Por que blocos misteriosos estão aparecendo em praias da Europa

Placa encontrada por Tracey Williams na costa da Inglaterra (Foto: Tom Quinn Williams) Direito de imagem Tom Quinn Williams
Image caption Suspeita-se que os blocos tenham saído de um navio japonês abatido durante a 1ª Guerra

Em meados de 2012, a britânica Tracey Williams estava passeando com seu cachorro em uma praia da Cornualha (Inglaterra) quando avistou uma placa negra na areia. Feita de algo que parecia borracha, a placa tinha inscrita a palavra "Tjipetir".

Williams ficou ainda mais intrigada ao encontrar, semanas depois, uma placa semelhante em outra praia e decidiu pesquisar a origem dos misteriosos objetos. E suas descobertas envolvem relatos sobre naufrágios, uma tragédia que remete à 1ª Guerra Mundial e o Titanic.

E ela soube também que as mesmas placas estavam surgindo em praias do norte da Europa, surpreendendo moradores e gerando especulações na imprensa.

Agora, Williams acredita ter entendido a origem do mistério - e as autoridades britânicas também.

A palavra Tjipetir, na verdade, se refere a uma plantação de borracha em Java Ocidental, Indonésia, que esteve ativa no final do século 19 e início do 20.

Seus blocos não eram feitos exatamente de borracha - provavelmente são feitos de gutta-percha, que é a goma de uma árvore encontrada na Malásia e que, no passado, era usada para isolar cabos telegráficos no leito marítimo.

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Image caption Imagem aparentemente mostra blocos de Tjipetir na Indonésia entre os séculos 19 e 20

Antes de o plástico moderno ganhar o mercado, a gutta-percha era usada para fabricar itens como bolas de golfe, partes de ursos de pelúcia e bijuterias.

Hipóteses

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Image caption Tracey ficou intrigada com as placas que achou na praia perto de sua casa e escreveu um blog a respeito

Tracey Williams começou a compartilhar suas descobertas em uma página no Facebook (www.facebook.com/TjipetirMystery) e, com isso, passou a receber mensagens de outras pessoas que haviam feito suas próprias investigações sobre a gutta-percha ao encontrar placas em suas praias, em lugares como Espanha, França, Holanda, Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca e outras partes do Reino Unido.

Levantou-se a ideia de que as placas teriam saído dos destroços do Titanic.

"Um jornal francês cobriu a história e afirmou que o Titanic levava gutta-percha", diz Williams. "Verifiquei o manifesto do navio e descobri que de fato ele levava gutta-percha e borracha. Houve muita especulação quanto a isso."

Mas, em meados de 2013, Williams deu um passo importante na apuração: foi contactada em duas ocasiões diferentes por duas pessoas (que quiseram permanecer anônimas), que afirmaram que a gutta-percha vinha de um navio japonês, o Miyazaki Maru, que naufragou durante a 1ª Guerra, carregando blocos Tjipetir.

Acredita-se que as placas tenham vindo à superfície depois que uma empresa escavou o fundo do mar em um esforço para recuperar a carga do navio naufragado.

Autoridades britânicas também acham que a hipótese mais provável é de que as placas vieram do Miyazaki Maru.

"Quando somos informados sobre destroços (marítimos), conduzimos pesquisas para identificar o dono", diz Alison Kentuck, responsável pela administração de destroços descobertos em águas britânicas. "E esses itens em particular (a gutta-percha) sinalizam para esse naufrágio. Então, ainda que isso não esteja confirmado, o Miyazaki Maru é nossa hipótese mais forte como origem das placas."

O Miyazaki Maru foi afundado pelo submarino alemão U-88, comandado pelo capitão Walther Schwieger.

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Image caption Várias pessoas encontraram placas semelhantes na Europa: acima, Adam Adamson e Marina com a que encontraram nas ilhas Shetland, entre Grã-Bretanha e Noruega
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Image caption Jan Jacob Westerbeek encontrou seu bloco em Bergen aan Zee, na Holanda, em dezembro de 2013
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Image caption Friederike Wegert e seus filhos também encontraram uma placa na ilha de Borkum, na Alemanha
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Image caption Corentin Perrin encontrou este bloco em Brem sur Mer, na França
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Image caption Louise Mamet encontrou uma placa em Dunes de Sainte Marguerite, na França
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Image caption Jonathan Johansson e sua mãe Lisbeth (na foto) encontraram um bloco em Heestrand, na Suécia

E Schwieger também foi responsável pelo submarino que provocou o naufrágio, em maio de 1915, do RMS Lusitania, navio que rumava a Liverpool com 1.924 passageiros e tripulantes vindos de Nova York. Esse naufrágio deixou mais de 1,1 mil mortos, entre eles mais de cem americanos, e acredita-se que o episódio tenha precipitado a entrada dos Estados Unidos na guerra.

O oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer, especializado no rastreamento de destroços, afirma que os blocos Tjipetir podem estar flutuando nas praias europeias há anos e anos. "São necessários 25 anos para que destroços deem a volta ao mundo, e esses provavelmente estão por aí há tempo o suficiente para dar a volta ao mundo três vezes", diz.

"(As placas) ainda estão em bom estado após tantos anos, o que é incomum. Provavelmente (ainda) serão encontrados daqui a cem anos."

Rumo às Américas?

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Ebbesmeyer acredita também que as correntes oceânicas podem estar levando as placas da Espanha rumo ao continente americano, fazendo a "mesma rota de Cristóvão Colombo" e tendo a Flórida como provável destino final.

As placas encontradas no Mar do Norte devem, segundo ele, passar pela Noruega, pela Sibéria e atravessar o Estreito de Bering até o Pacífico Norte.

Diversas pessoas alegam ter encontrado placas Tjipetir em 2008, antes que começassem os trabalhos de recuperação da carga do Miyazaki Maru.

Uma delas veio a público dizer que encontrou uma placa mais de 30 anos atrás e a usou como tábua para cortar peixes.

"Muitos navios carregaram gutta-percha, então é possível que a carga tenha mais de uma origem", diz Williams, que está escrevendo um livro sobre o mistério de Tjipetir. "(As placas) estão sendo vistas como poluição - e eu limpo sujeira o tempo todo nas praias que frequento -, mas a gutta-percha é um produto natural, então ele se desintegra. Já vi alguns blocos desintegrados na praia."

Ela especula se outras empresas estarão fazendo resgates de cargas da 1ª Guerra. "Será possível que algumas placas seriam do Titanic? Não sei."