Vale a pena morar a centenas de quilômetros do trabalho?

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Image caption Avanço tecnológico e custos menores permitem estilo de vida que era impraticável no passado

Gerad Kite passava seus intervalos de almoço do trabalho na movimentada Marylebone Road, na região central de Londres, em meio ao caos e poluição do trânsito. Hoje em dia ele consegue passar alguns de seus almoços de trabalho no jardim de sua bela casa ao estilo do século 17 no sudoeste da França.

Kite não abandonou seu emprego. Mas ele faz parte de um grupo crescente de pessoas que viajam longuíssimas distâncias – nem sempre diariamente – para trabalhar.

No caso de Kite, a cada duas semanas, ele voa 965 quilômetros da França até Londres para lidar com seus clientes, por vários dias seguidos. Ele aluga um quarto perto do trabalho quando está em Londres.

Sua renda disponível caiu bastante com a decisão de viajar para trabalhar, mas ele diz que parte disso é compensado pelo fato de que o custo de vida no sudoeste da França é muito inferior a Londres.

"E tenho um estilo de vida melhor", diz Kite.

Avanços tecnológicos e custos menores de transporte facilitaram esse tipo de vida, que era impensável há alguns anos.

Na Europa, companhias aéreas como a Easyjet e Ryanair possuem mais de mil rotas, algumas delas com passagens inferiores a R$ 100. O valor é semelhante ao cobrado por um cartão semanal do metrô de Londres. A Easyjet estima que 12 milhões de seus passageiros anuais são pessoas que estão indo de casa para o trabalho.

Entre 2002 e 2009, o número de pessoas que optaram em morar longe do trabalho cresceu 60% em Manhattan, segundo estudos do centro Rudin para Transportes da Universidade de Nova York. A maior parte dessas pessoas, estimadas em 59 mil, mora na Filadélfia, que fica a 161 quilômetros da ilha.

Há casos extremos em algumas cidades. A polícia metropolitana de Londres empregava um oficial que morava na Nova Zelândia. Ele passava dois meses no seu país – a 19 mil quilômetros – e dois meses na capital britânica.

No Golfo Pérsico, onde há várias indústrias petrolíferas, muitas pessoas costumam morar no Líbano, que fica a três horas de avião dali.

'Despertar'

Para David Furlong, que recentemente comprou uma propriedade no sul da França, só foi possível fazer isso e manter seu emprego em Londres porque seu empregador aceitou que ele trabalhasse um dia por semana de casa. Ele fica apenas de segunda a quinta em Londres.

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Image caption Gerad Kite está feliz vivendo na França e viajando quase mil km para Londres

Os custos são maiores, já que ele também precisa manter um apartamento em Londres. Mas ele diz que a vida é mais calma nos finais de semana, e que ele tem mais tempo de sol no sul da França. Tudo isso, para ele, compensa os custos.

Ele disse ter "despertado" para a importância da qualidade de vida depois de ver alguns colegas seus falecerem após anos de trabalho estressante.

"Eu disse para mim mesmo que precisava mudar algo. Era sobre encontrar um equilíbrio na vida", disse ele.

Vida pessoal

A americana Megan Bearce escreveu um livro, chamado Super Commuter Couples: Staying Together When a Job Keeps You Apart, sobre casais que ficam juntos mesmo quando a distância entre o emprego e a moradia é grande.

O marido dela conseguiu o seu emprego dos sonhos em Nova York – a 1,6 mil quilômetros de Minneapolis, onde eles moram. Inicialmente parecia que seria um grande desafio, mas hoje, quatro anos depois, eles estão felizes.

Ela diz que caso a família tivesse decidido ir para Nova York, o salário mais alto não compensaria os custos de vida mais caros.

Mas nem todos vivem assim por escolha própria. Eudalds Ayats, um engenheiro químico de Barcelona, viaja semanalmente para Bruxelas, uma viagem de avião que dura duas horas. Ele não teria oportunidade de emprego na Espanha, mas também não quer se separar de sua parceira.

"Nós temos uma situação financeira melhor e ambos amamos nossos empregos", conta. "O equilíbrio entre trabalho e vida pessoal ficou extremo para mim. De segunda e sexta, estou em modo de trabalho completo, o que significa trabalhar longas horas. Da noite de sexta até domingo, estou totalmente no modo família, em que trabalhar é totalmente proibido, salvo algumas exceções."

Dicas

Quem tem um estilo de vida assim recomenda cautela.

"Tenha sempre um plano B para depois de seis meses, caso você descubra que não está funcionando", diz Bearce.

Kite recomenda que a pessoa sempre faça um período de testes antes de assumir compromissos permanentes.

O consultor Terrence Karner, que viaja entre Chicago e Nova York, diz que é importante estar ciente das necessidades de seus familiares.

"É muito, muito importante respeitar o tempo e os compromissos da minha mulher quando não estou lá com eles", diz.

Ele afirma que no começo se sentiu muito solitário, e que ficava triste quando sua mulher não tinha tempo para falar com ele ao telefone, mas que era preciso entender que ela estava cuidando da casa e das crianças.

Mesmo assim, ele diz que tudo compensa.

"Talvez seja um clichê dizer isso, mas é assim que funciona a economia global hoje em dia."

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