dos 12 membros do júri deveriam ter votado 'sim' para que o policial fosse acusado.

O júri era formado por 12 cidadãos escolhidos aleatoriamente – seis homens brancos, três mulheres brancas, um homem negro e duas mulheres negras.

Protestos

A morte do jovem provocou uma onda de protestos, muitas vezes violentos, em meio a críticas sobre os armamentos usados pela polícia para reprimir as manifestações.

Na semana passada, o governador do Missouri, Jay Nixon, declarou Estado de emergência na área e convocou 400 militares da Guarda Nacional em antecipação a protestos caso não houvesse acusações formais no caso. Ele também havia pedido moderação antes do anúncio.

Mais cedo, um porta-voz da Casa Branca afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu que aqueles que quisessem protestar optassem por manifestações pacíficas.

O caso trouxe à tona novamente tensões raciais nos Estados Unidos. Muitos integrantes da comunidade afro-americana no país pediram que Wilson fosse acusado de assassinato.

Testemunhas afirmam que Brown estava com as mãos para cima em aparente rendição quando o policial atirou contra ele.

A polícia, por outro lado, afirma que houve um embate entre o jovem e o policial antes dos disparos fatais.

Respeito e moderação

Protestos foram registrados na região nos últimos dias à espera da decisão do grande júri, incluindo em Clayton, onde os jurados estavam reunidos.

A polícia montou barricadas ao redor do tribunal, enquanto muitos estabelecimentos comerciais optaram por fechar as portas momentos antes do anúncio.

Manifestantes se reuniram em torno do departamento de política de Ferguson cantando: "Mãos ao alto, não atire".

Na noite desta segunda-feira, antes do anúncio, Nixon afirmou esperar que todos os lados mostrassem "tolerância, respeito mútuo e moderação", acrescentando que autoridades estavam focadas em tentar "proteger vidas, proteger a propriedade e proteger a liberdade de expressão".

Ele disse que muitas igrejas poderiam se tornar portos seguros, fornecendo comida e abrigo, e que autoridades de saúde estavam à disposição para ajudar a "aliviar a tensão mental que esses eventos causaram".

A família de Brown também fez um apelo para que as pessoas mantivessem a calma ante a decisão do grande júri.

O pai do jovem afirmou em um vídeo postado na Internet que "ferir os outros ou destruir propriedades não é a resposta".

Na segunda-feira, a família pediu quatro minutos e meio de silencia após a decisão do júri, aparentemente em alusão às mais de quatro horas que o corpo de Michael Brown permaneceu deitado no chão.

O manifestante Bryon Conley, de 51 anos, afirmou à agência de notícias Reuters: "Espero que podemos fazer isso em um caminho pacífico".

"Não quero que ninguém olhe a nossa pequena cidade pensando que somos um bando de animais selvagens. Somos boas pessoas", disse.