Sequestro de general gerou especulações e suspendeu negociações com as Farc

Foto: Ministério da Defesa da Colômbia Direito de imagem BBC World Service
Image caption Na primeira imagem divulgada após libertação, general Alzate Mora (à direita) e os outros reféns conversam com o ministro da Defesa colombiano e comandantes militares

Quando Rubén Darío Alzate Mora foi interceptado por guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, no distante Departamento (Estado) de Chocó, ele não carregava armas e estava vestido como civil.

Mas, o general de 55 anos, que se deslocava pelo rio Atrato acompanhado pelo cabo Jorge Rodríguez e a advogada Gloria Urrego, acabaria se transformando no militar de mais alta patente capturado pela guerrilha em mais de 50 anos de conflito armado na Colômbia.

Este golpe inesperado, às vésperas do segundo aniversário do início das negociações entre o governo e as Farc, levaria à suspensão imediata do processo de paz.

Além disso, a pergunta na ocasião do sequestro era: o que fazia um general do Exército de deslocando por uma "zona vermelha" sem escoltas, quando seu protocolo de segurança exige um mínimo de 80 militares?

Mas, é possível que a resposta esteja na missão, credenciais e experiência de Mora, comandante da Força-Tarefa "Titã", que trabalhava nesta zona desde janeiro deste ano.

Mesmo levando este fato em conta, as circunstâncias do sequestro alimentaram as especulações.

E o Senado colombiano já informou que, agora que Mora e os outros reféns foram libertados neste domingo, vai convocar o general para que ele explique as circunstâncias estranhas de sua captura, que não apenas o colocou em perigo, mas arriscou também todo o processo de paz com as Farc.

Experiência

Mora nasceu no Departamento vizinho a Chocó, Valle del Cauca, e começou sua carreira militar depois de se formar na Escola Militar de Cadetes Geral José María Córdoba, em 1983.

Em mais de 31 anos de serviço ocupou diferentes cargos nas Forças Armadas colombianas, entre eles, o de comandante do Grupo Anti-sequestro e Extorsão (Gaula), o que significa que trabalho de inteligência não é algo estranho a ele.

Mora também participou de vários cursos nos Estados Unidos para combater insurgentes.

Foi o próprio presidente colombiano, Juan Manuel Santos, que, no começo do ano, pediu ao militar, ex-membro do Estado Maior Conjunto, que deixasse suas tarefas administrativas para assumir a chefia da força-tarefa para Chocó.

O general já contava com muita experiência em combate, mas assumir o comando da Força-Tarefa "Titã", que coordena os esforços da Marinha, Exército, Força Aérea e polícia da Colômbia, requer algo mais.

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Image caption A esposa do general afirma que ele tinha boas relações com a população de Chocó

"Sua tarefa é dupla, general: dar segurança aos cidadãos e criar as condições para que a prosperidade possa se traduzir em uma melhor qualidade de vida para todos", disse o presidente a Mora.

Muitos afirmavam que a personalidade do general e seu interesse e capacidade para se conectar com a comunidade faziam com que ele fosse perfeito para a missão.

"Tinha algumas ideias importantes sobre como as Forças Armadas deviam desenvolver boas relações com os colombianos mais pobres", disse à agência de notícias AP Adam Isacson, um especialista em Colômbia do Escritório de Washington sobre a América Latina, que conheceu o general durante uma visita a Chocó.

"É muito próximo da comunidade de Chocó, ele está trabalhando muito pela comunidade em seu projeto principal de ajudá-los", disse a esposa de Mora, Claudia Farfán, logo depois da divulgação da notícia do sequestro.

'Estrela'

Mas, as Farc pareciam ter outra opinião sobre o militar colombiano e o descrevia em uma página do grupo como "el chacho (a suposta estrela) da guerra imperial contra a insurgência na Colômbia".

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"São grandes as contas pendentes do general Alzate Mora com a justiça popular", disse "Iván Ríos", membro das Farc, no comunicado no qual admitiu ter sequestrado o militar.

Mas, os comandantes do grupo guerrilheiro decidiram libertar neste domingo, aparentemente sem maiores condições, "um dos sete generais mais importantes da Colômbia", nas palavras do negociador guerrilheiro Pablo Catatumbo.

No comunicado das Farc anunciando a libertação dos reféns, o grupo insistiu que o processo de paz "não pode estar submetido a nenhum tipo de atitude precipitada e sem reflexão que adie nossa reconciliação".

"É hora do cessar-fogo bilateral, do armistício para que nenhuma vitória bélica nos campos de combate sirva para justificar a interrupção de uma tarefa tão bela e tão histórica, como é a de chegar a um acordo de paz para uma nação que anseia por este destino", acrescentou o grupo guerrilheiro em seu comunicado.

O presidente, por sua vez, aprovou a decisão do grupo guerrilheiro, de libertar o general, e reafirmou sua convicção de que a negociação é a melhor solução para o conflito com as Farc.

"É evidente que esta decisão contribui para recuperar o clima propício para continuar os diálogos, demonstra a maturidade do processo (de paz)", afirmou.